No início do sec. XVII Miguel de Cervantes escreveu uma obra que deveria ser lida obrigatoriamente por toda e qualquer pessoa com aspirações a ser político. Principalmente por aqueles que têm a certeza de que vão mudar o mundo porque têm um ideal extraordinário. Dom Quixote de la Mancha idealizou a simples camponesa Dulcineia como princesa e combatia moinhos de vento como sendo gigantes. No fundo, não via o mundo como ele é na realidade, mas como queria que fosse.
Infelizmente, a História tem sido pródiga em exemplos de intervenientes que, imaginando-se como predestinados a mudar o mundo de acordo com os seus grandes desígnios, avançaram para lutas com terríveis consequências.
Hitler sonhava com um “terceiro Reich de mil anos” dominado por alemães altos e louros em que todos os outros seriam seus subordinados, levando uma guerra de conquista a quase toda a Europa continental. Nesse mundo não teriam lugar os judeus, considerados seres inferiores ou mesmo sub-humanos, usando de todas as mentiras para sustentar essa ideia, incluindo os célebres “protocolos de Sião” inventados pouco antes. Daí partiu para a sua extinção, num Holocausto de seis milhões de pessoas.
Já Estaline, na senda de Lenine, imaginava um mundo perfeito em que todos os homens seriam iguais, sem exploradores nem explorados. Com esse sonho em mente, montou todo um Estado teoricamente preparado para conseguir esse objectivo. Na realidade, construiu um estado totalitário em que a individualidade humana desapareceu perante um poder arbitrário que nem sequer dependia do Partido e sim apenas da vontade momentânea de quem estava no topo da pirâmide. Assim se eliminaram milhares de vidas com um simples tiro na nuca e se construíram os campos de trabalho forçado do Gulag que transformaram em escravos milhões de pessoas.
Tudo isto aconteceu há quase cem anos. Mas não se pense que na actualidade já não acontece nada de semelhante. Putin acusou a liderança ucraniana de ser neo-nazi e com essa justificação atacou um país soberano e independente numa guerra que dura há doze anos e que começou com a conquista da península da Crimeia em março de 2014. Na verdade, aquela justificação pública encobria o verdadeiro sonho de Putin: reconstruir o império da URSS, cuja destruição em 1991 ele considera a maior tragédia do sec. XX.
Não se pense, contudo, que o choque da realidade com os mundos imaginários de líderes políticos se restringe ao nosso continente. Esta crónica foi mesmo sugerida por afirmações recentes do presidente americano Donald Trump. Como todos sabemos, o sonho do actual presidente americano não é fazer nada menos do que MAGA (make America great again), isto é, num mundo que mudou e já não é nem monopolar, nem sequer bipolar, fazer dos EUA a maior potência do mundo. Vai daí, teve de partir para inventar um inimigo, no caso o comunismo. Isto em 2026, quase 40 anos depois da implosão da antiga URSS e do início de todo um novo e complexo sistema internacional em que o comunismo já não conta para nada. Nem imagina que o fim da luta contra inimigos imaginários tem normalmente um desfecho ditado pelo mundo que se quer contradizer.
Miguel de Cervantes, justamente considerado o maior escritor de língua espanhola, continua a mostrar-nos muito mais do que as lutas de um velho cavaleiro com o seu criado a lutar contra moinhos de vento. Basta ler o que está escondido por baixo das linhas dos seus dois livros das aventuras de Dom Quixote.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 20 Julho 2026