segunda-feira, 25 de julho de 2022

Errar na comunicação ou nas decisões?


 O funcionamento das sociedades actuais exige, para além da tomada de decisões e mesmo da sua execução, uma adequada Comunicação sem a qual os seus destinatários poderão não compreender o seu alcance ou mesmo discordar sem razão para o fazer. A Comunicação tornou-se parte do próprio processo de decisão, permitindo ir aferindo as sensibilidades das populações e mesmo a sua evolução com o tempo e assim ir ajustando as medidas tomadas com determinado objectivo.

É sabido que o mundo se tornou uma aldeia global, podendo também usar-se uma classificação semelhante para os países, independentemente da sua dimensão. A velocidade estonteante a que correm as notícias e a facilidade de acesso de todos os cidadãos a meios que até há pouco tempo estavam reservados a empresas de comunicação social vieram alterar toda a relação entre decisores e os cidadãos em geral.

Esta nova realidade tem aspectos altamente positivos, mas também perigos reais, caso os receptores das mensagens não estejam devidamente preparados e mesmo atentos ao circunstancialismo actual da informação. Perigos esses que têm essencialmente duas origens possíveis, embora haja mais: manipulação das notícias pelos próprios decisores e construção de narrativas paralelas por quem tem capacidade de utilizar os meios para o fazer, dentro do circuito inicial da informação ou mesmo após a sua divulgação. Também as «fake news» são hoje bem conhecidas, fazendo o termo já parte do nosso quotidiano; Quem não se lembra de Donald Trump, mas também do antigo ministro dos estrangeiros iraquiano, para não falar da actualidade trágica de Putin? A Comunicação é ainda muitas vezes confundida, propositadamente ou por ignorância, com publicidade ou mesmo propaganda. Isso acontece com produtos comerciais, mas também na actividade governativa aos seus mais diversos níveis, desde nacional a local.

Por vezes, com uma frequência bem maior do que seria de desejar e mesmo a um nível em que tal é apenas puramente inaceitável, assistimos a governantes que atiram para cima da Comunicação a responsabilidade das suas decisões erradas. O caso recente do Ministro Pedro Santos é, sob essa perspectiva, paradigmático. A sua decisão de avançar de forma voluntarista e sem qualquer base política ou técnica séria para uma solução relativa ao novo aeroporto de Lisboa constituiu, em si mesma, um disparate completo indo mesmo ao arrepio do que pouco antes havia sido dito pelo próprio Primeiro-Ministro António Costa. 


Contudo, ao apresentar-se perante o país numa posição de humildade que de tão forçada a muitos pareceu totalmente hipócrita visando apenas a manutenção do poder, lá foi referindo um suposto erro de comunicação como a causa do sucedido. Já o Primeiro-Ministro, ao aceitar a manutenção no Ministro, seja lá por que razão for, mas que os colocou mal a ambos, classificou o sucedido como um erro grave. E não falou em Comunicação, porque não quis branquear a atitude do Ministro, mas também porque se há alguém em Portugal que sabe de Comunicação política é ele próprio e não confunde as coisas.

A Comunicação pressupõe verdade e profundo conhecimento do assunto a que se refere, tal como capacidade para uma eficaz utilização dos meios ao dispor e ainda dos objectivos a atingir e do circunstancialismo do receptor a quem se dirige. Quando isto é esquecido e se utiliza apenas com objectivos escondidos ou hipócritas torna-se em algo muito feio e condenável, sem respeito pela dignidade daqueles a quem se dirige. Os quais, mais cedo ou mais tarde, tomarão consciência disso mesmo e serão eles, que no fundo são quem democraticamente tem a palavra final, a perder o respeito por eles e a dar-lhes o destino merecido.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 25 de Julho de 2022

Imagens recolhidas na internet

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Guerra, sempre a guerra

 


Há mais de quatro meses que o mundo assiste a uma guerra em directo. Mais uma. As razões apresentadas por quem está em guerra são milenares e repetem-se sistematicamente: garantir a segurança dos cidadãos e proteger fronteiras. E também nesta guerra que já começamos todos a ficar cansados de seguir diariamente nas TV’s as justificações não variam. A Rússia que a começou invadindo um país vizinho, a Ucrânia, argumenta com a necessidade de se defender preventivamente perante a expansão da NATO e ainda com o que diz ser a ameaça neo-nazi do poder político ucraniano. Já do lado ucraniano a guerra justifica-se da forma mais simples e imediata: defender o povo perante uma invasão externa e tentar manter as fronteiras internacionalmente definidas.

