Enquanto se discute ainda se a Inteligência Artificial (IA) será capaz de poder tomar conta de sistemas capazes de tomar decisões com consequências decisivas para o futuro da Humanidade, o prémio Nobel Geoffrey Hinton, considerado como o padrinho da IA acredita que esta já poderá ter consciência, “podendo ter experiências subjectivas semelhantes aos humanos”. Se na China a investigação nesta área está dependente do Estado como tudo o que é importante no resto do mundo, e em particular nos EUA, são empresas privadas que dominam o sector, sendo gigantes a nível mundial em influência e valor bolsista de capitalização, como são: a OpenAI, a Google DeepMind, a Anthropic, a Meta AI, a Microsoft Research, a NVIDIA Research ou a xAI de Elon Musk. Discute-se muito a regulação na investigação de IA mas, no fundo, é apenas alguma auto-regulação que existe, se é que existe, dada a enorme competição entre as empresas.
Todos nós somos já, de alguma forma, utentes da IA de que dependemos cada vez mais. Toda a actividade humana, desde a simples escrita de textos até à produção industrial ou mesmo à guerra depende da utilização de equipamentos e maquinaria que integram, no seu funcionamento, alguma forma de IA. Se há pouco tempo se poderia comparar o surgimento da IA a descobertas anteriores da Humanidade como o fogo ou a roda, já se percebeu que esta comparação não faz sentido. Ao contrário daqueles, os robôs da IA podem por si mesmos determinar a continuidade da sua função, mesmo que algures fora da sua localização original.
As redes sociais começaram como simples partilha de opiniões ou manifestações de acordo ou desacordo, mas hoje não são nada disso, influenciando e mesmo manipulando vontades colectivas através dos seus algoritmos. A sua eficácia em estratégias de comunicação é incomensurável, quase fazendo de Goebbels e da sua estratégia de propaganda nazi uma brincadeira de crianças. A guerra na Ucrânia está a mostrar toda uma nova maneira de guerrear, no que se convencionou chamar “guerra híbrida”. Já não é preciso fazer declarações formais de guerra, combinando operações militares convencionais com ciberataques, desinformação, sabotagem contra redes informáticas, utilização de “proxis”, etc. Tudo isto potenciado pela novíssima tecnologia colocada pela IA à disposição dos países. Também aqui as empresas privadas têm um novo papel que pode decidir o resultado das guerras, ultrapassando soberanias. A Ucrânia está dependente, quer na defesa contra mísseis e drones russos, quer no ataque com meios semelhantes, do Starlink e do Starshield, ambos sistemas de comunicações por satélites propriedade de Elon Musk.
Quem manda realmente no mundo já não são os que elegemos, que apenas parecem ter capacidade de mandar em coisas simples que, na realidade, pouco definem como vivemos. Desde que a Microsoft passou a servir de base a quase todos os nossos computadores e que a Apple e a Google mandam nos telemóveis que connosco comunicam de forma pessoal, não tenhamos dúvidas: mandam mais em nós do que os nossos governantes.
As transações financeiras que, a cada segundo, dão várias voltas ao mundo já não respondem aos governos: viajam ao sabor dos algoritmos e das taxas de retorno dos grandes fundos, sejam ou não soberanos, ou mesmo de pensões. As criptomoedas ajudam a manter na escuridão os gigantescos negócios clandestinos que influenciam boa parte da economia exposta.
Os governos dos regimes liberais deixaram-se apanhar numa cilada e muitas das reacções populares a que hoje assistimos são resultado de sentimentos difusos de incapacidade de mudar verdadeiramente e de incompreensão pelo que se passa; já nem nas contas dos países mandam verdadeiramente, como nós bem sabemos: as taxas de juro, as empresas privadas de ranking e as dívidas gigantescas dominam as finanças que se dizem (ou julgam) soberanas.
Estamos a viver um momento de mudança radical em que sabemos de onde vimos, mas não fazemos ideia de para onde vamos.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 2 Novembro 2026