sábado, 20 de junho de 2026

UM DIA NA VIDA

 

O título desta crónica é uma tradução literal de uma das canções mais emblemáticas dos Beatles, que fecha o também notável disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band publicado em 1967: “A DAY IN THE LIFE”. Esta canção, por muitos considerada a obra-prima absoluta dos Fab Four, torna-se ainda mais impressionante vista com os olhos da actualidade, e não apenas do ponto de vista musical. Ao olhar friamente para a notícia da morte de Tara Browne, herdeiro da Guiness, num desastre automóvel, misturando essa tragédia com factos banais do dia-a-dia, parece criticar-se o nosso mundo de hoje, em que notícias de diversas importâncias e significados se confundem e se sucedem a um ritmo avassalador. O resultado é uma visão do mundo fragmentada e pessimista, muitas vezes mesmo catastrofista.

Tendo até hoje vivido 26.267 dias, muitos deles acabaram por ser apenas mais um dia na minha vida que hoje completa 72 anos. Apesar das notícias de personagens que ainda hoje procuram beber a água da “fonte da juventude”, a vida pressupõe a morte que para todos nós virá, mais cedo ou mais tarde. Entre aqueles dias de vida, alguns houve em que a morte descaradamente rondou bem perto. Em dois deles, chegou a fazer parar o coração, obrigado a bater de novo pelos médicos numa dessas vezes, mas acordado de novo de forma inexplicável aos quinze anos quando a consciência já via de cima o corpo inerte rodeado da família em aflição extrema. Mas bem perto andou também a morte quando foi possível fazer regressar à vida um afogado, através da respiração boca-a-boca e compressões torácicas, mesmo sem nenhum curso de primeiros socorros.

Todos nós descendemos do “Homo sapiens” surgido há cerca de trezentos mil anos, o que é praticamente um instante quando a vida surgiu na Terra há uns quatro mil milhões de anos. O planeta onde vivemos pertence ao sistema solar que por sua vez é uma parte minúscula da galáxia chamada Via Láctea que tem centenas de milhares de milhões de estrelas. Já a Via Láctea é apenas uma das mais de um milhão de milhões de galáxias existentes no Universo observável, que não fazemos a mínima ideia do que é, onde começou e onde acaba.

Tudo isto para dizer que verdadeiramente importante é perceber qual o nosso lugar na linha da vida e no espaço que ocupamos transitoriamente, isto é, o relacionamento com “o outro” e o respeito pelo planeta onde vivemos que devemos conservar para as gerações vindouras. Ao Pai e à Mãe que tive a sorte de ter devo tudo o que sou e estou infinitamente grato pelo carinho e paciência com que me orientaram e pela vista grossa às imensas asneiras que fiz. Mas os filhos e os netos são outra história. São a nossa “máquina do tempo” que nos continua para o futuro e nos dão a certeza de que a nossa passagem por esta vida não foi em vão.

Este é mais “um dia na vida” como cantavam os Beatles. As notícias dos jornais e das televisões continuam a trazer-nos a realidade imposta pelos disparates de tantos dos “grandes” deste mundo, lá fora e cá dentro. Mas os dias todos que já passaram nesta vida ensinaram-nos que, verdadeiramente importantes, são a consciência de que viemos ao mundo com um propósito e que somos amados e queridos por quem verdadeiramente importa.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 15 de Junho de 2026 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

UMA GUERRA LONGA DEMAIS

 

Antes de a começar, o responsável por esta guerra garantia que a venceria em três dias. Já o irresponsável do outro lado do mundo assegurava, antes de ser eleito, que acabaria com ela em 24 horas. Tanto Putin como Trump mostravam estar completamente enganados sobre a capacidade de resistência do povo ucraniano e do seu improvável presidente Volodymyr Zelensky.

Ao fim de mais de quatro anos, a Rússia nem sequer conseguiu conquistar completamente as quatro regiões ucranianas que declarou anexadas em 2022: Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia. Mesmo a Crimeia anexada pela Russia em Março de 2014 está debaixo do fogo permanente por parte da Ucrânia, o que os dirigentes russos consideravam impensável.