Nos últimos 77 anos a Europa viveu um raro período de paz apenas com umas excepções pontuais que, curiosamente, tiveram a ver com a ex-União Soviética e a forma de poder que espalhou pelos países satélites do Pacto de Varsóvia: as invasões russas da Hungria em 1956 e da Checoslováquia em 1968 e ainda a guerra dos Balcãs que se seguiu ao desmoronamento da União Soviética.

Mas a História da Europa não é uma história de paz. Da Grécia antiga lembramos a cultura e talvez a primeira aproximação da Democracia, mas não podemos esquecer as guerras entre as cidades-estado gregas. Tal como o Império Romano levou a cultura e a organização a quase toda a Europa à custa das guerras levadas a cabo pelas legiões romanas, de que a nossa Península Ibérica também não escapou. Tal como as Guerras Púnicas não se desenvolveram apenas no Norte de África onde se localizava Cartago, mas também tiveram por palco zonas europeias junto ao Mediterrânio. O fim do Império Romano ditado pelas chamadas Invasões Bárbaras foi acompanhado por novas guerras em toda a Europa. 


A nossa Coimbra tem também aqui a sua origem, com a transferência (fuga?) do Bispo de Conímbriga para Aeminium ditando de passagem a mudança do nome da cidade para a designação que ainda hoje perdura. No início do sec. IX Carlos Magno através de inúmeras batalhas pretendeu reconstituir o antigo império romano no que ficou conhecido como Império Carolíngio e quase o conseguiu, apenas praticamente escapando a Península Ibérica. Esta já era, na sua quase totalidade, muçulmana desde o século anterior. Guerras também foram as da chamada Reconquista Cristã que serviram de palco para a formação de Portugal nos séculos XII e XIII. A Europa continuou praticamente sempre em guerra, umas vezes defendendo-se do exterior como no caso da defesa perante a expansão do Império Otomano que quase conquistou Viena já no século XVII, outras vezes em guerras intestinas. Estão neste caso as Guerras dos Cem Anos nos secs. XIV e XV, Dos Trinta Anos XVII e dos Sete Anos no sec. XVIII, que provocaram milhões de mortos. Em 1588 Filipe II de Espanha (o primeiro rei da terceira dinastia de Portugal) tentou invadir a Inglaterra com a chamada Armada Invencível que foi destruída levando também para o fundo os navios e marinheiros portugueses que dela faziam parte.

No início do sec XIX foi a vez de os franceses tentarem formar um novo império desta vez em nome dos princípios da Luz da Revolução Francesa sob o comando de Napoleão Bonaparte, sonho esse terminado em Waterloo em 18 de Junho de 1815. Entretanto também Portugal tinha sido dizimado e roubado infamemente por tropas francesas e inglesas que nos vieram ajudar contra as três invasões daquelas, com consequência trágicas para todo o sec. XIX português.

No séc. XX a Europa foi palco de duas guerras que acabaram por ser consideradas mundiais, mas estas já são tão recentes que todos as conhecemos em pormenor.

E também Portugal teve a sua guerra no sec. XX. As lutas contra os movimentos de libertação das colónias africanas portuguesas duraram entre 1961 e 1974 só tendo terminado em consequência da Revolução do 25 de Abril. Esta, por sua vez, teve como origem principal precisamente a manutenção daquelas guerras com cerca de dez mil mortos e centenas de milhares de feridos só entre as tropas portuguesas, sem contar com as baixas dos movimentos de libertação.

E esta guerra portuguesa é claramente uma das demonstrações de como as justificações das guerras são, tantas vezes, falaciosas. A negação do direito à autodeterminação dos povos não pode ter como base uma afirmação de soberania baseada na força e em princípios ultrapassados pela História. Olhando para essa guerra à distância de mais de 40 anos isso ressalta como evidência absoluta.

Que a Federação Russa leve a guerra a um país vizinho soberano em 2022, porque na realidade não reconhece à Ucrânia o direito à sua auto-determinação após o desmembrar da antiga União Soviética é algo que à luz da História e do Direito, é dificilmente compreensível e absolutamente inaceitável pela comunidade internacional.

