segunda-feira, 8 de junho de 2026

UMA GUERRA LONGA DEMAIS

 

Antes de a começar, o responsável por esta guerra garantia que a venceria em três dias. Já o irresponsável do outro lado do mundo assegurava, antes de ser eleito, que acabaria com ela em 24 horas. Tanto Putin como Trump mostravam estar completamente enganados sobre a capacidade de resistência do povo ucraniano e do seu improvável presidente Volodymyr Zelensky.

Ao fim de mais de quatro anos, a Rússia nem sequer conseguiu conquistar completamente as quatro regiões ucranianas que declarou anexadas em 2022: Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia. Mesmo a Crimeia anexada pela Russia em Março de 2014 está debaixo do fogo permanente por parte da Ucrânia, o que os dirigentes russos consideravam impensável.

Nada como os clássicos para simplificar a percepção de coisas que vistas de perto nos parecem mais complicadas do que de facto são. Segundo Clausewitz, em a “Arte e Ciência da Guerra “a guerra é um ”acto de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”. Foi exactamente esse o motivo que levou Putin a invadir a Ucrânia, nunca imaginando que se ia meter num buraco que poderá vir a ser o seu fim político, ou pior. Ao atacar a Ucrânia, a Rússia acendeu velhos medos entre os países vizinhos que se lembram demasiado bem do que foi a sua relação com a ex-URSS nos tempos da guerra fria. Se Putin acusava a NATO de pretensão de expansão, conseguiu exactamente isso, isto é que vários países que cultivavam historicamente a neutralidade rapidamente pedissem a adesão à aliança militar como a Suécia e a Finlândia. Em resposta, a Rússia está a expandir a sua infraestrutura militar no Ártico, estando assim o frio Norte europeu a transformar-se numa zona fortemente militarizada.

Enquanto isto acontece o velho aliado europeu do outro lado do Atlântico avisa que vai retirar as suas forças estacionadas na Europa desde a II Guerra Mundial. A transformação estratégica mundial e, em particular, no continente europeu, está em velocidade acelerada. A guerra na Ucrânia, portanto em solo europeu, já dura há praticamente quanto tempo quanto durou a I Guerra Mundial que começou por ser europeia. E não falta muito para durar tanto com a Segunda que, recorde-se, também começou por ser europeia.

Face à alteração crucial que a tecnologia dos drones e da Inteligência Artificial desenvolvida pela Ucrânia está a trazer à guerra, a Rússia não consegue ocupar mais território ucraniano e começa a sofrer ataques às suas instalações militares e petrolíferas a mais de 2.000 km da fronteira ucraniana.

Hoje torna-se evidente que nem a Rússia consegue obter militarmente a vitória que ambicionou, nem a Ucrânia tem possibilidade de vencer um país tão poderoso como a Rússia. É chegado o ponto de inverter a outra famosa afirmação do velho Clausewitz, segundo a qual “a guerra é uma simples continuação da política por outros meios” e dar a voz aos diplomatas para se sair dessa guerra horrível iniciada pela Rússia, antes que algum acontecimento fortuito a transforma numa III Grande Guerra.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 8 Junho 2026 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

BOA EDUCAÇÃO, PRECISA-SE

 Uma das mudanças sociais mais evidentes, para quem já anda por cá há uns anos, reside numa alteração evidente no relacionamento entre as pessoas. Habitualmente essa alteração é atribuída à crescente influência das redes sociais sobre os comportamentos pessoais, que terão consequências na capacidade de desenvolvimento de empatia com o outro. Como resultado do nível social familiar ou mesmo da escola, até se poderá encontrar alguma afabilidade no trato mas, como se sabe, isso é apenas exterior e mesmo artificial. Ainda que tal possa parecer importante para algumas pessoas e possa satisfazer relacionamentos em encontros meramente sociais, não traduz qualquer empatia, não significa capacidade de alguém se colocar no lugar do outro e assim melhor o compreender. Na verdade, é cada vez mais difícil encontrar amabilidade no relacionamento inter-pessoal, querendo o bem do outro e sendo capaz de ajudar espontaneamente, tendo gestos de cuidado seja perante quem for. Quando as crianças e jovens vivem num mundo dominado pelos écrans, onde o que aparece é completamente artificial e impessoal, onde muitas vezes impera mesmo uma violência gratuita em que ganha quem destruir mais e mais depressa, nem afabilidade e muitas menos amabilidade se podem desenvolver.  Quando os adultos se fecham em redes sociais em que os algoritmos enformam uma realidade virtual onde só surge aquilo capaz de provocar “likes”, o seu relacionamento com o outro diferente, seja em que aspecto for, é igualmente marcado pela falta de empatia, ainda que mascarada por uma afabilidade artificial.

