segunda-feira, 29 de junho de 2026

Ponto de partida (de novo)

 

De vez em quando a realidade obriga-nos a tomar um banho gelado que nos tira do conforto diário em que tanto gostamos de viver, algo para o que Camões já há tanto tempo nos tentou avisar: “Estava linda Inês posta em sossego, de seus anos colhendo doce fruto, naquele engano d’alma ledo e cego que a Fortuna não deixa durar muito”.

A revisão demográfica finalmente realizada pelo INE trouxe a boa notícia de que a população residente em Portugal aumentou de cerca de 10,5 em 2021 para 11,4 milhões em 2025. Esta variação deve-se principalmente à entrada de imigrantes, que se sobrepõe a um saldo natural negativo e a uma emigração de jovens. A actualização da população obrigou, contudo, a uma revisão de dados económicos que definem a evolução da economia e respectiva comparação com os outros países. Em consequência, dado que o produto nacional não cresceu como a população, o nosso PIB per capita em paridades de poder de compra equivalente passou a ser de 77% da média da União Europeia. Como antes da revisão demográfica essa percentagem era de 81%, isso significa que descemos da 18ª para a 22ª posição entre os 27 membros da União Europeia. Toda aquela conversa de “crescermos acima da média europeia” fica deitada por terra. E isso é mesmo uma má notícia colocando-nos atrás também da Polónia, da Estónia, da Croácia e da Roménia.

A questão da produtividade será o mais grave e mais difícil problema económico em Portugal. Temos a quarta pior produtividade da Europa sendo que, em 2024, cada trabalhador português gerou cerca de 48 mil euros para o produto interno bruto, contra 74 mil na União Europeia. O salário bruto mensal ajustado a tempo completo foi de 2068 euros em Portugal e de 3317 euros na União e, ainda por cima, os portugueses trabalharam, em média, 37,4 horas por semana, contra 35,9 no conjunto europeu. Temos de ter consciência de que, em termos económicos, estamos praticamente num ponto de partida, quase a zeros em comparação com os nossos parceiros.

Quando nos inundam com uma bela narrativa da “geração mais bem preparada de sempre” que, não por acaso, abandona o país às dezenas de milhares por ano, eis que somos informados que Portugal tem a mais baixa taxa de escolaridade da União Europeia. Ao lado da maior sofisticação em termos de investigação científica, vive uma larga maioria incapaz de acompanhar esse progresso em termos de formação e de emprego. Compreende-se: a percentagem de população entre os 25 e os 64 anos de idade com ensino secundário completo é de 64,3% valor que compara com os 81,2% da média da União Europeia. Como compreender esta situação depois de tanto esforço anunciado por sucessivos governos? Esta diferença é tão grande que mal se percebe que não seja uma das questões mais discutidas na sociedade. E no entanto…

É evidente que Portugal está muito melhor do que há umas dezenas de anos. Mas essa constatação não nos deve impedir de ter consciência de que, em aspectos essenciais, há tanto a fazer que mais parece estarmos permanentemente num ponto de partida. Coloquemos aí o nosso foco e não em tanta coisa cujo interesse desaparece ao fim de poucos dias.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 29 Junho 2026 

segunda-feira, 22 de junho de 2026

SONS, RUÍDOS E MELODIAS

 

O compositor oriundo de Coimbra Sérgio Azevedo publicou recentemente um livro com o sugestivo título “O que sempre quis saber sobre Música Clássica e teve medo de perguntar”. Destinado ao público em geral, mas também a conhecedores do assunto aborda, de forma objectiva e simples compreensão, diversas matérias ligadas ao tema. Explica quando se devem bater palmas, mas também como se compõem os diversos tipos de orquestras, quais os instrumentos musicais e a estrutura das diversas composições musicais. Para um simples amador desse género de música, como o autor destas linhas, é uma obra preciosa e de extremo interesse.

Sérgio Azevedo justifica também o seu programa na rádio Antena 2 chamado “Ao sabor da corrente”, afirmando: “porque o mundo está cheio de ruídos, sons e belas melodias”. E quem não estará de acordo?

Uma das características desta época histórica em que vivemos é a possibilidade de poder escolher dentro de uma extrema diversidade de propostas musicais, quer as produzidas contemporaneamente, quer as de séculos de actividade artística. Não vou ao ponto de achar que alguns dos estilos actuais como reggaeton, funk brasileiro, rap/hip-hop e outros se devam classificar como sons ou ruídos já que há imensa gente que os houve com gosto. Apenas não serão belas melodias, mas claro, gostos não se discutem e têm o direito a fazer parte da cultura contemporânea

Por isso mesmo posso reinvindicar para mim próprio o direito a ouvir as músicas de que gosto. Entre elas, aquela a que se chama, um pouco impropriamente, “música clássica”, porque essa designação se refere a um período histórico da música, entre o barroco e o romantismo. Há quem, em alternativa, a designe por “música erudita”, talvez porque para a apreciar seja necessária alguma formação cultural com o significado de erudição. Não estou inteiramente de acordo porque muita gente a aprecia completamente, ainda que não tenha muita “erudição”. Chamemos-lhe, então, música clássica, seja qual for o período histórico em que foi composta, mesmo o moderno com as suas “dissonâncias”.

