As situações limite constituem oportunidades para testar sistemas instalados e, depois de ultrapassadas, proceder a uma avaliação do sucedido. É fácil responsabilizar pelas alterações climáticas a actual situação que se verifica em largas zonas do país depois da tempestades Kristin e Leonardo, mas assim se retira a carga que deveria cair sobre quem tem a responsabilidade de planear o ordenamento do território.
Por sorte nossa, no que a Coimbra respeita, a tempestade Kistin desviou-se relativamente ao previsto e não fomos vítimas ao nível do sucedido na região de Leiria. Mas as chuvas intensas e permanentes que temos sofrido fizeram recordar as cheias anteriores, em particular as de 2001 e 2016, causando ansiedade e fazendo regressar as preocupações com as consequências das inundações.
É também o momento para colocar questões que continuam sem resposta há dezenas de anos. É certo e sabido que, depois da tragédia, tudo se esquece e parte-se para novas questões “urgentes” que passam a ocupar o espaço mediático. Infelizmente, os eventuais relatórios sobre o que se passou irão para o fundo das gavetas, sem que aproveitem ao futuro.
Nos anos 60 do sec. passado foi elaborado e aprovado o Plano de Aproveitamento do Mondego” que foi concretizado, durante as duas décadas seguintes, embora não totalmente. Acresce a existência da “Estratégia Nacional para a Gestão da Água”, plano essencial para uma eficiente gestão de um recurso essencial. Relativamente à bacia do Mondego, está prevista a construção da barragem de Girabolhos acompanhada da central da Bogueira. Este conjunto é essencial para uma gestão eficiente das águas do Mondego. A construção desta barragem foi iniciada mas, em 2016, foi parada pelo Governo de então. Como consequência das tempestades deste Inverno, o actual Governo anunciou novo concurso para a construção deste empreendimento que, desta vez e com atraso de tantos anos, se espera que finalmente venha a ser completamente executado.
Fica à vista de todos o problema do planeamento territorial em Portugal de que parece só se tomar consciência colectiva quando surgem as consequências sofridas por tanta gente.
Mas temos ainda outra questão grave, que é a da gestão do território. E não precisamos de sair da bacia do Mondego para o provar. De facto, embora incompleto, o plano velho de 60 anos de “Aproveitamento Hidráulico do Mondego” é uma obra notável a nível nacional e de uma importância crucial para a bacia do Mondego. Mas nunca foi criada uma entidade que pudesse fazer a sua gestão global, compatibilizando os vários interesses, tantas vezes conflituantes. É necessário gerir as várias barragens existentes, em função da produção de energia eléctrica, incluindo igualmente as descargas, segurança e operação hidráulica; mas também desenvolver e manter o sistema de regadio do Baixo Mondego e promover o desenvolvimento agrícola e territorial, entre outras funções de relevo.
Nem é preciso inventar. De facto, todas estas competências são as da EDIA que gere o empreendimento do Alqueva com os resultados que se conhecem.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 9 Fevereiro 2026
