terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

PLANEAR E GERIR é necessário

 As situações limite constituem oportunidades para testar sistemas instalados e, depois de ultrapassadas, proceder a uma avaliação do sucedido. É fácil responsabilizar pelas alterações climáticas a actual situação que se verifica em largas zonas do país depois da tempestades Kristin e Leonardo, mas assim se retira a carga que deveria cair sobre quem tem a responsabilidade de planear o ordenamento do território.

Por sorte nossa, no que a Coimbra respeita, a tempestade Kistin desviou-se relativamente ao previsto e não fomos vítimas ao nível do sucedido na região de Leiria. Mas as chuvas intensas e permanentes que temos sofrido fizeram recordar as cheias anteriores, em particular as de 2001 e 2016, causando ansiedade e fazendo regressar as preocupações com as consequências das inundações.

É também o momento para colocar questões que continuam sem resposta há dezenas de anos. É certo e sabido que, depois da tragédia, tudo se esquece e parte-se para novas questões “urgentes” que passam a ocupar o espaço mediático. Infelizmente, os eventuais relatórios sobre o que se passou irão para o fundo das gavetas, sem que aproveitem ao futuro.

Nos anos 60 do sec. passado foi elaborado e aprovado o Plano de Aproveitamento do Mondego” que foi concretizado, durante as duas décadas seguintes, embora não totalmente. Acresce a existência da “Estratégia Nacional para a Gestão da Água”, plano essencial para uma eficiente gestão de um recurso essencial. Relativamente à bacia do Mondego, está prevista a construção da barragem de Girabolhos acompanhada da central da Bogueira. Este conjunto é essencial para uma gestão eficiente das águas do Mondego. A construção desta barragem foi iniciada mas, em 2016, foi parada pelo Governo de então. Como consequência das tempestades deste Inverno, o actual Governo anunciou novo concurso para a construção deste empreendimento que, desta vez e com atraso de tantos anos, se espera que finalmente venha a ser completamente executado.

Fica à vista de todos o problema do planeamento territorial em Portugal de que parece só se tomar consciência colectiva quando surgem as consequências sofridas por tanta gente.

Mas temos ainda outra questão grave, que é a da gestão do território. E não precisamos de sair da bacia do Mondego para o provar. De facto, embora incompleto, o plano velho de 60 anos de “Aproveitamento Hidráulico do Mondego” é uma obra notável a nível nacional e de uma importância crucial para a bacia do Mondego. Mas nunca foi criada uma entidade que pudesse fazer a sua gestão global, compatibilizando os vários interesses, tantas vezes conflituantes. É necessário gerir as várias barragens existentes, em função da produção de energia eléctrica, incluindo igualmente as descargas, segurança e operação hidráulica; mas também desenvolver e manter o sistema de regadio do Baixo Mondego e promover o desenvolvimento agrícola e territorial, entre outras funções de relevo.

Nem é preciso inventar. De facto, todas estas competências são as da EDIA que gere o empreendimento do Alqueva com os resultados que se conhecem.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 9 Fevereiro 2026 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

DE APOLLO A ARTEMIS

 

O deus grego Apolo era filho de Zeus, o deus mais poderoso de todo o panteão grego. Depois de Zeus, Apolo era o deus mais venerado, sendo a divindade do sol, da juventude, da música e da poesia, entre outros.

Apollo foi o nome dado, nos anos 60, ao programa da NASA que cumpriria o desejo formulado por John F. Kennedy de levar um americano a por o pé na Lua e trazê-lo de volta em segurança antes que aquela década terminasse. Kennedy já não o veria, mas foi realmente em 21 de Julho de 1969 que o comandante da Apollo XI desceu do módulo lunar Eagle para pisar o solo lunar. Lembro-me como se tivesse sido ontem, embora já tenham passado 57 anos sobre esse acontecimento extraordinário. Era um adolescente, mas fiquei acordado a ver a televisão até que a transmissão directa da Lua, quase às três da manhã, surgiu e fui chamar a família para assistir também. O programa Apollo não se fez sem dor, nem sacrifício. Em 1967, num treino em terra, morreram três astronautas num incêndio na nave Apollo I. A Apollo XIII lançada em Abril de 1970 e que deveria ser a terceira a pousar na Lua sofreu uma avaria grave e todo o mundo seguiu em directo a viagem até à Lua e regresso em segurança no limite, após usar a gravidade lunar como catapulta para a Terra. O programa Apollo levou 12 astronautas a pisar a Lua em seis alunagens bem sucedidas. A última foi a Apollo XVII em 1972, pelo que o Homem já não visita o nosso satélite natural há 54 anos.

