sábado, 25 de julho de 2026

LUTAR CONTRA INIMIGOS IMAGINÁRIOS

 

No início do sec. XVII Miguel de Cervantes escreveu uma obra que deveria ser lida obrigatoriamente por toda e qualquer pessoa com aspirações a ser político. Principalmente por aqueles que têm a certeza de que vão mudar o mundo porque têm um ideal extraordinário. Dom Quixote de la Mancha idealizou a simples camponesa Dulcineia como princesa e combatia moinhos de vento como sendo gigantes. No fundo, não via o mundo como ele é na realidade, mas como queria que fosse.

Infelizmente, a História tem sido pródiga em exemplos de intervenientes que, imaginando-se como predestinados a mudar o mundo de acordo com os seus grandes desígnios, avançaram para lutas com terríveis consequências.

Hitler sonhava com um “terceiro Reich de mil anos” dominado por alemães altos e louros em que todos os outros seriam seus subordinados, levando uma guerra de conquista a quase toda a Europa continental. Nesse mundo não teriam lugar os judeus, considerados seres inferiores ou mesmo sub-humanos, usando de todas as mentiras para sustentar essa ideia, incluindo os célebres “protocolos de Sião” inventados pouco antes. Daí partiu para a sua extinção, num Holocausto de seis milhões de pessoas.

Já Estaline, na senda de Lenine, imaginava um mundo perfeito em que todos os homens seriam iguais, sem exploradores nem explorados. Com esse sonho em mente, montou todo um Estado teoricamente preparado para conseguir esse objectivo. Na realidade, construiu um estado totalitário em que a individualidade humana desapareceu perante um poder arbitrário que nem sequer dependia do Partido e sim apenas da vontade momentânea de quem estava no topo da pirâmide. Assim se eliminaram milhares de vidas com um simples tiro na nuca e se construíram os campos de trabalho forçado do Gulag que transformaram em escravos milhões de pessoas.

Tudo isto aconteceu há quase cem anos. Mas não se pense que na actualidade já não acontece nada de semelhante. Putin acusou a liderança ucraniana de ser neo-nazi e com essa justificação atacou um país soberano e independente numa guerra que dura há doze anos e que começou com a conquista da península da Crimeia em março de 2014. Na verdade, aquela justificação pública encobria o verdadeiro sonho de Putin: reconstruir o império da URSS, cuja destruição em 1991 ele considera a maior tragédia do sec. XX.

Não se pense, contudo, que o choque da realidade com os mundos imaginários de líderes políticos se restringe ao nosso continente. Esta crónica foi mesmo sugerida por afirmações recentes do presidente americano Donald Trump. Como todos sabemos, o sonho do actual presidente americano não é fazer nada menos do que MAGA (make America great again), isto é, num mundo que mudou e já não é nem monopolar, nem sequer bipolar, fazer dos EUA a maior potência do mundo. Vai daí, teve de partir para inventar um inimigo, no caso o comunismo. Isto em 2026, quase 40 anos depois da implosão da antiga URSS e do início de todo um novo e complexo sistema internacional em que o comunismo já não conta para nada. Nem imagina que o fim da luta contra inimigos imaginários tem normalmente um desfecho ditado pelo mundo que se quer contradizer.

Miguel de Cervantes, justamente considerado o maior escritor de língua espanhola, continua a mostrar-nos muito mais do que as lutas de um velho cavaleiro com o seu criado a lutar contra moinhos de vento. Basta ler o que está escondido por baixo das linhas dos seus dois livros das aventuras de Dom Quixote.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em  20 Julho 2026

segunda-feira, 13 de julho de 2026

SÃO ROSAS, SENHOR

 Dona Isabel de Aragão, Rainha pela política e pela vontade de outrem:

Nasceu provavelmente em Saragoça em 11 de Fevereiro de 1270. Naquele tempo os casamentos eram apenas contratos os quais, entre a nobreza, constavam frequentemente de acordos políticos entre reinos. Estava-se a muitos séculos do liberalismo e do romantismo que viria a colocar o amor entre pessoas no lugar primeiro da justificação do casamento. O casamento de D. Isabel, filha do Rei Pedro III de Aragão com o Rei D. Dinis de Portugal visou estabelecer boas relações entre os dois reinos peninsulares. Desse casamento nasceram dois filhos, Afonso que haveria de ser o nosso Rei D. Afonso IV e Constança. Também eles seriam destinados a casar, respectivamente, com D. Beatriz de Castela e com o futuro Rei Fernando IV de Castela. Estas trocas de casamentos entre Portugal e Castela acompanhariam a definição final de fronteiras pelo Tratado de Alcanizes firmado em 1297 que praticamente ainda hoje se mantêm.

