Um dos filmes mais marcantes da minha vida chama-se “IVAN O TERRÍVEL” (parte II), uma das obras-primas de Serguei Eisenstein. O filme, encomendado por Josef Stalin, aborda a vida e obra de Ivan IV, o primeiro líder russo a usar o título de “czar”. Ivan IV expandiu o território russo através de conquistas militares, adoptando políticas repressivas que marcaram com terror o seu reinado, tendo inclusivamente matado o seu próprio filho e sucessor. Considera-se habitualmente ser o fundador do Império Russo, por incluir estados não eslavos.
Duas outras personalidades viriam a marcar decisivamente a ampliação territorial e aumento da influência do Império Russo. Desde logo, Pedro I que foi czar da Rússia desde 1682, introduzindo profundas reformas que modernizaram a Rússia e fundando S. Petersburgo que se tornou a capital. Ao vencer uma guerra com a Suécia em 1721, ampliou o território russo para o Báltico, após o que se auto-intitulou “Imperador de todas as Rússias”, assim formalizando o Império Russo. Catarina II foi imperatriz da Rússia de 1762 a 1796, num período de grande expansão territorial e reforma da organização do país. Ao vencer o Império Otomano passou a ter acesso ao mar Negro, tendo ainda anexado a Crimeia e expandido para a Sibéria e Cáucaso, passando a Rússia a ser uma das maiores potências europeias.
Já no sec. XX, em 1939 a URSS/Rússia governada por Stalin estabeleceu um Pacto de não agressão com a Alemanha nazi de Hitler. Esse Pacto escondia um protocolo secreto que demonstrava a natureza imperialista dos dois países ao definir a divisão da Polónia entre os dois subscritores. Divisão essa que se verificou de facto, com a invasão da Polónia, primeiro por Hitler dando início à II Grande Guerra e duas semanas depois por Estaline, passaram agora 87 anos, em 17 de Setembro de 1939.
Na sequência da II Grande Guerra a Rússia, então chamada União Soviética, aproveitou o facto de os seus exércitos terem ocupado grande parte do Leste europeu no seu caminho para Berlim, para colocar governos satélites nesses países através dos partidos comunistas locais. Assim se construiu um império gigantesco. Que era um império provam-no as intervenções militares nos países quando tentavam algo diferente, como aconteceu na Polónia, na Hungria ou na Checoslováquia.
Com o fim da União Soviética em 1991 e o seu desmembramento, a Rússia acabou por voltar às suas antigas fronteiras. Mas a pulsão imperialista não estava morta, apenas adormecida. A chegada de Putin ao poder, depois das convulsões internas de Boris Iéltsin, recuperou o espírito imperialista como a Geórgia em 2008 e a Ucrânia desde 2014 o comprovam. No cumprimento do Memorando de Budapeste, a Ucrânia entregou à Rússia cerca de 1.900 bombas nucleares aí estacionadas desde o tempo da União Soviética; em contrapartida, a Rússia comprometeu-se a respeitar a independência da Ucrânia, a sua soberania e as fronteiras então estabelecidas.
E contudo…a Rússia invadiu a Crimeia em 2014 e o resto da Ucrânia em Fevereiro de 2022, garantindo ao mundo até ao dia anterior que não preparava nenhuma invasão ao país vizinho. Os motivos apresentados para esta guerra são apenas patéticos e são basicamente os mesmos de sempre para as invasões, praticamente tirados a copy/paste do argumentário de Hitler para as suas invasões europeias.
Depois de quase 5 anos de guerra, corajosamente sustentada pelos ucranianos contra um invasor muito superior em dimensão, armamento e número de combatentes, a situação está a alterar-se de uma forma perigosa. Perante um distanciamento dos EUA de Donald Trump e uma incapacidade de resolver a guerra no terreno, Putin vai buscar as velhas aspirações imperialistas russas. O que temos no horizonte é um alastrar da guerra a outros países vizinhos europeus, os estados do Báltico e…a velha Polónia. Costuma dizer-se que “Quem não conhece a História está condenado a repeti‑la.” Esperemos que os responsáveis europeus conheçam a História.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 21 Setembro 2026