Nada como os clássicos para simplificar a percepção de coisas que vistas de perto nos parecem mais complicadas do que de facto são. Segundo Clausewitz, em a “Arte e Ciência da Guerra “a guerra é um ”acto de violência destinado a forçar o adversário a submeter-se à nossa vontade”. Foi exactamente esse o motivo que levou Putin a invadir a Ucrânia, nunca imaginando que se ia meter num buraco que poderá vir a ser o seu fim político, ou pior. Ao atacar a Ucrânia, a Rússia acendeu velhos medos entre os países vizinhos que se lembram demasiado bem do que foi a sua relação com a ex-URSS nos tempos da guerra fria. Se Putin acusava a NATO de pretensão de expansão, conseguiu exactamente isso, isto é que vários países que cultivavam historicamente a neutralidade rapidamente pedissem a adesão à aliança militar como a Suécia e a Finlândia. Em resposta, a Rússia está a expandir a sua infraestrutura militar no Ártico, estando assim o frio Norte europeu a transformar-se numa zona fortemente militarizada.

Enquanto isto acontece o velho aliado europeu do outro lado do Atlântico avisa que vai retirar as suas forças estacionadas na Europa desde a II Guerra Mundial. A transformação estratégica mundial e, em particular, no continente europeu, está em velocidade acelerada. A guerra na Ucrânia, portanto em solo europeu, já dura há praticamente quanto tempo quanto durou a I Guerra Mundial que começou por ser europeia. E não falta muito para durar tanto com a Segunda que, recorde-se, também começou por ser europeia.

Face à alteração crucial que a tecnologia dos drones e da Inteligência Artificial desenvolvida pela Ucrânia está a trazer à guerra, a Rússia não consegue ocupar mais território ucraniano e começa a sofrer ataques às suas instalações militares e petrolíferas a mais de 2.000 km da fronteira ucraniana.

Hoje torna-se evidente que nem a Rússia consegue obter militarmente a vitória que ambicionou, nem a Ucrânia tem possibilidade de vencer um país tão poderoso como a Rússia. É chegado o ponto de inverter a outra famosa afirmação do velho Clausewitz, segundo a qual “a guerra é uma simples continuação da política por outros meios” e dar a voz aos diplomatas para se sair dessa guerra horrível iniciada pela Rússia, antes que algum acontecimento fortuito a transforma numa III Grande Guerra.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 8 Junho 2026 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

BOA EDUCAÇÃO, PRECISA-SE

 Uma das mudanças sociais mais evidentes, para quem já anda por cá há uns anos, reside numa alteração evidente no relacionamento entre as pessoas. Habitualmente essa alteração é atribuída à crescente influência das redes sociais sobre os comportamentos pessoais, que terão consequências na capacidade de desenvolvimento de empatia com o outro. Como resultado do nível social familiar ou mesmo da escola, até se poderá encontrar alguma afabilidade no trato mas, como se sabe, isso é apenas exterior e mesmo artificial. Ainda que tal possa parecer importante para algumas pessoas e possa satisfazer relacionamentos em encontros meramente sociais, não traduz qualquer empatia, não significa capacidade de alguém se colocar no lugar do outro e assim melhor o compreender. Na verdade, é cada vez mais difícil encontrar amabilidade no relacionamento inter-pessoal, querendo o bem do outro e sendo capaz de ajudar espontaneamente, tendo gestos de cuidado seja perante quem for. Quando as crianças e jovens vivem num mundo dominado pelos écrans, onde o que aparece é completamente artificial e impessoal, onde muitas vezes impera mesmo uma violência gratuita em que ganha quem destruir mais e mais depressa, nem afabilidade e muitas menos amabilidade se podem desenvolver.  Quando os adultos se fecham em redes sociais em que os algoritmos enformam uma realidade virtual onde só surge aquilo capaz de provocar “likes”, o seu relacionamento com o outro diferente, seja em que aspecto for, é igualmente marcado pela falta de empatia, ainda que mascarada por uma afabilidade artificial.

Trata-se aqui do que habitualmente se chamava de má-educação social. Manifesta-se na ultrapassagem nas filas, na condução automóvel agressiva em meio urbano, na travessia à frente de quem passa, enfim, nas mais diversas situações correntes de inter-relacionamento que, com a maior das facilidades, se transformam em situação de conflito.

