segunda-feira, 2 de novembro de 2026

QUEM MANDA NO MUNDO?

 Enquanto se discute ainda se a Inteligência Artificial (IA) será capaz de poder tomar conta de sistemas capazes de tomar decisões com consequências decisivas para o futuro da Humanidade, o prémio Nobel Geoffrey Hinton, considerado como o padrinho da IA acredita que esta já poderá ter consciência, “podendo ter experiências subjectivas semelhantes aos humanos”. Se na China a investigação nesta área está dependente do Estado como tudo o que é importante no resto do mundo, e em particular nos EUA, são empresas privadas que dominam o sector, sendo gigantes a nível mundial em influência e valor bolsista de capitalização, como são: a OpenAI, a Google DeepMind, a Anthropic, a Meta AI, a Microsoft Research, a NVIDIA Research ou a xAI de Elon Musk. Discute-se muito a regulação na investigação de IA mas, no fundo, é apenas alguma auto-regulação que existe, se é que existe, dada a enorme competição entre as empresas.

Todos nós somos já, de alguma forma, utentes da IA de que dependemos cada vez mais. Toda a actividade humana, desde a simples escrita de textos até à produção industrial ou mesmo à guerra depende da utilização de equipamentos e maquinaria que integram, no seu funcionamento, alguma forma de IA. Se há pouco tempo se poderia comparar o surgimento da IA a descobertas anteriores da Humanidade como o fogo ou a roda, já se percebeu que esta comparação não faz sentido. Ao contrário daqueles, os robôs da IA podem por si mesmos determinar a continuidade da sua função, mesmo que algures fora da sua localização original.

As redes sociais começaram como simples partilha de opiniões ou manifestações de acordo ou desacordo, mas hoje não são nada disso, influenciando e mesmo manipulando vontades colectivas através dos seus algoritmos. A sua eficácia em estratégias de comunicação é incomensurável, quase fazendo de Goebbels e da sua estratégia de propaganda nazi uma brincadeira de crianças. A guerra na Ucrânia está a mostrar toda uma nova maneira de guerrear, no que se convencionou chamar “guerra híbrida”. Já não é preciso fazer declarações formais de guerra, combinando operações militares convencionais com ciberataques, desinformação, sabotagem contra redes informáticas, utilização de “proxis”, etc. Tudo isto potenciado pela novíssima tecnologia colocada pela IA à disposição dos países. Também aqui as empresas privadas têm um novo papel que pode decidir o resultado das guerras, ultrapassando soberanias. A Ucrânia está dependente, quer na defesa contra mísseis e drones russos, quer no ataque com meios semelhantes, do Starlink e do Starshield, ambos sistemas de comunicações por satélites propriedade de Elon Musk.

Quem manda realmente no mundo já não são os que elegemos, que apenas parecem ter capacidade de mandar em coisas simples que, na realidade, pouco definem como vivemos. Desde que a Microsoft passou a servir de base a quase todos os nossos computadores e que a Apple e a Google mandam nos telemóveis que connosco comunicam de forma pessoal, não tenhamos dúvidas: mandam mais em nós do que os nossos governantes.

As transações financeiras que, a cada segundo, dão várias voltas ao mundo já não respondem aos governos: viajam ao sabor dos algoritmos e das taxas de retorno dos grandes fundos, sejam ou não soberanos, ou mesmo de pensões. As criptomoedas ajudam a manter na escuridão os gigantescos negócios clandestinos que influenciam boa parte da economia exposta.

Os governos dos regimes liberais deixaram-se apanhar numa cilada e muitas das reacções populares a que hoje assistimos são resultado de sentimentos difusos de incapacidade de mudar verdadeiramente e de incompreensão pelo que se passa; já nem nas contas dos países mandam verdadeiramente, como nós bem sabemos: as taxas de juro, as empresas privadas de ranking e as dívidas gigantescas dominam as finanças que se dizem (ou julgam) soberanas.

