segunda-feira, 14 de setembro de 2026

“O SENHOR É DA MAÇONARIA?”

 

Constitucionalmente “a República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas”. Acrescenta ainda a nossa Constituição que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei” e que “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas”. Acresce que, pela nossa lei fundamental, “os cidadãos têm o direito de, livremente e sem dependência de qualquer autorização, constituir associações, desde que estas não se destinem a promover a violência e os respetivos fins não sejam contrários à lei penal”

Considerei conveniente começar esta crónica lembrando alguns princípios fundamentais que regem a nossa vivência colectiva, pelo simples motivo de que parecem esquecidos por muita gente e, o que é mais espantoso, por cidadãos que nos representam na Assembleia da República.

É ainda conveniente afirmar que por razões que são suas e não vê qualquer interesse em divulgar, o autor destas linhas nunca pertenceu, não pertence e tenciona nunca pertencer à Maçonaria, a fim de que o que vai escrito nestas linhas não seja objecto de más interpretações.

Na recente ida de um Ministro da República a uma comissão da Assembleia da República, um Deputado resolveu fazer-lhe a pergunta que vai no título desta crónica. Na realidade, os deputados têm a liberdade de perguntar o que quer que lhes passe pela cabeça, mas devem ter consciência de que as suas palavras ditas no exercício das suas funções de representação do voto popular têm um significado próprio e profundo, por mais anódinas que pareçam. Neste caso, é evidente o propósito de tentar associar o nome de um responsável governamental à maçonaria, qualquer que fosse a resposta obtida. E, ao fazer aquela pergunta, o Deputado deveria saber que estava a ir contra o espírito e a lei da nossa Constituição, para além de se meter onde não era chamado que é a vida privada de um cidadão.

A Maçonaria é uma associação que respeita princípios com algumas centenas de anos e a liberdade de lhe pertencer é, hoje, total. Já lá vai o tempo em que a Ditadura Militar a encerrou administrativamente em 1926 e o Estado Novo a proibiu em 1950.

Curiosamente, algumas das figuras mais proeminentes do Estado Novo tinham, em certas alturas da sua vida, sido maçons: casos do Presidente Óscar Carmona e do Prof. Bissaya Barreto. Já o antigo Presidente da Assembleia Nacional Albino dos Reis sempre foi considerado como também tendo sido maçon, embora não haja provas disso.

É sobejamente conhecido o papel da Maçonaria nas guerras civis portuguesas do sec. XIX, sendo maçons muitos dos responsáveis liberais. Também foi relevante o seu papel na implantação da República e, ainda, durante a Primeira República. Diria que, para o bem e para o mal, o país que somos é, em larga medida, um legado do papel dos maçons desses tempos. Destes factos virá, ainda hoje, muita da desconfiança que alguns sectores da sociedade portuguesa demonstram para com a maçonaria. Claro que o facto de a Igreja Católica proibir a pertença dos católicos à Maçonaria também tem influência nesse sentimento. Aqui devo recordar que também Álvaro Cunhal no seu tempo proibiria os militantes comunistas de serem maçons. Num e noutro caso se pretenderia evitar a situação de se servir dois amos ao mesmo tempo.

O antigo secretismo da maçonaria está hoje substituído por um aspecto dito “discreto” e conheço vários maçons que não têm qualquer problema em afirmar-se publicamente como tal. Pessoalmente, acho que fazem bem nessa abertura, defendida por António Arnaut que foi seu Grão-Meste e era indiscutivelmente um Homem Bom. Já o Deputado, dito liberal, que fez aquela pergunta em plena Assembleia da República deveria ter vergonha da triste figura que fez.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 14 Setembro 2026 

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

ELES NÃO SABEM NEM SONHAM…

 

QUE ENQUANTO UM HOMEM SONHA O MUNDO PULA E AVANÇA

Quando estudava no Liceu D. João III em Coimbra, surgiu uma música que se tornou quase num hino da juventude desse tempo, cantada por Manuel Freire, cuja letra era “PEDRA FILOSOFAL”, um poema de António Gedeão. Mal sabíamos, então, que o poeta ali cantado não era mais nem menos que o pseudónimo do autor de um livro de capas pretas que todos nós usávamos como guia para experiências de Química, um professor chamado Rómulo de Carvalho.

Pode parecer estranho que, num momento da História da Humanidade atravessado por tantos e graves problemas provocados por personalidades que mal conseguimos compreender, comece uma crónica com citação de um poema que celebra a Liberdade e espelha um optimismo justificado pela capacidade de sonhar com um mundo melhor.

Mas há uma razão para esta introdução e reside no lançamento para o espaço pela NASA, há uma semana, de um novo telescópio espacial que se vai juntar ao outro em actividade desde 2022, o conhecido James Webb, que tanto tem feito avançar a ciência, em particular a astrofísica. O local definido para se colocar, onde chegará daqui a três meses, é designado como o segundo ponto de Lagrange Sol-Terra. Apesar de distar 1,6 milhões de km da Terra, foi escolhido por estar no lado oposto ao Sol onde as forças gravitacionais do Sol e da Terra se equilibram, permitindo ao telescópio acompanhar a órbita da Terra.

Este novo telescópio espacial deverá permitir mapear vastas regiões do espaço 100 mil vezes mais rapidamente do que o Hubble, podendo revelar milhares de planetas exteriores, estudar galáxias e melhorar o conhecimento da matéria escura. Nesta área da Astrofísica, cada grama de conhecimento que se ganha carrega consigo toneladas de novas dúvidas e perplexidades, pelo que a melhoria das capacidades técnicas é crucial para a evolução da ciência.

