segunda-feira, 20 de junho de 2016

Vasco Martins, Artista do mundo


Há duas semanas tivemos a oportunidade de ouvir em Coimbra, e ao vivo, um grande artista cabo-verdiano que tem também nacionalidade portuguesa. Vasco Martins esteve entre nós para participar na apresentação do seu CD “Viagens no imaginário da Morna” editado pela Orquestra Clássica do Centro tendo ainda, no dia seguinte, apresentado o seu mais recente livro, “SINFONIAS”.
Vasco Martins é muitas vezes apresentado como o maior compositor actual de música erudita de África, o que é na verdade redutor perante a sua personalidade artística. Vasco Martins é, antes de tudo, um artista multifacetado, sendo um grande compositor de música clássica que acontece ter escolhido viver em Cabo-Verde não sendo capaz, nas suas próprias palavras, de estar mais de um mês afastado de Vale da Ribeira de Calhau onde actualmente reside, na ilha de S. Vicente.
Vasco Martins é também escritor, tendo editado vários livros de entre os quais o já referido “Sinfonias”, mas também os seus trabalhos sobre a Música Tradicional Cabo-Verdiana (Morna), as obras “A Verdadeira Dimensão”, “Tempos da Moral moral” sobre a sua mundividência e ainda os livros de poemas “Universo da Ilha” e “Navegam os olhares com o voo do pássaro”. Foi ainda co-autor, juntamente com o pintor Tchalé Figueira, de um livro sobre a vida de Cesária Évora (Cesária – A rota da Lua vagabunda) editado em Coimbra pela Orquestra Clássica do Centro.
Pela sua ligação afectiva e intelectual à Morna é o responsável pelo Centro de Estudos da Morna que tem como um dos seus objectivos o reconhecimento deste género musical como património mundial pela Unesco. Como o próprio Vasco Martins escreve, “a Morna é sem dúvida uma das mais belas manifestações do mundo da chamada ‘música popular urbana” e está, sem dúvida, no interior de muita da sua produção musical.

Mas Vasco Martins vai muito para além disso, como compositor. A sua formação musical iniciou-se com Fernando Lopes Graça após o que continuou os seus estudos em Paris com Henri-Claude Fantapié. Teve contacto próximo com a música dita contemporânea modal e dodecafónica, tendo-se, no entanto, afastado dela por a achar puramente intelectual, afastando-se do prazer que esta forma de arte deve proporcionar a quem dela desfruta.
Vasco Martins é um compositor prolífico, tendo escrito nove sinfonias entre 1997 e 2013, estando neste momento a terminar a décima. Em vez de as numerar designa-as com nomes próprios que remetem claramente para o ambiente geográfico, cultural e artístico de Cabo Verde. Assim surgem as sinfonias “Equinócio”, “Erupção”, “Arquipélago”, “Oceano Atlântico”, mas também “Buda Dharma” ou “Himalaias” que reflectem as suas preocupações cosmogónicas. Para além das sinfonias, Vasco Martins tem ainda obras para guitarra, piano e sintetizador, reflectindo os seus diversos interesses musicais para além da música clássica, como o jazz ou a música new-wave, para além da Morna, claro.
O facto de a sua obra musical ter frequentemente referências à música de Cabo–Verde não significa que fique confinada a um estilo “nacionalista” ou mesmo folclórico. Longe disso. Como o próprio Vasco Martins acentua, muitos compositores clássicos integraram elementos musicais das suas terras como Chopin, Mahler, Stravinsky, ou o próprio Bach, para além de muitos compositores que incluíram elementos musicais das terras de que gostavam como Debussy ou Messiaen. 
A música sinfónica de Vasco Martins é belíssima em qualquer parte do mundo, sendo a prova do seu enorme talento, mas também da justeza das suas opções musicais. Nas suas sinfonias Vasco Martins utiliza a orquestra como um instrumento, muito para além da variedade de sons dos seus instrumentos musicais constituintes, sendo perceptível a sua admiração por esse instrumento colectivo complexo.

A edição do CD “Viagens no imaginário da Morna” com composições sobre temas da música tradicional de Cabo-Verde é um acontecimento invulgar entre nós, tanto mais importante quanto o Fado não se encontra tão longe da Morna quanto se poderia pensar.

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