Estamos a viver um momento de mudança radical em que sabemos de onde vimos, mas não fazemos ideia de para onde vamos. 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 2 Novembro 2026 

LYSENKO DEIXOU ESCOLA?

 Hoje está praticamente esquecida, mas a história do lysenkoismo merece ser recordada.

Entre 1928 e 1964 o Estado soviético adoptou como oficial uma pseudociência baseada nas ideias de um suposto cientista brilhante chamado Trofim Lysenko. Este agrónomo defendia a “herança dos caracteres adquiridos”, segundo a qual todos os organismos evoluiriam reagindo ao ambiente. Por exemplo, uma planta exposta ao frio ou à humidade reagiria tornando-se mais resistente, passando essa mudança às plantas suas descendentes. O mesmo se passaria com os animais e mesmo os humanos, naquilo a que ele chamava "vernalização".

Lysenko rejeitava, assim, a existência de genes, cromossomas e a selecção natural. Os seres vivos evoluiriam apenas de acordo como ambiente e os estímulos externos.

Em todo o mundo o conhecimento evoluía no sentido do que hoje é a base científica da biologia moderna e consequentes desenvolvimentos da própria medicina e da alimentação de toda a humanidade. Já a União Soviética enveredava por adoptar oficialmente uma verdadeira fraude científica. E isto durante grande parte do sec. XX, o que atrasou a investigação científica russa na área da genética durante dezenas de anos. A genética era mesmo apelidada de "ciência burguesa, idealista e fascista".

E porque é que isto aconteceu? Porque se integrava perfeitamente com a ideologia comunista segundo a qual o Homem Novo soviético poderia ser moldado pelo ambiente socialista: se o ambiente muda a planta, o ambiente socialista muda o homem. Estaline encontrou aqui uma justificação “científica” adequada à aplicação prática da ideologia soviética. Nomeou Lysenko director da Academia das Ciências Agrícolas da URSS, proibiu a pesquisa em genética e enviou para a prisão e mesmo à morte cientistas que se dedicavam à pesquisa genética. Enquanto o ocidente descobria a estrutura do ADN, na União Soviética ainda se discutia se os genes existiam.

Claro que a aplicação prática das teses de Lysenko à agricultura foi um desastre, causando produções agrícolas desastrosas, o mesmo tendo acontecido na China quando Mao importou as teorias soviéticas. O lysenkoismo representa perfeitamente o que sucede quando a ideologia tenta moldar a ciência aos seus objectivos.

Mas foi o próprio Marx que escreveu, em 1852, que “A história se repete por assim dizer, duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.”

Não posso deixar de me lembrar da tragédia original quando a “ciência do género” tenta esconder uma realidade inescapável: os seres humanos têm dois sexos, através dos quais se verifica a reprodução e consequente manutenção da espécie bem como a sua evolução. Só possível através dos cromossomas de espermatozóides e óvulos. Esta noção, que parece tão simples, e é resultado do desenvolvimento científico da genética, é hoje colocada em causa pela ideologia que sustenta que ao nascer o ser humano não é masculino ou feminino. Será, assim, o ambiente em que se vai desenvolver que define o género que pode ser diferente das características sexuais com que nasceu. A biologia deverá submeter-se à ideologia que, supostamente, coloca os seres humanos numa igualdade mais perfeita e justa.

Claro que a disforia de género existe e deve ser tratada com toda a nossa empatia e respeito possibilitando a aplicação das técnicas que a ciência médica desenvolveu, com vista a obter o equilíbrio pessoal.

Muito diferente é saltar para a farsa que Marx definiu para a repetição da História. Quando se tenta “fabricar” uma ciência que se adapte à política ou à ideologia, está provado que o resultado só pode ser trágico. Quer para o equilíbrio da sociedade como um todo, quer para os indivíduos que, acreditando inocentemente em melhorias, são cobaias de tratamentos que, ironicamente, apenas os tornarão exteriormente semelhantes aos estereótipos que dizem rejeitar.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em  26 Outubro 2026

RETROCESSO CIVILIZACIONAL

 Por uma vez esta crónica foge deliberadamente a uma das suas características-base que é a de não fazer críticas e apenas propor algo positivo. Contudo, penso que há situações em que não nos podemos deixar de indignar, partilhando essa reacção, já que nada mais podemos fazer para contrariar a realidade.

