Está ainda por descobrir qual o motivo concreto que levou Trump a decidir atacar o Irão neste momento, acompanhado por Israel. Quanto a Benjamin Netanyahu, não há qualquer dúvida sobre o fim que almeja com esta guerra: o regime clerical iraniano assume desde a sua fundação que o seu objectivo principal é acabar com o “inimigo sionista”, nem o nome Israel é sequer pronunciado pelos clérigos xiitas.
Já os EUA vão indicando diversas justificações para esta guerra, desde impedir o Irão de se tornar uma potência nuclear, acabar com um regime que assassina dezenas de milhares de cidadãos, tirar os clérigos do poder, acabar com o poder que alimenta de diversas formas redes terroristas, etc. Podemos ainda imaginar uma sede de vingança pelo que aconteceu no início do regime iraniano com dezenas de americanos mortos, desde a embaixada em Teerão em 1979/80 à explosão da embaixada em Beirute em 1983.
De notar que Trump nunca referiu a substituição do regime iraniano por uma democracia como fim a atingir, até porque da sua proposta eleitoral MAGA constava o fim da velha atitude americana de tentar impor democracias onde não as havia, porque tal correu sempre mal.
A República Islâmica do Irão substituiu a Monarquia do Xá Mohammad Reza Pahlavi, com o regresso do exílio do Aiatolá Khomeini que iniciou a Revolução Islâmica em 1979 e se tornou o primeiro Líder Supremo do país. O regime terminado em 1979 era uma monarquia absoluta ao velho estilo europeu antes da Revolução Francesa: aliava uma modernização forçada social e de costumes à velha falta de democracia e existência de repressão violenta com polícia secreta. O sonho popular de terminar com o absolutismo levou a receber Khomeini em festa tendo, no entanto, o regime sido tomado pelo poder clerical, tornando-se ainda pior do que o anterior que, se era antiquado, levou o Irão para um regime perfeitamente medieval como, por exemplo, no que respeita aos direitos das mulheres. É um facto que o Irão tem enriquecido urânio a níveis que só interessam para armamento nuclear, pelo que o seu objectivo é mesmo fabricar bombas atómicas. Por outro lado, o Irão tem constituído “proxis” ou grupos terroristas como o Hamas, o Hezbollah ou os Hutis iemenitas.
Mas os fins justificam os meios? Ainda que usando de algum cinismo, poder-se á dizer que sim, desde que quem os utilize seja o vencedor. Olhando para a História é exactamente isso que se verifica. Nem será preciso ir muito longe nessa busca. Em 1939 Churchill enfrentou imensos líderes no seu próprio país e na Europa que defendiam uma posição pacifista face à ameaça de Hitler. Mas acabou a prometer aos britânicos “sangue, suro e lágrimas” e foi isso mesmo que lhes deu. Mas venceu. E com ele a Liberdade. Já no Vietnam os americanos perderam a guerra e os meios brutais que utilizaram não serviram para nada, além de mais de 50.000 mortos. E, entre nós, os fins utilizados pelo antigo regime nas guerras em África, em vez de negociação, foram justificados? Não deve haver hoje ninguém que o defenda.
Não há dúvida de que o fim do regime iraniano, desde que substituído por um que respeite os direitos humanos e tenha uma relação sóbria com o resto do mundo merece ser alcançado. Mas será que isso é garantido com os meios que vemos?
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 9 de Março 2026