Dona Isabel, Santa pela vida que escolheu e pela vontade do povo.

Mulher de fortes convicções, a Rainha D. Isabel desde cedo demonstrou uma enorme capacidade como pacificadora numa época marcada por lutas frequentes e graves, mesmo entre membros da mesma família. Aqueles foram tempos de mudanças extremas e de grande implicação futura no desenvolvimento da Europa e também de Portugal. Basta lembrar que a Ordem do Templo foi suspensa pelo Papa Clemente V, (o primeiro Papa com assento em Avignon) em Março de 1312, tendo o seu chefe Tiago de Molay sido queimado em 18 de Março de 1314. O Rei D. Dinis recebeu todos os bens dos Templários em Portugal, criando a Ordem de Cristo, tão importante no futuro.

No meio de todo este tumulto, a Rainha D. Isabel fazia o contrário. Foi pacificadora, quer na guerra civil entre o marido D. Dinis e o seu filho D. Afonso, quer entre o filho já Rei e o Rei de Castela. Usava a sua fortuna pessoal e da sua Casa para exercer caridade junto dos pobres. Aí residiu o motivo para o que a Tradição designou como “Milagre das Rosas”. Ao levar pão para os necessitados, saiu-lhe ao caminho D. Dinis que, dando ouvidos aos que na Corte criticavam D. Isabel como dissipadora dos dinheiros públicos através dos gastos para com os pobres, a inquiriu sobre o que transportava no regaço, certo de que seriam pães para distribuir. A Rainha abriu o regaço e mostrou o que levava após afirmar “são rosas, Senhor”, assim tirando a razão aos que a criticavam e deixando o Rei seu marido sem palavras. Após a morte do rei D. Dinis, em 1325, a Rainha foi viver para Coimbra junto do Mosteiro de Santa Clara.

A sua acção humanitária era de tal dimensão que o povo de Coimbra passou a ter por ela uma devoção impressionante que ainda hoje perdura, visível nas procissões que regularmente são realizadas com a sua imagem. E foi pela pressão do povo de Coimbra que a sua rainha seria santificada em 1625, lembrando-se a data do seu falecimento, 4 de Julho, como o dia da Cidade de Coimbra, sendo a Rainha Santa a padroeira da nossa Cidade.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 13 Julho 2026 

COIMBRA EM BOM

 Face à total ausência de boas notícias sobre o SNS, é impossível deixar de realçar nestas linhas duas notícias recentes sobre o SNS em Coimbra representado pela ULS Coimbra.

Não é que Coimbra não seja uma ilha (entre outras) de excepção altamente positiva face ao mar de problemas em que o SNS tem sido pródigo desde há já demasiados anos. Eu próprio sou um exemplo vivo da qualidade dos serviços prestados pelas entidades do SNS com quem tenho tido contacto directo. Começando pela Unidade de Saúde Familiar Cruz de Celas de que sou utente com um Médico de Família atento e competente sempre disponível para dar resposta aos problemas de saúde que vão surgindo. Acabando nos HUC onde já tive intervenções cirúrgicas na Ortopedia e na Cardiotoráxica, onde tive oportunidade, perante situações de menor até extrema gravidade, de comprovar a excelência, não só da organização e capacidade técnica dos serviços, mas sobretudo do cuidado e conhecimento dos profissionais, aos diversos níveis, sejam médicos ou enfermeiros. Como curiosidade, e prova também do que escrevo, de uma vez em que uma queda desastrosa me levou às urgências dos HUC, fui atendido com rapidez e total profissionalismo. Depois de sair, telefonei a um responsável médico do hospital, ao mais alto nível, a felicitá-lo pela prestação de que tinha sido testemunha, que me indagou por que não lhe tinha telefonado a dizer do sucedido. Agradeci, mas respondi que tal seria inteiramente desnecessário por tudo o que tinha testemunhado, isto para além de não me sentir bem se o fizesse, claro.