Felizmente, tenho plena consciência de que a pena de morte é algo quase genericamente abandonado pelo mundo embora, desgraçadamente, ainda haja muitos países que a considerem uma pena justificada e a pratiquem. Segundo a Amnistia Internacional, os países que mais usaram a pena de morte em 2024 são: surge em primeiro lugar a China com milhares de execuções por ano pelos mais diversos motivos, a que se seguem o Irão com mais de 972 execuções, a Arábia Saudita com pelo menos 345, o Iraque com pelo menos 63, o Iémen com pelo menos 38 e outros países com números claramente inferiores como o Egipto, a Somália, os EUA, Singapura e o Vietname.

Portugal foi um dos primeiros países a abolir a pena de morte para crimes civis em 1867. Em 1911 foi abolida para praticamente todos os crimes, tendo havido uma excepção durante a Primeira Guerra Mundial para certos crimes militares em teatro de guerra. A partir de 1976 a Constituição proibiu a pena de morte, sem excepções. A última execução em Portugal ocorreu em 1846.

A admissibilidade da pena de morte pressupõe um poder do Estado sobre a pessoa humana difícil de aceitar para quem defende os direitos humanos. Por outro lado, é algo de definitivo, de impossível reversão, mesmo que se venha a descobrir um erro judicial na base da decisão.

A execução da pena de morte de forma pública é, também, hoje algo condenável sob todos os pontos de vista, consistindo num espectáculo deprimente que apenas servirá para demonstrar o poder de quem o pratica. O objectivo será sempre o de causar medo em quem assiste, assim se obtendo um tipo de superioridade não aceitável num regime que se queira civilizado. Por isso mesmo, as execuções públicas são praticadas no Irão, na Coreia do Norte, no Afeganistão e na Arábia Saudita. A última execução pública na europa Ocidental terá sido a de Eugen Weidmann pela guilhotina em Paris, em 1939, e o espectáculo mediático que se seguiu levou a França a proibir definitivamente as execuções em praça pública.

Devido aos novos meios de comunicação, por execução pública não se pode considerar apenas o que se passa no local onde se pratica. É possível levar o espectáculo lamentável a todo o mundo em directo. É o que se passa normalmente no Irão, mas também as execuções criminosas levadas a cabo por grupos como os extremistas islâmicos que lançavam homossexuais do alto de prédios ou cortavam a garganta a jornalistas, tudo em directo, pela internet.

A actual administração norte-americana presidida por Donald Trump anunciou, pela voz do sec. da Defesa Pete Hegseth, que vai transmitir em directo ao público a execução do ex-major do Exército Nidal Hasan, condenado à morte pelo ataque de Fort Hood (Texas) em 2009, que causou 13 mortos. A execução deverá acontecer em 3 de Dezembro, por pelotão de fuzilamento. Se isto acontecer, será a primeira execução militar norte-americana desde 1961 e a primeira por fuzilamento desde 1945.

Não está aqui em causa a justeza da condenação de Nidal Hasan, já que o seu crime está claramente provado. Em causa estão todos os outros aspectos, desde a pena de morte em vez de prisão perpétua até aos pormenores da sua execução.

Neste ano de 2026 os EUA vão juntar-se, com esta acção, a um grupo de países que se podem considerar dos mais atrasados em termos de direitos humanos. É patente que Donald Trump tem provocado graves problemas económicos e sociais ao seu próprio povo. Tem alterado o relacionamento internacional, fazendo gala em surgir sistematicamente como aliado ao lado dos líderes mundiais mais ditatoriais como Putin, Xi Jinping e Kim Jong-un. Só faltava mesmo que Donald Trump viesse patrocinar um retrocesso lamentável no respeito dos direitos humanos, ao patrocinar a todo o mundo o espectáculo de uma execução ao vivo.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 19 de Outubro 2026

 

QUEM FOI MARGARET HAMILTON?