Apollo tinha uma irmã gémea, Ártemis, a deusa da Lua, da caça e dos animais selvagens. Faz assim todo o sentido que, neste século XXI, a NASA tenha adoptado o seu nome para um novo programa para levar de novo o homem à Lua. O programa Artemis tem três fases. A primeira, denominada Artemis I, consistiu no envio à Lua, em Novembro de 2022, da nave não tripulada Orion e regresso em segurança à Terra. Esta operação testou o funcionamento de todo o equipamento desenvolvido pela NASA para levar de novo o homem à Lua e trazê-lo em segurança. Na segunda fase, a Artemis II levará uma tripulação de quatro pessoas até à Lua, passando por trás do planeta e regressando à Terra. Sendo tripulada, proporcionará um teste definitivo às condições necessárias para a vida humana numa viagem fora da órbita terrestre. Já a Artemis III completará o programa. Levará a tripulação à Lua, descendo no satélite pela primeira vez desde 1972. Mas esta viagem será completamente diferente do programa Apollo. Deverá proporcionar as condições para que o Homem possa viver na Lua de forma sustentada durante períodos prolongados, preparando as condições para uma presença humana permanente na Lua.

A Artemis II deverá ser lançada na próxima sexta-feira, dia 6 de Fevereiro. Para quem desde há tantas dezenas de anos espera que que a Humanidade visite de novo a Lua, é algo de especial numa manifestação de Esperança no futuro de uma Humanidade que nos últimos tempos parece sem Norte, nem boas notícias. Que o Comandante Reid Wiseman, o piloto Victor Glover e os especialistas da missão Christina Koch e Jeremy Hansen façam uma boa viagem até à Lua e regressem em segurança são os meus votos.

Foto retirada de :

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O MUNDO EM RUPTURA

 Não andarei muito longe da verdade se disser que o “Encontro de Davos” de 2026 foi muito para além do habitual neste habitual encontro de personalidades da política internacional, da economia mundial e de empreendedores globais. O discurso que o Presidente americano Donald Trump trazia preparado e leu perante a assistência, e que muito provavelmente foi escrito pelo seu conselheiro Stephen Miller, chocou quem o ouviu. A violência e suprema arrogância das palavras quer atacaram directamente países que há dezenas de anos pertencem à mesma aliança militar e até agora partilhavam valores civilizacionais comuns ultrapassaram todos os limites.

Donald Trump aproveitou Davos para concretizar aquilo a que chamou Conselho de Paz (Board of Peace) que a princípio se destinaria a assegurar a reconstrução da Faixa de Gaza dentro daquela sua ideia de lá construir a “Riviera do Oriente” como já lhe chamou. Nada que surpreenda atendendo à sua predilecção pelos negócios acima da política e, em particular, pela promoção imobiliária de luxo.

Contudo, este denominado Conselho de Paz já vai muito para além daquele objectivo limitado no tempo e no espaço físico. Os seus objectivos alargaram-se visando agora constituir uma “organização internacional destinada promover estabilidade, restaurar governação legal e assegurar uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”. Assim Donald Trump atropela os fins da ONU, enquanto afirma sentir-se “honrado” por presidir a uma nova instituição internacional criada por ele próprio, “mais eficaz” do que as instituições hoje existentes. Para tal convidou cerca de 60 países a integrarem o Conselho de Paz, estabelecendo uma verba de ingresso de mil milhões de dólares por cada país. O seu documento de constituição, a chamada “Carta do Conselho de Paz”, foi assinado em Davos pelos líderes de cerca de 35 países entre os quais, contudo, não se encontra a esmagadora maioria dos países membros da NATO, com os países europeus à cabeça, mas incluindo já a Hungria e a Turquia.