Para mim, como se percebe, dizer cuidados de saúde é dizer SNS, não há cá seguros de saúde, nem ADSE e, até hoje, não me posso queixar, muito antes pelo contrário.

Nos últimos dias quase passou despercebida uma notícia da maior importância para a nossa região. Foi anunciado que a ULS de Coimbra preencheu vagas clínicas para especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) que permitem assegurar cobertura total de médico de família na sua área de acção que abrange 10 concelhos e quase meio milhão de utentes. Nada de desculpas de níveis de imigração, que também cá há, nem de falta de médicos ou outras razões na verdade indesculpáveis utilizadas no resto do país para esconder incompetência.

Bem se percebe o orgulho de Francisco Maio Matos, Presidente do Conselho de Administração da ULS de Coimbra que devo dizer, não conheço pessoalmente, ao afirmar que "conseguir cobertura total de médico de família para os utentes da ULS de Coimbra era um objetivo de enorme relevância e um compromisso que conseguimos concretizar e de que muito nos orgulhamos".

É, assim, possível harmonizar os cuidados de saúde primários com o acesso aos serviços especializados de excelência de um hospital central, dentro da área da ULS de Coimbra, um dos principais problemas do SNS na sua generalidade.

Perante este quadro, já não surpreende a notícia de que a ULS Coimbra decidiu reforçar as equipas de urgência para dar resposta às altas temperaturas previstas para os dias que estamos a viver. Os portugueses têm cada vez mais a consciência de que os problemas do SNS que todos os dias vemos nas televisões são, não de dinheiro gasto, mas sim de organização e de gestão. Em Coimbra parece estar a provar-se isso mesmo, trabalhando bem.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 6 de Julho de 2026 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Ponto de partida (de novo)

 

De vez em quando a realidade obriga-nos a tomar um banho gelado que nos tira do conforto diário em que tanto gostamos de viver, algo para o que Camões já há tanto tempo nos tentou avisar: “Estava linda Inês posta em sossego, de seus anos colhendo doce fruto, naquele engano d’alma ledo e cego que a Fortuna não deixa durar muito”.

A revisão demográfica finalmente realizada pelo INE trouxe a boa notícia de que a população residente em Portugal aumentou de cerca de 10,5 em 2021 para 11,4 milhões em 2025. Esta variação deve-se principalmente à entrada de imigrantes, que se sobrepõe a um saldo natural negativo e a uma emigração de jovens. A actualização da população obrigou, contudo, a uma revisão de dados económicos que definem a evolução da economia e respectiva comparação com os outros países. Em consequência, dado que o produto nacional não cresceu como a população, o nosso PIB per capita em paridades de poder de compra equivalente passou a ser de 77% da média da União Europeia. Como antes da revisão demográfica essa percentagem era de 81%, isso significa que descemos da 18ª para a 22ª posição entre os 27 membros da União Europeia. Toda aquela conversa de “crescermos acima da média europeia” fica deitada por terra. E isso é mesmo uma má notícia colocando-nos atrás também da Polónia, da Estónia, da Croácia e da Roménia.

A questão da produtividade será o mais grave e mais difícil problema económico em Portugal. Temos a quarta pior produtividade da Europa sendo que, em 2024, cada trabalhador português gerou cerca de 48 mil euros para o produto interno bruto, contra 74 mil na União Europeia. O salário bruto mensal ajustado a tempo completo foi de 2068 euros em Portugal e de 3317 euros na União e, ainda por cima, os portugueses trabalharam, em média, 37,4 horas por semana, contra 35,9 no conjunto europeu. Temos de ter consciência de que, em termos económicos, estamos praticamente num ponto de partida, quase a zeros em comparação com os nossos parceiros.