 Um dos acontecimentos mais marcantes da minha vida foi, sem dúvida, a descida dos primeiros homens na Lua em 20 de Julho de 1969, era eu adolescente. Já contei nestas linhas que fiquei acordado à espera de que a transmissão directa televisiva a preto e branco chegasse ao momento decisivo, para chamar a família. Foi assim que todos assistimos aos momentos marcantes dos primeiros passos de homens na Lua, para sempre ficando na memória os nomes de Neil Armstrong e de Buzz Aldrin, bem como o de Michael Collins que ficou a aguardar por eles no módulo de comando que haveria de os trazer de volta à Terra.

Os nomes dos astronautas da Apollo XI ficaram na História, mas aquele sucesso só foi possível com o trabalho preparatório de centenas de pessoas que trabalhavam na NASA para que o cumprimento da promessa de John Kennedy fosse possível.

Entre os cientistas que tornaram o feito possível conta-se uma mulher cujo nome na altura ficou na sombra, mas que merece ser lembrada e homenageada, agora que faleceu, aos 90 anos. Chamava-se Margaret Hamilton e chefiava a equipa de informáticos do programa Apollo.

Muita gente não sabe que foi o programa informático por ela desenvolvido que salvou a missão Apollo XI e, possivelmente, a vida dos astronautas que foram à Lua e voltaram em segurança. De facto, quando o módulo Eagle iniciou a descida para a superfície lunar, soaram alarmes de mau funcionamento dos equipamentos, obrigando a tomar a decisão de continuar ou abortar a missão. A decisão de continuar foi tomada em função do software desenvolvido por Margaret Hamilton e a sua equipa que permitiu a continuação, sobrepondo-se às deficiências técnicas detectadas.

As fotografias da então jovem programadora ao lado da pilha de folhas de códigos informáticos mostram a diferença entre a informática dos dias de hoje e de então. Os códigos eram escritos à mão em papel e depois introduzidos nos limitados computadores de então através de cartões perfurados. Esta mulher foi pioneira no desenvolvimento da engenharia de software, tendo sido crucial para a abertura de um caminho que nos trouxe aos dias de hoje em que discutimos as possibilidades, vantagens e perigos da inteligência artificial.

Margaret Hamilton, enquanto estudante de matemática, entrou no MIT (Massachusetts Institute of Technology) para trabalhar no departamento de meteorologia, desenvolvendo software para previsões meteorológicas. Quando, no meio da década de 60, o MIT começou a colaborar no projecto Apollo da NASA, Margaret Hamilton foi a primeira mulher a integrar a nova equipa de programação informática passando, pouco tempo depois, a ser a directora da divisão de engenharia de software.

Margaret Hamilton poderia parecer uma mulher simples, mas a sua determinação e dedicação às suas tarefas levaram-na a exercer funções da mais alta responsabilidade em instituições de vanguarda tecnológica. Numa altura em que às mulheres eram normalmente entregues funções de segunda categoria, ela mostrou como isso é um disparate. Para além de exercer a sua tarefa de programadora, Margaret Hamilton foi elevada aos cargos de direcção mais exigentes, mostrando que homens e mulheres são iguais nas suas capacidades, seja qual for a função que esteja em causa.

O trabalho de Margaret Hamilton foi reconhecido em 2016 quando o Presidente Barak Obama a agraciou com a “Medalha da Liberdade”, a mais alta condecoração civil dos EUA, tendo ainda sido integrada no “National Aviation Hall of Fame“ em 2022.

É costume dizer-se que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher; não deve haver situação em que isso seja tão verdade como esta em que os homens que se tornaram imortais por serem os primeiros a descer na Lua só o foram pelo trabalho de uma mulher. O seu nome era Margaret Hamilton.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 12 de Outubro 2026


terça-feira, 6 de outubro de 2026

A SOCIEDADE QUE OFERECEMOS AOS JOVENS

 A notícia da passada quinta-feira neste jornal dava conta de que 40% dos nossos jovens estudantes, do 3º ciclo do ensino básico e do secundário, são afectados por depressão. Não se trata de uma afirmação gratuita ou resultado de um inquérito sem representatividade, dado que envolveu mais de 18 mil estudantes de 259 escolas nacionais. Isto é, quase metade dos jovens portugueses apresentam sinais depressivos.