A música clássica, se tem algo a distingue, é consistir numa sequência de notas com ritmo como as outras, mas também harmonia e melodia: as notas sucedem-se como se reflectindo o funcionamento do próprio universo.

A música clássica pode ser desfrutada em casa, através de audição de gravações, seja pelos métodos tradicionais de disco, CD, ou mesmo por streaming, usando simples aparelhos ou sofisticadas e dispendiosas aparelhagens. Mas nem mesmo estas substituem a audição ao vivo de um agrupamento reduzido ou uma orquestra com maestro.

É por isso mesmo que as cidades que pretendem afirmar-se culturalmente não podem prescindir de terem auditórios capazes mas, fundamentalmente, de terem orquestras residentes que possam apresentar com continuidade e qualidade repertórios variados de música clássica. Em Portugal não existem muitas cidades, para além de Lisboa e Porto, sempre elas, que possam afirmar ter essa capacidade. Coimbra é uma delas. Que assim continue, para que também os apreciadores de música clássica tenham a possibilidade de usufruir da oferta artística que preferem.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 22 de Junho de 2026 

sábado, 20 de junho de 2026

UM DIA NA VIDA

 

O título desta crónica é uma tradução literal de uma das canções mais emblemáticas dos Beatles, que fecha o também notável disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band publicado em 1967: “A DAY IN THE LIFE”. Esta canção, por muitos considerada a obra-prima absoluta dos Fab Four, torna-se ainda mais impressionante vista com os olhos da actualidade, e não apenas do ponto de vista musical. Ao olhar friamente para a notícia da morte de Tara Browne, herdeiro da Guiness, num desastre automóvel, misturando essa tragédia com factos banais do dia-a-dia, parece criticar-se o nosso mundo de hoje, em que notícias de diversas importâncias e significados se confundem e se sucedem a um ritmo avassalador. O resultado é uma visão do mundo fragmentada e pessimista, muitas vezes mesmo catastrofista.

Tendo até hoje vivido 26.267 dias, muitos deles acabaram por ser apenas mais um dia na minha vida que hoje completa 72 anos. Apesar das notícias de personagens que ainda hoje procuram beber a água da “fonte da juventude”, a vida pressupõe a morte que para todos nós virá, mais cedo ou mais tarde. Entre aqueles dias de vida, alguns houve em que a morte descaradamente rondou bem perto. Em dois deles, chegou a fazer parar o coração, obrigado a bater de novo pelos médicos numa dessas vezes, mas acordado de novo de forma inexplicável aos quinze anos quando a consciência já via de cima o corpo inerte rodeado da família em aflição extrema. Mas bem perto andou também a morte quando foi possível fazer regressar à vida um afogado, através da respiração boca-a-boca e compressões torácicas, mesmo sem nenhum curso de primeiros socorros.

Todos nós descendemos do “Homo sapiens” surgido há cerca de trezentos mil anos, o que é praticamente um instante quando a vida surgiu na Terra há uns quatro mil milhões de anos. O planeta onde vivemos pertence ao sistema solar que por sua vez é uma parte minúscula da galáxia chamada Via Láctea que tem centenas de milhares de milhões de estrelas. Já a Via Láctea é apenas uma das mais de um milhão de milhões de galáxias existentes no Universo observável, que não fazemos a mínima ideia do que é, onde começou e onde acaba.

Tudo isto para dizer que verdadeiramente importante é perceber qual o nosso lugar na linha da vida e no espaço que ocupamos transitoriamente, isto é, o relacionamento com “o outro” e o respeito pelo planeta onde vivemos que devemos conservar para as gerações vindouras. Ao Pai e à Mãe que tive a sorte de ter devo tudo o que sou e estou infinitamente grato pelo carinho e paciência com que me orientaram e pela vista grossa às imensas asneiras que fiz. Mas os filhos e os netos são outra história. São a nossa “máquina do tempo” que nos continua para o futuro e nos dão a certeza de que a nossa passagem por esta vida não foi em vão.

Este é mais “um dia na vida” como cantavam os Beatles. As notícias dos jornais e das televisões continuam a trazer-nos a realidade imposta pelos disparates de tantos dos “grandes” deste mundo, lá fora e cá dentro. Mas os dias todos que já passaram nesta vida ensinaram-nos que, verdadeiramente importantes, são a consciência de que viemos ao mundo com um propósito e que somos amados e queridos por quem verdadeiramente importa.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 15 de Junho de 2026