O horror da guerra na Ucrânia continua. Não conseguindo conquistar mais território ucraniano, Putin bombardeia indiscriminadamente zonas residenciais das principais cidades, provocando morte de famílias inteiras. Para isso utiliza drones e mísseis balísticos com centenas de quilos de explosivos, para provocar o maior número possível de estragos e mortes. Pensará, assim, dobrar a vontade daquele heróico povo, mas só tem conseguido provocar mais resistência e aumentar um sentimento de repúdio ou mesmo ódio que certamente durará muito para além do fim desta guerra. Sim, que ela terá também um fim, como todas as guerras do passado.
E o passado diz-nos que Hitler invadiu a então União Soviética que resistiu durante três anos antes de forçar as forças nazis a recuar até Berlim. Desde Fevereiro de 2022, já lá vão mais de quatro anos, a Rússia de Putin não conseguiu mais do que a actual situação, contra um país muito mais pequeno, mas que se agigantou com a invasão. Não é ainda uma derrota, mas a Rússia está ainda mais longe de uma vitória. Ouvir hoje os responsáveis russos diz muito sobre o seu estado de espírito e aquilo que receiam. Medvedev confessa agora que a Rússia não pode sobreviver sem uma vitória sobre a Ucrânia, enquanto acusa as “potências ocidentais” de estarem a usar a Ucrânia para destruir a Rússia. Já o ministro Lavrov afirma que a exigência de um cessar-fogo antes das negociações é um ultimato à Rússia.
Os responsáveis russos temem verdadeiramente aquilo que já intuem ter uma grande probabilidade de acontecer, mais cedo ou mais tarde, agora que a Ucrânia encontrou forma de levar a guerra ao interior da Rússia assim mostrando ao povo russo a verdade desta guerra. O actual regime russo vai cair levando na queda os seus líderes políticos e responsáveis pela situação que sabem bem o que lhes poderá acontecer nessa altura. Os oligarcas que fizeram fortunas colossais com a corrupção moral e económica de Putin gostaram de enriquecer, mas não estão dispostos a pagar para defender quem os enriqueceu e essa mudança já está a acontecer. A possibilidade de nova implosão do regime como sucedeu em 1990 é cada vez maior, tal como a probabilidade de separação de numerosas províncias, acabando com a Rússia dos 11 fusos horários que hoje conhecemos.
Pelo lado da Ucrânia e da Europa a que já pertence “de coração”, mas a que virá a pertencerá por inteiro, há também mudanças grandes no horizonte. Se por um lado na União Europeia que não deixou cair a Ucrânia, e bem, não se vislumbra qualquer liderança efectiva, o Presidente Zelensky ganhou um prestígio e uma capacidade de negociação sem par entre os responsáveis europeus. Quando esta guerra terminar ele será a voz mais importante da Europa e um verdadeiro líder europeu.
Tudo o que Putin conseguiu com esta guerra estúpida foi ampliar a NATO, unir os países europeus, torná-los mais independentes dos EUA e aumentar de forma impressiva os gastos europeus com a defesa. Para além de voltar a colocar a Alemanha, agora democrática, no centro das políticas europeias a nível económico, mas também, ou sobretudo, militar. O seu regime merece bem o que lhe está para acontecer.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 3 de Agosto de 2026