segunda-feira, 25 de julho de 2011

DOIS HOMENS COM O MUNDO A SEUS PÉS



Já pouca gente se lembrará, mas dentro de poucos meses faz vinte anos que o corpo de Robert Maxwell foi encontrado perto do seu luxuoso iate nas Ilhas Canárias. Terminava assim a história fabulosa de um dos maiores potentados da comunicação social do século XX. Na realidade, nunca se soube se a sua morte ocorrida em Novembro de 1991 se terá devido a acidente, a homicídio ou mesmo a suicídio. O que é certo é que foi enterrado no Monte das Oliveiras em Jerusalém e teve um funeral praticamente de Estado.

Robert Maxwell começou por baixo. Originário da Hungria, a sua família judaica foi praticamente dizimada pelos nazis em Auschwitz, destino a que escapou por ter fugido para Inglaterra apenas com dezassete anos. Durante a guerra participou em acções do exército Britânico por toda a Europa, tendo recebido altas condecorações em combate. Foi depois eleito para o Parlamento britânico pelo Partido Trabalhista. Mas o que tornou Robert Maxwell verdadeiramente conhecido no mundo inteiro foi o império de comunicação social que construiu. As suas empresas detinham títulos como o "Daily Mirror", o "Daily Record", o "Sunday Mail" e diversos outros jornais mesmo nos EUA como o "New York Daily News", além de editoras importantes como a "Pergamon Press" e outras. Era dono de metade da MTV na Europa.

No entanto, a sua actuação empresarial foi sempre discutível. Ao lado das empresas de comunicação social tinha as suas próprias empresas pessoais, para as quais foi desviando os recursos daquelas e mesmo os próprios fundos de pensões. Ao tempo em que morreu, os problemas financeiros e legais do seu império eram já impossíveis de esconder e logo em 1992 o filho declarou a falência com dívidas enormes.


Nas últimas semanas, o império de comunicação social de Rupert Murdoch sofreu um grande abalo com as denúncias de comportamentos no mínimo reprováveis por parte dos responsáveis e jornalistas dos seus jornais. Um dos jornais, o centenário "News of The World" foi mesmo encerrado, enviando várias centenas de profissionais para o desemprego. Cria-se a ideia de que muitos jornais são utilizados apenas para satisfazer os interesses económicos dos seu proprietários, lançando mão de todos os expedientes, por mais criticáveis e mesmos condenáveis que sejam. Desconfia-se, e certamente com razão, que essas mesmas técnicas serão usadas em muitos outros jornais e mesmo televisões do império de Rupert Murdoch que foi ao Parlamento Inglês prestar declarações com o filho, tendo sido prontamente desmentido acerca do que lá foi afirmar em sua defesa.

Infelizmente, tem-se vindo a espalhar uma ideia difusa de que muita comunicação social é hoje largamente dependente dos interesses económicos dos seus proprietários, ultrapassando mesmo a tradicional independência dos jornalistas. O que se tem passado em Inglaterra nos últimos dias, que se desconfia possa passar para o lado de lá do Atlântico onde Rupert Murdoch tem igualmente grande poder na comunicação social é um alerta sobre o que se passa nessa área tão importante da Liberdade em todo o lado, inclusivamente entre nós, precisamente quando se ouve falar em estreitas relações entre secretas e empresas de comunicação social.

Comecei esta crónica falando de Robert Maxwell e os leitores poderão perguntar a que propósito, já que morreu há vinte anos. Curiosamente há mais que coisas que ligam Murdoch e Maxwell para além dos impérios de comunicação social que erigiram. É que os dois homens lutaram nos já longínquos anos 60 pela compra do "News of The World" agora encerrado. Na altura, Rupert Murdoch levou a melhor sobre Robert Maxwell. Trágico destino de um jornal de escândalos tão intimamente ligado a dois dos mais escandalosos magnatas da comunicação social.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 25 de Julho de 2011

Sem comentários: