segunda-feira, 13 de abril de 2026

E A NATO?

 

A Organização do Tratado do Atlântico Norte foi fundada em 4 de Abril de 1949 com a assinatura do Tratado do Atlântico Norte em Washington. Originalmente fizeram parte da NATO (ou OTAN, utilizando a designação na nossa língua) 12 países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Portugal, Reino Unido e os Estados Unidos. Ao longo dos anos, devido a várias razões, mas essencialmente pensando na sua própria segurança, muitos outros países integraram a NATO que hoje inclui também a Alemanha, a Grécia, a Turquia, a Espanha, a Hungria, a Polónia, a República Checa, a Bulgária, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Roménia, a Eslováquia, a Eslovénia, a Albânia, a Croácia, o Montenegro, a Macedónia do Norte e finalmente, a Finlândia e a Suécia, num total de 32 países.

A NATO surgiu pouco depois do fim da II Guerra Mundial, já num contexto de “guerra fria” e era uma clara resposta ao expansionismo soviético que conseguira impor regimes comunistas em praticamente toda a Europa de Leste e mesmo Central.

Trata-se de uma organização de carácter militar de defesa, isto é, se qualquer um dos países signatários sofrer o ataque de um país externo, pode pedir a ajuda de toda a Organização. Ao longo da sua existência, houve duas excepções, no Afeganistão na sequência do atentado do 11 de Setembro sob mandato das Nações Unidas e na ex-Jugoslávia em 1995 igualmente de acordo com a ONU.

Os EUA sempre tiveram um papel essencial na NATO, dada a sua dimensão territorial, mas também militar. Contudo, o actual Presidente Donald Trump tem demonstrado uma insatisfação crescente para com a NATO. Entrou mesmo em conflito com um país da NATO, a Dinamarca, com a exigência de transferência da soberania da Gronelândia. Com esta guerra do Irão Trump enfiou-se num buraco sem saída airosa. Quando a começou não perguntou aos seus aliados. Depois, não contactou a NATO, apenas desafiou alguns países a ajudá-lo no Estreito de Ormuz, sem resposta.

Como reacção, Trump regiu com: “A NATO não estava lá, quando precisámos dela. Lembrem-se da Gronelândia, aquele grande, pobremente governado pedaço de gelo”. Isto é, Trump não é capaz de negociar com ninguém, nem com os velhos aliados da América. Só é capaz de impor as suas posições, como sempre fez, noutras circunstâncias pessoais.

E a NATO? Como vai ficar ou evoluir depois disto? Há quem defenda que vai acabar ou que continuará numa nova formulação, sem os EUA. Não me parece que tal venha a suceder. A invasão russa à Ucrânia e a guerra que ainda continua é a prova de que o Ocidente precisa de estar unido, seja a Rússia uma ditadura comunista ou outra qualquer. E a China é e vai ser a verdadeira super-potência, para além dos EUA. Trump vai passar e a sua presidência vai servir de vacina contra as tentações pessoais durante muito tempo nos EUA. Assim o resto do Ocidente o perceba e tenha o bom senso de agir em conformidade. A América é muito mais e muito melhor do que esta fase trumpiana, como o prova a Artemis.

 Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 13 Abril 2026

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O QUE VEMOS, OUVIMOS E LEMOS

 

Já tínhamos tido anteriormente a experiência de observar uma guerra em directo. Mas nunca como desta vez foi possível dispor de uma variedade tão grande de comentadores televisivos a opinar sobre os acontecimentos. À quase infinidade de especialistas em relações internacionais junta-se uma variedade de especialistas militares, praticamente todos generais, que nos deixa perplexos. Para começar é difícil perceber como é possível um país com umas Forças Armadas tão reduzidas produzir uma tão grande quantidade de generais, imagino que todos eles já fora do activo. Por outro lado, sendo Portugal um país integrante de uma aliança como a NATO mal se percebe que alguns desses generais mais pareçam porta-vozes do regime de um país claramente em conflito com o ocidente, como é a Rússia.

Todos esses comentadores explicam como funcionam os mais diversos artefactos de guerra, a distância a que são letais, as respectivas contra-medidas, etc. Desde o tempo da guerra do arco e flecha, se há coisa que o Homem tem evoluído é em encontrar novos processos de matar a distâncias cada vez maiores e mais gente de cada vez. Pode mesmo afirmar-se que, durante as guerras, a evolução da tecnologia acelera de uma forma muito superior aos tempos de paz. Vá lá que, terminados os conflitos, se torna possível utilizar muitas dessas invenções para fins pacíficos e de utilização generalizada, como acontece com o GPS. Mas, entretanto, a capacidade de invenção humana para matar semelhantes continua a mostrar-se de forma imparável. Aqueles brinquedos que nos divertiam há bem poucos anos, os drones, passaram a ser das armas mais letais e de utilização mais fácil, mesmo para soldados individuais. Tal como os drones anti-drones, agora dotados de inteligência artificial, que conseguem defender contra máquinas semelhantes, mas mesmo contra mísseis. Aliás, a inteligência artificial domina cada vez mais os teatros de guerra, utilizando a informação recolhida por satélites e internet para seguidamente ordenar o lançamento de contra-medidas e orientando-as até aos alvos, sem intervenção humana no processo. Como em tantos aspectos da vida humana, as preocupações éticas que surgem no início da utilização de novas possibilidades de intervenção rapidamente são ultrapassados em face da possibilidade de garantir êxitos, neste caso militares. Infelizmente, a posição tomada pela empresa Anthropic, a segunda maior de inteligência artificial do mundo, opondo-se à utilização dos seus algoritmos para fins militares deverá estar, mais cedo o mais tarde, destinada ao fracasso. Há sempre alguém que coloca os lucros imediatos à frente das preocupações éticas.

Todos estes aspectos importantes, mas parciais, são sistematicamente abordados pelos comentadores televisivos. Mas o fundamental, isto é, as estratégias e mudanças radicais que se estão a fomentar e mesmo já a verificar-se na construção de uma ordem mundial muito diferente da que até aqui conhecíamos são as mais das vezes completamente esquecidas. 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em  6 Abril 2026

terça-feira, 31 de março de 2026

O EXEMPLO DA UCRÂNIA

 

A guerra da Ucrânia parece esquecida dos noticiários das televisões. Não devia. Já dura há mais de quatro anos, quase tantos como os da II Guerra Mundial.

Na guerra de invasão que a Federação Russa barbaramente leva a cabo na Ucrânia já morreram centenas de milhares de pessoas, militares e civis. A mesma Rússia que invade um país soberano, clama agora contra a violação do direito internacional na guerra do Irão numa demonstração de hipocrisia sem limites. Entretanto, a tal vitória russa que seria obtida em três dias através da conquista da capital e substituição do governo dito “pró-nazi” esfumou-se numa resistência impressionante do povo ucraniano liderado pelo mais improvável dos presidentes. A vitória russa seria hoje conseguida apenas com a ocupação de uma parte do território ucraniano. Já para uma vitória ucraniana chegaria a defesa da integridade do seu território.

O que se passa na frente de batalha é que a Ucrânia se está a revelar um adversário poderoso, capaz de utilizar novas tecnologias de uma forma poderosa e eficiente. O exemplo de Kupyansk é paradigmático disso mesmo: na semana passada esta cidade foi completamente recuperada pelas forças ucranianas.

À força bruta do invasor russo que utiliza tácticas antigas com material pesado e muitos homens no terreno, a Ucrânia opõe novas tácticas inteligentes e adaptativas desenvolvidas durante estes anos de guerra de resistência. As unidades russas são sistematicamente atraídas para locais previamente armadilhados sendo vítimas de ataques coordenados de drones e artilharia em posições cuidadosamente escolhidas. A utilização de informação é essencial nesta guerra, sendo os militares russos sistematicamente “apanhados” com baixas impressionantes, numa média diária de mais de mil nos últimos meses. A produção ucraniana de drones explodiu e a sua utilização e controlo é hoje feita localmente, de forma a ampliar a eficácia, simultaneamente preservando as forças ucranianas.

As perdas russas têm sido brutais, em equipamento e em baixas humanas. Nas armadilhas ucranianas em que caem, sistematicamente dezenas de tanques e de veículos de transporte são obliterados.

Por outro lado, nestes anos de guerra a Ucrânia desenvolveu uma indústria de guerra que lhe tem permitido atacar a própria Rússia no interior do seu território onde lhe dói mais: na indústria petrolífera, fonte principal dinheiro do orçamento russo.

Assim ultrapassou uma limitação a que o Ocidente (EUA e Europa) a sujeitou, que foi o de não lhe fornecer armas de longo alcance: como se um país atacado não pudesse responder ao invasor e se devesse limitar a defender o seu território.

Não por acaso, na semana passada o presidente russo apelou aos oligarcas para que financiem "voluntariamente" a campanha militar na Ucrânia, numa reunião à porta fechada. Por outro lado, os ataques russos a alvos puramente civis na Ucrânia acentuaram-se nos últimos dias, incluindo, no passado dia 23, o bombardeamento do Mosteiro de Lviv do sec. XVII, Património Mundial da Unesco.

Os ucranianos são um exemplo para todos nós. Assim o Ocidente democrático e liberal saiba corresponder.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 30 de Março de 2026