Sem surpresas, o Conselho de Paz tem um órgão de gestão superior constituído por seis norte-americanos e ainda pelo antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair. Evidentemente todos escolhidos directamente por Donald Trump e basicamente um grupo de homens de negócios a querer governar o mundo.

O discurso do Presidente americano em Davos abordou ainda a questão da Gronelândia. Embora tenha reafirmado a vontade de posse da ilha por parte dos EUA, curiosamente não colocou em cima da mesa a hipótese de conquista militar. E, no final do Encontro, numa reunião com o Sec. Geral da Nato Mark Rutte, Donald Trump terá chegado a acordo com a aliança militar numa solução que garantirá aos EUA a segurança militar do Ártico mas também a exploração das riquezas naturais daquele território.

Os sinais de que a ordem mundial que conhecemos está em ruptura já são mais que apenas sinais, são uma certeza. Do que não temos a certeza é se a nova situação internacional será melhor e mais segura do que aquela.

Visto 1054, publicado originalmente no Diário de Coimbra de 26 Janeiro 2026 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Portugal 2026 – uma visão distópica

 

Vejamos onde estamos. Para nossa satisfação, Portugal atingiu em 2025 o valor base de 100 no PIB per capita em paridades de poder de compra em relação a todos os 27 países da União Europeia. Trata-se de um sucesso relativo que, apesar de tudo, nos coloca em 12º lugar junto da França na média europeia, ainda assim não acima dela como todos desejaríamos. Mas é verdade que os nossos governantes conseguiram calar os velhos do restelo que diziam não ser possível passar de algum 18º lugar equivalente a uns modestos 82% quando em 2000 já era 85%.

O salário médio anual dos portugueses atingiu os €30.000 correspondentes a um 12º lugar na União a que pertencemos, bem longe dos €23.000 do 18º lugar de quem não conseguiu o nosso sucesso. Este salário fugiu do salário mínimo que, apesar de tudo, anda já nos €21.000 , bem longe do que se verifica nos antigos países comunistas do Leste da Europa.

Estamos todos de parabéns e já podemos começar a exportar políticos de excepcional qualidade para todo mundo. Foram os nossos governantes que, quando no horizonte começaram a surgir nuvens de falta de alguns trabalhadores especializados como médicos, enfermeiros e professores, com antecedência informada encontraram soluções para quando esses problemas se concretizassem. Como exemplo, perto de hospitais na grande Lisboa ou no Algarve, foram imediatamente construídos blocos residenciais com qualidade e rendas convidativas para acolher médicos e enfermeiros. Aliás, o mesmo foi feito junto de escolas com indícios de futura falta de professores.

As nossas exportações atingiram já o valor excelente de 450 mil milhões de euros, muito acima das previsões optimistas de há alguns anos que apontavam para uns simples 132 mil milhões.

Estes resultados magníficos correspondem realmente a sucessos económicos relevantes nunca conhecidos em Portugal que, finalmente, se conseguiu livrar da má fama da baixa produtividade das nossas empresas. Para isso muito contribuíram os mais de 135 mil milhões de euros recebidos da CEE e UE desde 1986 que, para além de ajudarem a recuperar do baixo nível de infraestruturas que até então tínhamos, deram um fortíssimo empurrão à economia real. Também o PRR foi magnificamente aproveitado na recuperação e “resiliência” da nossa economia. Ao contrário de outros países que o utilizaram para compensar os fracos investimentos públicos, o nosso foi essencialmente para a economia. Isto é, para a recuperação e preparação das empresas para os desafios de uma economia globalizada e em transformação.