Só o lançamento deste novo telescópio espacial, cujo desenvolvimento, construção e envio para o espaço custou verbas colossais, visando o aumento do conhecimento humano dos mistérios do Universo em que existimos e de que somos menos que um grão de areia, já seria motivo para se olhar para o futuro da Humanidade com optimismo. Mas outras circunstâncias fazem ainda com que esse optimismo seja ainda mais justificado. O nome deste novo telescópio espacial é “ROMAN SPACE TELESCOPE”. E quem foi Nancy Grace Roman, a Mulher assim homenageada pela NASA?

Nancy Roman foi a primeira mulher a atingir um lugar executivo e a primeira Chefe de Astronomia na NASA, numa altura em que era muito difícil para as mulheres trabalhar em ciência, em particular naquela área. Certa das vantagens em colocar um telescópio no espaço, acima da atmosfera terrestre, levou dezenas de anos, nas décadas 60 e 70 a convencer disso os colegas astrónomos da NASA, bem como outros cientistas e responsáveis governamentais. Finalmente os seus esforços foram coroados de êxito, tendo o financiamento sido aprovado em 1977 e o Hubble sido lançado em 1990. Por esta razões, Nancy Roman, que faleceu em 25 de Dezembro de 2018 passou a ser conhecida como a “Mãe do Hubble”. Sem ela, é muito provável que ainda hoje não existissem telescópios no espaço. Para além da sua actividade científica, Nancy Roman fez questão de encorajar outras mulheres a seguirem carreiras na ciência e astronomia, sendo inspiradora de centenas de cientistas em astronomia e outras áreas de ciência.

O tributo que a NASA lhe presta dando o seu nome a este extraordinário instrumento científico que é o novo telescópio espacial é inteiramente justificado. É igualmente motivo de esperança numa Humanidade que é capaz de reconhecer a vida extraordinária de uma Mulher que sonhou aquilo em que, no seu tempo, mais ninguém acreditava. Contribuindo, assim, decisivamente para a evolução da Ciência, do conhecimento do nosso Universo e uma aproximação do como e do porquê estarmos aqui e qual pode ser o nosso futuro.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 7 Setembro 2026 

 

APENAS PALAVRAS?

Se há dito popular com que não concordo de todo é aquele que diz que “palavras, leva-as o vento”. Como é evidente, desde logo as palavras escritas, ainda que nas páginas dos jornais que todos os dias se renovam, têm um valor social enorme por influenciarem decisivamente a percepção comum do que sucede no mundo, esteja perto ou longe. Como cronista há mais de vinte anos, estou bem consciente desse facto, aliás, quando me esqueço de que as palavras vão ter com os leitores, muitos deles fazem questão de mo lembrar directamente, muitas vezes na rua, comentando aquilo que escrevi, de acordo ou não, mas sempre de uma forma sincera e agradável. Exactamente o contrário do que sucede na internet, em que o anonimato serve de capa às mais desvairadas e violentas críticas, uma das mais negativas facetas do espaço cibernético. Mais do que as dos jornais, são ainda as palavras dos livros, que podemos guardar e ir revisitar em qualquer momento, a exercer uma influência sobre pensamento e formação da consciência individual e colectiva como mais nenhum meio consegue.

E é precisamente o hábito de leitura de jornais e revistas, no meu caso pessoal diria quase vício permanente desde há muitas dezenas de anos, que cria um sentimento crítico sobre as palavras que nos são apresentadas. Sentimento crítico esse que, nos dias de hoje, nos traz frequentemente muita insatisfação relativa ao que lemos. Sei bem que a premência da novidade e de encher permanentemente o mundo informativo tem como consequência um resvalar do cuidado com a escrita e, muito pior, uma desatenção com a verdade do que se transmite.

Caso diferente é a utilização das palavras para enganar os leitores com mentiras que visam manipular a opinião pública, numa total desconsideração pelos leitores e pela sua liberdade de escolha. Muitos dos autores são já conhecidos por defenderem posições políticas mais ou menos radicais, reflectindo os seus textos isso mesmo, daí não havendo grandes consequências, por já esperar isso mesmo. Mas mais importante é a utilização da palavra de uma forma sub-reptícia, sabendo-se bem que as palavras também não são inocentes. Nos últimos dias, duas situações destas me chamaram a atenção e passo a descrevê-las, como demonstração do que acima fica dito.

Na primeira, um jornalista televisivo, ao referir-se a uma declaração de um ministro, não interessa qual, sobre um assunto corrente da governação, não encontrou outra maneira para o fazer do que dizer: “o ministro alegou que”. Isto é, o ministro não afirmou que, o ministro não explicou que, não, o ministro alegou. O jornalista sabe perfeitamente que, ao utilizar a palavra “alegou” em vez de outra qualquer, remete imediatamente o pensamento do espectador para um contexto de tribunal, por ser habitualmente utilizada em contexto jurídico. E isto também não é inocente, num contexto social e político em que a política é cada vez mais discutida nos tribunais.

Na segunda, num texto num jornal de âmbito nacional, o jornalista escreveu, sobre um estudo recente acerca da sustentabilidade da segurança social, que “o estudo partiu do pressuposto de que a seg. social tem um défice de…”. Como é do conhecimento geral, um pressuposto é um valor inicial de que se parte para um estudo que, no fim, apresenta determinados resultados. O jornalista trocou as coisas, isto é, pegou no resultado final e colocou-o no início como pressuposto. Independentemente de se achar que um estudo está certo ou errado, chama-se a isto enganar os leitores, com todas as letras, numa manipulação descarada.

As palavras têm um valor próprio e elas próprias nunca são inocentes. Mas a sua utilização difere quer se esteja num espaço informativo ou num espaço de opinião. Há exigências diferentes que, a não serem respeitadas, podem mesmo constituir um ataque à liberdade de informação, tão importante para a formação de uma consciência colectiva. 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em  31 de Agosto 2026