Antes de a começar, o responsável por esta guerra garantia que a venceria em três dias. Já o irresponsável do outro lado do mundo assegurava, antes de ser eleito, que acabaria com ela em 24 horas. Tanto Putin como Trump mostravam estar completamente enganados sobre a capacidade de resistência do povo ucraniano e do seu improvável presidente Volodymyr Zelensky.
Ao fim de mais de quatro anos, a Rússia nem sequer conseguiu conquistar completamente as quatro regiões ucranianas que declarou anexadas em 2022: Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia. Mesmo a Crimeia anexada pela Russia em Março de 2014 está debaixo do fogo permanente por parte da Ucrânia, o que os dirigentes russos consideravam impensável.
Nada como os clássicos para simplificar a percepção de coisas que vistas de perto nos parecem mais complicadas do que de facto são. Segundo Clausewitz, em a “Arte e Ciência da Guerra “a guerra é um ”acto de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”. Foi exactamente esse o motivo que levou Putin a invadir a Ucrânia, nunca imaginando que se ia meter num buraco que poderá vir a ser o seu fim político, ou pior. Ao atacar a Ucrânia, a Rússia acendeu velhos medos entre os países vizinhos que se lembram demasiado bem do que foi a sua relação com a ex-URSS nos tempos da guerra fria. Se Putin acusava a NATO de pretensão de expansão, conseguiu exactamente isso, isto é que vários países que cultivavam historicamente a neutralidade rapidamente pedissem a adesão à aliança militar como a Suécia e a Finlândia. Em resposta, a Rússia está a expandir a sua infraestrutura militar no Ártico, estando assim o frio Norte europeu a transformar-se numa zona fortemente militarizada.
Enquanto isto acontece o velho aliado europeu do outro lado do Atlântico avisa que vai retirar as suas forças estacionadas na Europa desde a II Guerra Mundial. A transformação estratégica mundial e, em particular, no continente europeu, está em velocidade acelerada. A guerra na Ucrânia, portanto em solo europeu, já dura há praticamente quanto tempo quanto durou a I Guerra Mundial que começou por ser europeia. E não falta muito para durar tanto com a Segunda que, recorde-se, também começou por ser europeia.
Face à alteração crucial que a tecnologia dos drones e da Inteligência Artificial desenvolvida pela Ucrânia está a trazer à guerra, a Rússia não consegue ocupar mais território ucraniano e começa a sofrer ataques às suas instalações militares e petrolíferas a mais de 2.000 km da fronteira ucraniana.
Hoje torna-se evidente que nem a Rússia consegue obter militarmente a vitória que ambicionou, nem a Ucrânia tem possibilidade de vencer um país tão poderoso como a Rússia. É chegado o ponto de inverter a outra famosa afirmação do velho Clausewitz, segundo a qual “a guerra é uma simples continuação da política por outros meios” e dar a voz aos diplomatas para se sair dessa guerra horrível iniciada pela Rússia, antes que algum acontecimento fortuito a transforma numa III Grande Guerra.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 8 Junho 2026