Mas houve uma transformação política essencial para estes resultados. Avançou-se finalmente para a regionalização tendo-se, contudo, conseguido evitar retalhar o país como era vontade das clientelas partidárias. Criaram-se duas grandes regiões: a Região da Frente Atlântica com capital em Coimbra e a Região da Frente Ibérica com capital na Guarda. A fronteira seguiu aproximadamente a antiga e célebre E.N.2 com os acertos locais necessários. A distribuição orçamental foi fácil: 1/3 para cada uma delas e outro tanto para o Estado Central que ficou com as competências da soberania. O resultado imediato foi o fim da saída do interior para o litoral e uma autêntica revolução demográfica e económica com os resultados conhecidos.

Teria sido bom, não fora distópico

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 19 Janeiro 2026 

sábado, 17 de janeiro de 2026

BB para sempre

 

No meio da enorme confusão em que o mundo inteiro está metido, passou quase despercebida a morte de Brigitte Bardot. Para quem viveu a adolescência e a juventude nos anos 60 e 70, a BB como era conhecida por todos, era um símbolo vivo (e lindíssimo) das transformações por que a cultura e mesmo a sociedade ocidental como um todo estavam a passar naquele momento.

De rapariguinha bonita a querer surgir no mundo do cinema como acontecia e ainda hoje acontece à volta de festivais de cinema como o de Cannes, rapidamente passou a estrela cinematográfica a nível planetário. O momento crucial surgiu em 1956 com o filme de Roger Vadim “E Deus criou a Mulher” em que BB transforma o seu papel numa verdadeira libertação feminina. Bardot não fez apenas valer a sua beleza e presença naturais, mas acrescentou-lhes uma sexualidade afirmativa e desinibida, mesmo para os dias de hoje, que definiu toda uma nova era cinematográfica. A sensualidade da cena em que dança descalça em cima da mesa marcou definitivamente a cultura daqueles anos. BB fez filmes de realizadores clássicos, mas também de realizadores da “Nova Vaga” como ficaram conhecidos. Foi o caso de “Le Mepris” (O Desprezo) realizado por Jean Luc Godard em 1963 em que BB contracenou de forma notável com Michel Piccoli e Jack Palance numa adaptação do romance homónimo de Alberto Moravia.

Brigitte Bardot foi ainda intérprete de canções, por exemplo Bonnie & Clyde da autoria de Serge Gainsbourg, outro símbolo da cultura francesa dos anos 60. Foi ainda modelo para a “Marianne”, assim se tornando praticamente um património da França.

É impossível não marcar um contraponto com a atriz global americana desses anos e igualmente símbolo sexual Marilyn Monroe que, no entanto, acabou por sucumbir à fama e às pressões que acarreta, morrendo tragicamente em 1962 com 36 anos Resultado, provavelmente, de incapacidade de enfrentar uma sociedade americana de uma violência inaudita, pouco depois de cantar os parabéns ao Presidente Kennedy perante dezenas de milhões de telespectadores.

Já Brigitte Bardot teve um destino muito diferente que, aliás, ela própria se definiu. No início dos anos 70 decidiu abandonar o cinema e foi viver para a sua casa “La Madrague” à beira-mar em Saint Tropez aí se refugiando até aos seus últimos dias. Dedicou-se completamente à proteccção dos animais, tendo para isso constituído mesmo uma fundação para onde dirigiu todos os seus pertences.

A BB morreu em 28 de Dezembro de 2025 aos 91 anos, tendo sido sepultada no cemitério de Saint Tropez perante o acompanhamento emocionado da família, alguns amigos próximos e a população de Saint Tropez que lhe dedicava uma extrema afeição. O funeral foi acompanhado pelos Gipsy Kings a quem ela em vida apoiou como só ela era capaz.

Como todos os grandes artistas, a vida de Brigitte Bardot não foi isenta de críticas e contradições. Mas a verdade é que a BB ficará na nossa memória como símbolo da conjugação de beleza e libertação feminina, vivendo para sempre nos écrans do cinema.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 12 Janeiro 2026