Quando nos inundam com uma bela narrativa da “geração mais bem preparada de sempre” que, não por acaso, abandona o país às dezenas de milhares por ano, eis que somos informados que Portugal tem a mais baixa taxa de escolaridade da União Europeia. Ao lado da maior sofisticação em termos de investigação científica, vive uma larga maioria incapaz de acompanhar esse progresso em termos de formação e de emprego. Compreende-se: a percentagem de população entre os 25 e os 64 anos de idade com ensino secundário completo é de 64,3% valor que compara com os 81,2% da média da União Europeia. Como compreender esta situação depois de tanto esforço anunciado por sucessivos governos? Esta diferença é tão grande que mal se percebe que não seja uma das questões mais discutidas na sociedade. E no entanto…

É evidente que Portugal está muito melhor do que há umas dezenas de anos. Mas essa constatação não nos deve impedir de ter consciência de que, em aspectos essenciais, há tanto a fazer que mais parece estarmos permanentemente num ponto de partida. Coloquemos aí o nosso foco e não em tanta coisa cujo interesse desaparece ao fim de poucos dias.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 29 Junho 2026 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

SONS, RUÍDOS E MELODIAS

 

O compositor oriundo de Coimbra Sérgio Azevedo publicou recentemente um livro com o sugestivo título “O que sempre quis saber sobre Música Clássica e teve medo de perguntar”. Destinado ao público em geral, mas também a conhecedores do assunto aborda, de forma objectiva e simples compreensão, diversas matérias ligadas ao tema. Explica quando se devem bater palmas, mas também como se compõem os diversos tipos de orquestras, quais os instrumentos musicais e a estrutura das diversas composições musicais. Para um simples amador desse género de música, como o autor destas linhas, é uma obra preciosa e de extremo interesse.

Sérgio Azevedo justifica também o seu programa na rádio Antena 2 chamado “Ao sabor da corrente”, afirmando: “porque o mundo está cheio de ruídos, sons e belas melodias”. E quem não estará de acordo?

Uma das características desta época histórica em que vivemos é a possibilidade de poder escolher dentro de uma extrema diversidade de propostas musicais, quer as produzidas contemporaneamente, quer as de séculos de actividade artística. Não vou ao ponto de achar que alguns dos estilos actuais como reggaeton, funk brasileiro, rap/hip-hop e outros se devam classificar como sons ou ruídos já que há imensa gente que os houve com gosto. Apenas não serão belas melodias, mas claro, gostos não se discutem e têm o direito a fazer parte da cultura contemporânea

Por isso mesmo posso reinvindicar para mim próprio o direito a ouvir as músicas de que gosto. Entre elas, aquela a que se chama, um pouco impropriamente, “música clássica”, porque essa designação se refere a um período histórico da música, entre o barroco e o romantismo. Há quem, em alternativa, a designe por “música erudita”, talvez porque para a apreciar seja necessária alguma formação cultural com o significado de erudição. Não estou inteiramente de acordo porque muita gente a aprecia completamente, ainda que não tenha muita “erudição”. Chamemos-lhe, então, música clássica, seja qual for o período histórico em que foi composta, mesmo o moderno com as suas “dissonâncias”.

A música clássica, se tem algo a distingue, é consistir numa sequência de notas com ritmo como as outras, mas também harmonia e melodia: as notas sucedem-se como se reflectindo o funcionamento do próprio universo.

A música clássica pode ser desfrutada em casa, através de audição de gravações, seja pelos métodos tradicionais de disco, CD, ou mesmo por streaming, usando simples aparelhos ou sofisticadas e dispendiosas aparelhagens. Mas nem mesmo estas substituem a audição ao vivo de um agrupamento reduzido ou uma orquestra com maestro.

É por isso mesmo que as cidades que pretendem afirmar-se culturalmente não podem prescindir de terem auditórios capazes mas, fundamentalmente, de terem orquestras residentes que possam apresentar com continuidade e qualidade repertórios variados de música clássica. Em Portugal não existem muitas cidades, para além de Lisboa e Porto, sempre elas, que possam afirmar ter essa capacidade. Coimbra é uma delas. Que assim continue, para que também os apreciadores de música clássica tenham a possibilidade de usufruir da oferta artística que preferem.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 22 de Junho de 2026