Não sou especialista na matéria, mas sou um cidadão comum, pai e avô, que em determinada altura da vida passou tangencialmente pela Educação e que, essencialmente, se preocupa com o futuro da nossa sociedade, quando os actuais jovens irão viver a sua via activa. O estudo em causa envolve o programa “Mais Contigo” que promove a saúde mental em contexto escolar, de que um dos promotores é a escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra. Assim sendo, só podemos esperar que as Entidades que dedicam a esta matéria com profissionalismo e especialização consigam levar os jovens a superar aqueles problemas de forma rápida e segura.

Questão muito diferente, e é aquela que nos deve preocupar a todos, é tentar compreender as razões desta situação que não pode ser considerada normal e da qual os jovens serão os menos responsáveis. Certamente vários aspectos concorrerão para a situação actual: aspectos escolares certamente, mas também contextos familiares e da sociedade em geral. As sucessivas alterações da organização escolar, com introduz exames, tira exames, ora é necessário produzir competências, ora a formação é que é essencial, etc. etc. têm a necessária consequência de produzir ansiedade e mesmo alguma desmotivação em muitos jovens. A falta de continuidade das aulas (veja-se o que se passa com as greves deste fim de semana!) relacionada também com uma disparatada organização nacional de colocação de professores, só pode conduzir a desmotivação de professores e alunos. As famílias, principalmente as de menores recursos, têm uma capacidade muito limitada de acompanhar os seus jovens, com uma vida profissional que não lhes permite esse acompanhamento.

E quanto à sociedade em geral? Olhemos para o que se passa em Portugal no que diz respeito à saúde mental. Segundo dados internacionais de 2024–2026, Portugal tem 163,4 utilizadores de antidepressivos por cada 1.000 habitantes, o que corresponde a 16,3% da população. Estamos no 2.º lugar entre os países da OCDE, apenas atrás da Islândia (168,9 por 1.000), sendo a média europeia de 60–90 por 1.000. Mas também no que respeita a ansiolíticos Portugal tem historicamente um dos consumos mais elevados de medicamentos da Europa.

Isto é, em Portugal, os jovens não estão sozinhos no que respeita a problemas generalizados de saúde mental. É a própria desestruturação da nossa sociedade que cria as condições para que muitas pessoas se sintam desorientadas, ansiosas ou mesmo perdidas com sentimentos de solidão e necessidade de fuga à realidade. Criámos uma sociedade em que a empatia parece um luxo despropositado e em que as posições, seja sobre o que for, surgem sempres extremadas impossibilitando um confronto normal e pacífico. Para dar um exemplo do desnorte colectivo em que vivemos, olhemos para a comoção pública nos últimos dias com a saída de Cristiano Ronaldo da selecção portuguesa de futebol. Jornalistas com dias inteiros de televisão, comentadores às dezenas para todo os gostos, jogadores da selecção acabrunhados, embora vencedores, acabando num primeiro-ministro a telefonar a Ronaldo, ao seleccionador e ao presidente da federação, temos tido de tudo. Só não tivemos bom senso colectivo e por parte dos responsáveis máximos do país. Não nos podemos, mesmo, admirar com os problemas mentais dos jovens.

Com exemplos destes e um contexto social como o que temos é caso para dizer que não podemos ficar admirados com as necessidades de apoio aos nossos jovens em termos de saúde mental. 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 5 Outubro 2026 

terça-feira, 29 de setembro de 2026

COIMBRA PICA.RESCA

 Todos nós conhecemos histórias antigas mais ou menos picarescas, no sentido de cómicas ou mesmo burlescas, cuja aceitação social advém de se considerarem fruto da irreverência dos estudantes da nossa Universidade.