Mas há outras causas para estas situações que têm relação com as chamadas políticas de educação, isto é, com as escolas dos nossos filhos e com confusões de conceitos demasiado frequentes, mesmo em quem as não devia ter. É frequente ouvir responsáveis políticos pela educação e mesmo muitos professores aos mais diversos níveis afirmarem que “o mais importante na escolas são as crianças”. Lamento, mas isso é apenas um chavão que pode enganar incautos mas que, se for mesmo levado à letra só pode conduzir a maus resultados que se reflectirão mais tarde negativamente na vida adulta das crianças. Na verdade, o mais importante nas escolas é a educação das crianças, o que faz toda a diferença. E educar é muito mais do que simplesmente transmitir conhecimentos, ou “competências” como está na moda dizer, embora entre nós tal não corresponda à realidade, com as consequências de falta de produtividade que todos conhecemos. Por alguma razão já há muito se ultrapassou a fase de falar em “instrução” que etimologicamente significa encher de palha. E todos conhecemos pessoas que encheram o cérebro com grandes conhecimentos e se elevaram aos mais altos graus académicos mas que em termos de educação ficam muito a desejar: são instruídas, mas pouco educadas.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 1 de Junho de 2026 

quarta-feira, 27 de maio de 2026

HÁ CEM ANOS

 

A Primeira Guerra Mundial terminou com o Armistício assinado em Novembro de 1918. Assim acabava um longo período histórico em que quatro Impérios encontravam o seu fim: o Alemão, o Austro‑Húngaro, o Russo e o Otomano. Considerada como responsável pelo conflito, a Alemanha foi sujeita a condições severas, a diversos níveis.

Após a Revolução Russa, em Fevereiro de 1917, Lenine voltou do seu exílio para liderar a Revolução de Outubro que levou os Bolcheviques ao poder, atirando Kerensky e o seu breve governo para o caixote de lixo da História. A partir de 1922 Lenine impôs-se como líder da União Soviética com o seu modelo marxista-leninista. Sucedeu-lhe Estaline que governou com “mão de aço” até morrer em 1953.

Na Itália, Mussolini passou a liderar o Partido Nacional Fascista e planeou a Marcha sobre Roma forçando o rei Vítor Emanuel III a demitir o governo e convidá-lo a formar um novo, assim se tornando Primeiro-Ministro em Outubro de 1922. Instalou uma ditadura totalitária e viria a cair em 1943com a ocupação aliada da Itália na II Guerra Mundial.

A Bolsa de Nova Iorque sofreu um célebre “crash” em Outubro de 1929. As consequências económicas com desemprego, pobreza e fome generalizadas foram devastadoras e duradouras durante anos, nos EUA, mas também em grande parte do mundo incluindo a Europa. Apenas o New Deal, como ficou conhecida a política económica de Roosevelt, viria a conseguir uma recuperação.

Na Alemanha, na sequência da derrota na I Guerra Mundial, o Kaiser Guilherme II abdica, sendo proclamada uma república democrática com uma constituição aprovada na cidade de Weimar, daí ficando conhecida como República de Weimar. Contudo, as condições draconianas do tratado de Versalhes conduziram a problemas económicos gravíssimos, com hiperinflação e o colapso do marco alemão em 1923. Precisamente nesse ano Adolph Hitler, que tinha chegado à liderança do Partido Alemão dos Trabalhadores em 1921, realizou um golpe de estado falhado em Munique. Tendo sido preso, escreve na cadeia o seu livro Mein Kampf (A minha luta) em que explana claramente ao que vem e o que pretende fazer. Solto logo em 1924, as difíceis condições económicas e sociais agravadas ainda pelas consequências do crash bolsista americano a que se juntou a actividade criminosa das milícias nazis, levaram a que, após eleições, fosse nomeado chanceler em Janeiro de 1933. A partir daí todos sabemos o que foi a História mundial.

Em Portugal, uma das insurreições militares acabou por ter êxito em Maio de 1926, dando origem a uma ditadura militar que por sua vez originou uma ditadura civil corporativista e anti-liberal chamada Estado Novo que durou quase 50 anos.

Tudo isto se passou há cerca de cem anos, nos anos 20 do século XX. Nestes anos 20 do sec. XXI assistimos, de novo, ao surgimento das mais desvairadas ideologias e práticas anti-democráticas. É por isso que de novo cito nesta página Haldous Huxley que, em 1959, alertou: 

"(…) Que os homens não aprendem muito com as lições da História é a mais importante de todas as lições que a História tem para ensinar (…)”

 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 25 Maio 2026