Publicado originalmente no Diário de  Coimbra em 11 de Julho de 2022

Imagens retiradas da internet

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Coimbra, 4 de Julho

 


Cai esta crónica na data do feriado municipal de Coimbra. Não haverá muitas cidades que mantenham, há tanto tempo, uma relação de devoção popular tão profunda e permanente com o seu santo padroeiro como acontece com Coimbra e a sua Rainha Santa Isabel.

A Rainha Santa Isabel terá nascido em Saragoça, Aragão, no dia 4 de Janeiro de 1270, sendo filha de D. Pedro rei de Aragão e de D. Constança de Hohenstaufen. Casou, por procuração, com o Rei D. Dinis em Junho de 1281, tendo o casamento sido consumado em Trancoso à sua chegada a Portugal, em Junho de 1282. Foi mãe do futuro rei D. Afonso IV e de Constança, futura rainha de Castela pelo seu casamento com Fernando IV de Leão e Castela. Após o falecimento de D. Dinis em 1325, recolheu-se a Coimbra, no seu Paço situado nas proximidades do Mosteiro das Clarissas de Santa Clara por ela mesma fundado e na altura em construção. A Rainha Santa Isabel viria a falecer em Estremoz em 4 de Julho de 1336.

Durante toda a sua vida praticou a caridade, deslocando-se frequentemente ela própria junto das populações mais desfavorecidas por pobreza e doença sem cuidar da sua saúde, ganhando logo em vida fama de santidade junto dessas camadas sociais. De tal forma era intensa essa actividade que o próprio D. Dinis se lhe opunha por vezes, receando pela saúde da rainha e diz-se, também para evitar os cortes no tesouro real que a caridade da rainha provocava. Daí virá a lenda do famoso «milagre das rosas» que partilha com a sua tia Santa Isabel da Hungria. Numa determinada altura em que a rainha se deslocava junto dos pobres para lhes distribuir comida, El-Rei saiu-lhe ao caminho indagando-lhe o que levava debaixo do vestido ao que D. Isabel lhe respondeu serem rosas, bem sabendo que se tratava de pão; D. Dinis ripostou exclamando: “rosas em Janeiro, Senhora?” Mas abrindo o vestido, D. Isabel mostrou que se tratava, afinal, de rosas, deixando o seu marido confuso e arrependido do que fizera, perante a maravilha do sucedido.

O «milagre das rosas» é um mito conhecido, mas muitos mais são os milagres que são atribuídos à intercessão da Rainha Santa em favor dos que a ela recorrem perante as mais diversas e grandes dificuldades. Tal como milagre é considerada a circunstância de, depois de morta por lepra, aquando do seu transporte para Coimbra como fora sua vontade, do seu corpo sair um suave odor a rosas em vez do normal cheiro de decomposição da carne. Como o facto de ainda hoje o seu corpo se encontrar incorrupto é motivo de grande admiração popular, que leva a que, em datas especiais, seja aberto o túmulo de prata em que se encontra depositado, permitindo que a sua mão, que tantas obras de caridade praticou em vida há quase 700 anos, possa ser observada por qualquer pessoa. Pela sua vida o povo de Portugal inteiro e principalmente o de Coimbra desde sempre a considerou santa e lhe dedicou uma tão grande devoção que a Igreja a beatificou em 1516, pelo Papa Leão X, tendo sido canonizada pelo Papa Urbano VIII em 1625. Devoção essa ainda hoje manifestada publicamente mesmo por não crentes, como tantas vezes já tive oportunidade de testemunhar ao longo dos anos.


A Rainha Santa Isabel é a padroeira de Coimbra e o dia da sua morte, 4 de Julho, o Feriado Municipal da Cidade. Há centenas de anos que esta data tem a sua celebração religiosa, de que as procissões, da descida da imagem da Rainha Santa e do seu regresso ao Mosteiro onde repousam os seus restos mortais, Sta Clara-a-Nova, de onde se desfruta da melhor vista de Coimbra, são o ponto alto. Mas a devoção popular da Rainha Santa não permitiria que as suas festas se ficassem pela religiosidade. São tradicionais os mais diversos festejos profanos que a acompanham com alegria, como sucede todos os anos com mais ou menos sucesso, com folguedos diversos e manifestações culturais respondendo aos interesses dos mais diferentes públicos.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 4 de Julho de 2022

Imagem da Rainha Santa recolhida no site da Confraria da Rainha Santa Isabel