Entre as mais comuns, contam-se aquelas em que grupos de estudantes assaltavam os galinheiros das residências de lentes universitários. Lembro-me de um primo meu que, enquanto estudante de Medicina, fez parte do grupo que fez um assalto natalício ao galinheiro do Doutor Nunes Vicente, de onde subtraíram um belo perú. Na noite do jantar em que o animal foi apreciado à mesa, já tarde na noite, resolveram telefonar para o assaltado argumentando com uma urgência para o fazer levantar da cama e atender o telefone; momento em que informaram o Prof. de que estavam a comer um perú, mas que sabia a pato!

Pelos anos quarenta, Coimbra conheceu um estudante que ficou na história da academia pelos constantes episódios rocambolescos da sua vida boémia. De seu nome Felisberto Pica, para sempre ficou conhecido como o “Pica”. Muitas das suas actividades acabavam por levá-lo a responder no Tribunal e, tantas vezes lá foi, que a certa altura foi condenado à expulsão da Comarca de Coimbra.

O Pica, estudante de Medicina, foi acabar o curso no Porto, onde veio a exercer como médico. Um dia em que veio a Coimbra de comboio para ver um jogo da sua amada Académica, consta que trouxe uma padiola, sobre a qual seguiu até ao estádio; sendo interpelado pela polícia sobre o cumprimento da interdição legal, leu ao agente da autoridade a sentença que referia expressamente que “não podia pisar terra de Coimbra” o que ele estava a cumprir, já que na padiola estava espalhada terra vinda do Porto.

A acrescentar a todas estas histórias sobre a passagem do Pica por Coimbra há uma outra, completamente verdadeira, que não vem em livro ou jornal nenhum. O Pica andou vários anos, creio que sete, a tentar entrar em Medicina, mas sem conseguir passar no exame de aptidão à Universidade. Até que, num desses exames, resolveu tirar à sucapa a prova escrita já feita à rapariga examinanda que estava na carteira à sua frente, copiou o que pôde e devolveu depois a prova. Assim conseguiu, finalmente, passar à prova oral. Claro que a academia em peso acorreu para assistir à prova, ocupando a sala por completo e ainda os corredores. Nem o facto de o examinador ser o velho “Trincãozão” o bem conhecido Doutor Trincão, conhecido pelo seu rigor, alterou a situação de enorme pressão em que as respostas do Pica foram apenas anedóticas conseguindo, contudo, entrar finalmente em medicina. Dali seguiu o Pica em ombros até à Baixa, parando no caminho para comprar umas dezenas de bilhetes-postais. Já no café “A Brasileira”, distribuiu os postais pelos clientes, saltou para cima de uma cadeira e ditou o texto dirigido ao Pai anunciando a entrada em Medicina e dando os parabéns já que, segundo ele, se fosse o próprio a dar a notícia, ninguém acreditaria.

E a estudante cuja prova escrita ele havia roubado e copiado? Tratava-se de uma rapariguinha oriunda de uma aldeia serrana do concelho da Covilhã que foi também à oral. Mas, estarrecida com a multidão à volta do rapaz que lhe tirara o exame, na sua humildade ficou incapaz de responder a qualquer pergunta. Chumbou sem apelo nem agravo, pelo que saiu dali e foi inscrever-se no Magistério Primário para aprender a profissão que seria a sua toda a vida: uma das heroínas portuguesas do sec. XX, esquecidas e nunca suficientemente homenageadas pelo que fizeram pelas crianças portuguesas.