Trata-se aqui do que habitualmente se chamava de má-educação social. Manifesta-se na ultrapassagem nas filas, na condução automóvel agressiva em meio urbano, na travessia à frente de quem passa, enfim, nas mais diversas situações correntes de inter-relacionamento que, com a maior das facilidades, se transformam em situação de conflito.

Mas há outras causas para estas situações que têm relação com as chamadas políticas de educação, isto é, com as escolas dos nossos filhos e com confusões de conceitos demasiado frequentes, mesmo em quem as não devia ter. É frequente ouvir responsáveis políticos pela educação e mesmo muitos professores aos mais diversos níveis afirmarem que “o mais importante na escolas são as crianças”. Lamento, mas isso é apenas um chavão que pode enganar incautos mas que, se for mesmo levado à letra só pode conduzir a maus resultados que se reflectirão mais tarde negativamente na vida adulta das crianças. Na verdade, o mais importante nas escolas é a educação das crianças, o que faz toda a diferença. E educar é muito mais do que simplesmente transmitir conhecimentos, ou “competências” como está na moda dizer, embora entre nós tal não corresponda à realidade, com as consequências de falta de produtividade que todos conhecemos. Por alguma razão já há muito se ultrapassou a fase de falar em “instrução” que etimologicamente significa encher de palha. E todos conhecemos pessoas que encheram o cérebro com grandes conhecimentos e se elevaram aos mais altos graus académicos mas que em termos de educação ficam muito a desejar: são instruídas, mas pouco educadas.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 1 de Junho de 2026 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

HÁ CEM ANOS

 

A Primeira Guerra Mundial terminou com o Armistício assinado em Novembro de 1918. Assim acabava um longo período histórico em que quatro Impérios encontravam o seu fim: o Alemão, o Austro‑Húngaro, o Russo e o Otomano. Considerada como responsável pelo conflito, a Alemanha foi sujeita a condições severas, a diversos níveis.

Após a Revolução Russa, em Fevereiro de 1917, Lenine voltou do seu exílio para liderar a Revolução de Outubro que levou os Bolcheviques ao poder, atirando Kerensky e o seu breve governo para o caixote de lixo da História. A partir de 1922 Lenine impôs-se como líder da União Soviética com o seu modelo marxista-leninista. Sucedeu-lhe Estaline que governou com “mão de aço” até morrer em 1953.

Na Itália, Mussolini passou a liderar o Partido Nacional Fascista e planeou a Marcha sobre Roma forçando o rei Vítor Emanuel III a demitir o governo e convidá-lo a formar um novo, assim se tornando Primeiro-Ministro em Outubro de 1922. Instalou uma ditadura totalitária e viria a cair em 1943com a ocupação aliada da Itália na II Guerra Mundial.

A Bolsa de Nova Iorque sofreu um célebre “crash” em Outubro de 1929. As consequências económicas com desemprego, pobreza e fome generalizadas foram devastadoras e duradouras durante anos, nos EUA, mas também em grande parte do mundo incluindo a Europa. Apenas o New Deal, como ficou conhecida a política económica de Roosevelt, viria a conseguir uma recuperação.

Na Alemanha, na sequência da derrota na I Guerra Mundial, o Kaiser Guilherme II abdica, sendo proclamada uma república democrática com uma constituição aprovada na cidade de Weimar, daí ficando conhecida como República de Weimar. Contudo, as condições draconianas do tratado de Versalhes conduziram a problemas económicos gravíssimos, com hiperinflação e o colapso do marco alemão em 1923. Precisamente nesse ano Adolph Hitler, que tinha chegado à liderança do Partido Alemão dos Trabalhadores em 1921, realizou um golpe de estado falhado em Munique. Tendo sido preso, escreve na cadeia o seu livro Mein Kampf (A minha luta) em que explana claramente ao que vem e o que pretende fazer. Solto logo em 1924, as difíceis condições económicas e sociais agravadas ainda pelas consequências do crash bolsista americano a que se juntou a actividade criminosa das milícias nazis, levaram a que, após eleições, fosse nomeado chanceler em Janeiro de 1933. A partir daí todos sabemos o que foi a História mundial.