Sei desta história, porque a rapariguinha viria a ser a minha Mãe, poucos anos depois. O Pica foi médico pelo resto da vida e ficou eternamente conhecido pelas suas tropelias enquanto estudante. A minha Mãe foi Professora Primária durante dezenas de anos, consequência da esperteza de um rapaz apenas brincalhão que gozava a vida e se estava nas tintas para quem, eventualmente, atropelasse. Se algum motivo me leva a partilhar esta história que seja o de obrigar a pensar que, muitas vezes, temos atitudes que até poderão ter graça e até nos darão jeito, mas que devemos, sempre, ter cuidado em que não prejudiquem outros que o acaso leva a estarem ali e cuja vida acaba por ser completamente alterada.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 28 de Setembro de 2026 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

IMPÉRIOS RUSSOS

 

Um dos filmes mais marcantes da minha vida chama-se “IVAN O TERRÍVEL” (parte II), uma das obras-primas de Serguei Eisenstein. O filme, encomendado por Josef Stalin, aborda a vida e obra de Ivan IV, o primeiro líder russo a usar o título de “czar”. Ivan IV expandiu o território russo através de conquistas militares, adoptando políticas repressivas que marcaram com terror o seu reinado, tendo inclusivamente matado o seu próprio filho e sucessor. Considera-se habitualmente ser o fundador do Império Russo, por incluir estados não eslavos.

Duas outras personalidades viriam a marcar decisivamente a ampliação territorial e aumento da influência do Império Russo. Desde logo, Pedro I que foi czar da Rússia desde 1682, introduzindo profundas reformas que modernizaram a Rússia e fundando S. Petersburgo que se tornou a capital. Ao vencer uma guerra com a Suécia em 1721, ampliou o território russo para o Báltico, após o que se auto-intitulou “Imperador de todas as Rússias”, assim formalizando o Império Russo. Catarina II foi imperatriz da Rússia de 1762 a 1796, num período de grande expansão territorial e reforma da organização do país. Ao vencer o Império Otomano passou a ter acesso ao mar Negro, tendo ainda anexado a Crimeia e expandido para a Sibéria e Cáucaso, passando a Rússia a ser uma das maiores potências europeias.

Já no sec. XX, em 1939 a URSS/Rússia governada por Stalin estabeleceu um Pacto de não agressão com a Alemanha nazi de Hitler. Esse Pacto escondia um protocolo secreto que demonstrava a natureza imperialista dos dois países ao definir a divisão da Polónia entre os dois subscritores. Divisão essa que se verificou de facto, com a invasão da Polónia, primeiro por Hitler dando início à II Grande Guerra e duas semanas depois por Estaline, passaram agora 87 anos, em 17 de Setembro de 1939.

Na sequência da II Grande Guerra a Rússia, então chamada União Soviética, aproveitou o facto de os seus exércitos terem ocupado grande parte do Leste europeu no seu caminho para Berlim, para colocar governos satélites nesses países através dos partidos comunistas locais. Assim se construiu um império gigantesco. Que era um império provam-no as intervenções militares nos países quando tentavam algo diferente, como aconteceu na Polónia, na Hungria ou na Checoslováquia.

Com o fim da União Soviética em 1991 e o seu desmembramento, a Rússia acabou por voltar às suas antigas fronteiras. Mas a pulsão imperialista não estava morta, apenas adormecida. A chegada de Putin ao poder, depois das convulsões internas de Boris Iéltsin, recuperou o espírito imperialista como a Geórgia em 2008 e a Ucrânia desde 2014 o comprovam. No cumprimento do Memorando de Budapeste, a Ucrânia entregou à Rússia cerca de 1.900 bombas nucleares aí estacionadas desde o tempo da União Soviética; em contrapartida, a Rússia comprometeu-se a respeitar a independência da Ucrânia, a sua soberania e as fronteiras então estabelecidas.

E contudo…a Rússia invadiu a Crimeia em 2014 e o resto da Ucrânia em Fevereiro de 2022, garantindo ao mundo até ao dia anterior que não preparava nenhuma invasão ao país vizinho. Os motivos apresentados para esta guerra são apenas patéticos e são basicamente os mesmos de sempre para as invasões, praticamente tirados a copy/paste do argumentário de Hitler para as suas invasões europeias.