Em Portugal, uma das insurreições militares acabou por ter êxito em Maio de 1926, dando origem a uma ditadura militar que por sua vez originou uma ditadura civil corporativista e anti-liberal chamada Estado Novo que durou quase 50 anos.

Tudo isto se passou há cerca de cem anos, nos anos 20 do século XX. Nestes anos 20 do sec. XXI assistimos, de novo, ao surgimento das mais desvairadas ideologias e práticas anti-democráticas. É por isso que de novo cito nesta página Haldous Huxley que, em 1959, alertou: 

"(…) Que os homens não aprendem muito com as lições da História é a mais importante de todas as lições que a História tem para ensinar (…)”

 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 25 Maio 2026

terça-feira, 19 de maio de 2026

LEMBRAR O 20 DE MAIO DE 1449

 

Daqui a dois dias passam 527 anos sobre uma das datas mais vergonhosas da História de Portugal. Ficou para a História como batalha de Alfarrobeira, mas mais valia ser conhecida como traição e morte de Dom Pedro, Duque de Coimbra.

Um dos filhos de D. João I e Dona Filipa de Lencastre D. Pedro era, portanto, um dos membros daquela a que Camões chamou a Ínclita Geração.

D. Pedro era uma personalidade verdadeiramente extraordinária para a sua época, muito pela educação esmerada que recebeu, mas também pelo seu espírito dedicado ao estudo, para além das viagens que realizou pela Europa entre 1425 e 1428. Viajou por Inglaterra, Bélgica, França, terras alemãs, italianas e ibéricas. Em Oxford e Paris conheceu as respectivas universidades, tendo recolhido informações preciosas sobre o ensino aí praticado. Mais tarde haveria de criar um Estudo Geral em Coimbra, que deveria acolher os novos métodos de ensino, em vez da velha universidade, essencialmente religiosa, criada por D. Dinis que não acertava o passo entre Lisboa e Coimbra.

O Infante das Sete Partidas, como seria conhecido, enviou de Bruges uma célebre Carta a seu irmão Duarte com conselhos acertados e inéditos para o seu tempo sobre a boa governação, que ainda hoje surpreendem pelo acerto e grande conhecimento De como cuidar do bem comum.

Enquanto Regente da coroa portuguesa fez do seu meio-irmão Afonso, filho de D. João I e de Inês Pires num relacionamento anterior ao casamento com Filipa de Lencastre, Duque de Bragança. Contudo, tal não foi suficiente para que, após D. Afonso V ser coroado Rei, o Duque de Bragança e outros nobres não tivessem conjurado junto do jovem Rei contra o seu tio que, enquanto Regente, tentara ultrapassar as práticas medievais assim criando inimigos junto da velha nobreza.

Dom Pedro foi atraído a Lisboa para falar com o Rei seu sobrinho, caindo numa cilada junto à ribeira de Alfarrobeira, perto de Alverca. Dom Pedro, que nem sequer tinha envergado armadura para se proteger em caso de batalha, foi trespassado por uma flecha, caindo morto e sendo o seu corpo vergonhosamente abandonado aos cães durante dias.

A Universidade desejada por Dom Pedro para Coimbra, para a qual tinha destinado bens pessoais, não teve desenvolvimento após a sua morte. A sua memória foi perseguida, só sendo reabilitada pelo seu neto Rei D. João II, o Príncipe Prefeito. Coimbra só viria a ter definitivamente Universidade em 1537, com a transferência de Lisboa realizada por D. João III, tristemente acompanhada pela Inquisição que marcaria a vida intelectual portuguesa durante 285 longos anos.

A maldição que caiu sobre a memória de Dom Pedro, Duque de Coimbra, haveria de durar até aos dias de hoje. Infelizmente, a nossa Cidade tarda em reconhecer o valor de alguém que no século XV tinha a sensibilidade e o conhecimento para escrever que «POESIA É MAIS SABOR DO QUE SABER», a quem Sophia de Mello Breyner dedicou este poema:

Nunca choraremos bastante,

nem com pranto assaz amargo e forte,

aquele que fundou glória e grandeza,

e recebeu em paga insulto e morte.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 18 Maio 2026