Depois de quase 5 anos de guerra, corajosamente sustentada pelos ucranianos contra um invasor muito superior em dimensão, armamento e número de combatentes, a situação está a alterar-se de uma forma perigosa. Perante um distanciamento dos EUA de Donald Trump e uma incapacidade de resolver a guerra no terreno, Putin vai buscar as velhas aspirações imperialistas russas. O que temos no horizonte é um alastrar da guerra a outros países vizinhos europeus, os estados do Báltico e…a velha Polónia. Costuma dizer-se que “Quem não conhece a História está condenado a repeti‑la.” Esperemos que os responsáveis europeus conheçam a História.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 21 Setembro 2026 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

“O SENHOR É DA MAÇONARIA?”

 

Constitucionalmente “a República Portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas”. Acrescenta ainda a nossa Constituição que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei” e que “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas”. Acresce que, pela nossa lei fundamental, “os cidadãos têm o direito de, livremente e sem dependência de qualquer autorização, constituir associações, desde que estas não se destinem a promover a violência e os respetivos fins não sejam contrários à lei penal”

Considerei conveniente começar esta crónica lembrando alguns princípios fundamentais que regem a nossa vivência colectiva, pelo simples motivo de que parecem esquecidos por muita gente e, o que é mais espantoso, por cidadãos que nos representam na Assembleia da República.

É ainda conveniente afirmar que por razões que são suas e não vê qualquer interesse em divulgar, o autor destas linhas nunca pertenceu, não pertence e tenciona nunca pertencer à Maçonaria, a fim de que o que vai escrito nestas linhas não seja objecto de más interpretações.

Na recente ida de um Ministro da República a uma comissão da Assembleia da República, um Deputado resolveu fazer-lhe a pergunta que vai no título desta crónica. Na realidade, os deputados têm a liberdade de perguntar o que quer que lhes passe pela cabeça, mas devem ter consciência de que as suas palavras ditas no exercício das suas funções de representação do voto popular têm um significado próprio e profundo, por mais anódinas que pareçam. Neste caso, é evidente o propósito de tentar associar o nome de um responsável governamental à maçonaria, qualquer que fosse a resposta obtida. E, ao fazer aquela pergunta, o Deputado deveria saber que estava a ir contra o espírito e a lei da nossa Constituição, para além de se meter onde não era chamado que é a vida privada de um cidadão.

A Maçonaria é uma associação que respeita princípios com algumas centenas de anos e a liberdade de lhe pertencer é, hoje, total. Já lá vai o tempo em que a Ditadura Militar a encerrou administrativamente em 1926 e o Estado Novo a proibiu em 1950.

Curiosamente, algumas das figuras mais proeminentes do Estado Novo tinham, em certas alturas da sua vida, sido maçons: casos do Presidente Óscar Carmona e do Prof. Bissaya Barreto. Já o antigo Presidente da Assembleia Nacional Albino dos Reis sempre foi considerado como também tendo sido maçon, embora não haja provas disso.

É sobejamente conhecido o papel da Maçonaria nas guerras civis portuguesas do sec. XIX, sendo maçons muitos dos responsáveis liberais. Também foi relevante o seu papel na implantação da República e, ainda, durante a Primeira República. Diria que, para o bem e para o mal, o país que somos é, em larga medida, um legado do papel dos maçons desses tempos. Destes factos virá, ainda hoje, muita da desconfiança que alguns sectores da sociedade portuguesa demonstram para com a maçonaria. Claro que o facto de a Igreja Católica proibir a pertença dos católicos à Maçonaria também tem influência nesse sentimento. Aqui devo recordar que também Álvaro Cunhal no seu tempo proibiria os militantes comunistas de serem maçons. Num e noutro caso se pretenderia evitar a situação de se servir dois amos ao mesmo tempo.

O antigo secretismo da maçonaria está hoje substituído por um aspecto dito “discreto” e conheço vários maçons que não têm qualquer problema em afirmar-se publicamente como tal. Pessoalmente, acho que fazem bem nessa abertura, defendida por António Arnaut que foi seu Grão-Meste e era indiscutivelmente um Homem Bom. Já o Deputado, dito liberal, que fez aquela pergunta em plena Assembleia da República deveria ter vergonha da triste figura que fez.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 14 Setembro 2026