segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Portugal 2026 – uma visão distópica

 

Vejamos onde estamos. Para nossa satisfação, Portugal atingiu em 2025 o valor base de 100 no PIB per capita em paridades de poder de compra em relação a todos os 27 países da União Europeia. Trata-se de um sucesso relativo que, apesar de tudo, nos coloca em 12º lugar junto da França na média europeia, ainda assim não acima dela como todos desejaríamos. Mas é verdade que os nossos governantes conseguiram calar os velhos do restelo que diziam não ser possível passar de algum 18º lugar equivalente a uns modestos 82% quando em 2000 já era 85%.

O salário médio anual dos portugueses atingiu os €30.000 correspondentes a um 12º lugar na União a que pertencemos, bem longe dos €23.000 do 18º lugar de quem não conseguiu o nosso sucesso. Este salário fugiu do salário mínimo que, apesar de tudo, anda já nos €21.000 , bem longe do que se verifica nos antigos países comunistas do Leste da Europa.

Estamos todos de parabéns e já podemos começar a exportar políticos de excepcional qualidade para todo mundo. Foram os nossos governantes que, quando no horizonte começaram a surgir nuvens de falta de alguns trabalhadores especializados como médicos, enfermeiros e professores, com antecedência informada encontraram soluções para quando esses problemas se concretizassem. Como exemplo, perto de hospitais na grande Lisboa ou no Algarve, foram imediatamente construídos blocos residenciais com qualidade e rendas convidativas para acolher médicos e enfermeiros. Aliás, o mesmo foi feito junto de escolas com indícios de futura falta de professores.

As nossas exportações atingiram já o valor excelente de 450 mil milhões de euros, muito acima das previsões optimistas de há alguns anos que apontavam para uns simples 132 mil milhões.

Estes resultados magníficos correspondem realmente a sucessos económicos relevantes nunca conhecidos em Portugal que, finalmente, se conseguiu livrar da má fama da baixa produtividade das nossas empresas. Para isso muito contribuíram os mais de 135 mil milhões de euros recebidos da CEE e UE desde 1986 que, para além de ajudarem a recuperar do baixo nível de infraestruturas que até então tínhamos, deram um fortíssimo empurrão à economia real. Também o PRR foi magnificamente aproveitado na recuperação e “resiliência” da nossa economia. Ao contrário de outros países que o utilizaram para compensar os fracos investimentos públicos, o nosso foi essencialmente para a economia. Isto é, para a recuperação e preparação das empresas para os desafios de uma economia globalizada e em transformação.

Mas houve uma transformação política essencial para estes resultados. Avançou-se finalmente para a regionalização tendo-se, contudo, conseguido evitar retalhar o país como era vontade das clientelas partidárias. Criaram-se duas grandes regiões: a Região da Frente Atlântica com capital em Coimbra e a Região da Frente Ibérica com capital na Guarda. A fronteira seguiu aproximadamente a antiga e célebre E.N.2 com os acertos locais necessários. A distribuição orçamental foi fácil: 1/3 para cada uma delas e outro tanto para o Estado Central que ficou com as competências da soberania. O resultado imediato foi o fim da saída do interior para o litoral e uma autêntica revolução demográfica e económica com os resultados conhecidos.

Teria sido bom, não fora distópico

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 19 Janeiro 2026 

sábado, 17 de janeiro de 2026

BB para sempre

 

No meio da enorme confusão em que o mundo inteiro está metido, passou quase despercebida a morte de Brigitte Bardot. Para quem viveu a adolescência e a juventude nos anos 60 e 70, a BB como era conhecida por todos, era um símbolo vivo (e lindíssimo) das transformações por que a cultura e mesmo a sociedade ocidental como um todo estavam a passar naquele momento.

De rapariguinha bonita a querer surgir no mundo do cinema como acontecia e ainda hoje acontece à volta de festivais de cinema como o de Cannes, rapidamente passou a estrela cinematográfica a nível planetário. O momento crucial surgiu em 1956 com o filme de Roger Vadim “E Deus criou a Mulher” em que BB transforma o seu papel numa verdadeira libertação feminina. Bardot não fez apenas valer a sua beleza e presença naturais, mas acrescentou-lhes uma sexualidade afirmativa e desinibida, mesmo para os dias de hoje, que definiu toda uma nova era cinematográfica. A sensualidade da cena em que dança descalça em cima da mesa marcou definitivamente a cultura daqueles anos. BB fez filmes de realizadores clássicos, mas também de realizadores da “Nova Vaga” como ficaram conhecidos. Foi o caso de “Le Mepris” (O Desprezo) realizado por Jean Luc Godard em 1963 em que BB contracenou de forma notável com Michel Piccoli e Jack Palance numa adaptação do romance homónimo de Alberto Moravia.

Brigitte Bardot foi ainda intérprete de canções, por exemplo Bonnie & Clyde da autoria de Serge Gainsbourg, outro símbolo da cultura francesa dos anos 60. Foi ainda modelo para a “Marianne”, assim se tornando praticamente um património da França.

É impossível não marcar um contraponto com a atriz global americana desses anos e igualmente símbolo sexual Marilyn Monroe que, no entanto, acabou por sucumbir à fama e às pressões que acarreta, morrendo tragicamente em 1962 com 36 anos Resultado, provavelmente, de incapacidade de enfrentar uma sociedade americana de uma violência inaudita, pouco depois de cantar os parabéns ao Presidente Kennedy perante dezenas de milhões de telespectadores.

Já Brigitte Bardot teve um destino muito diferente que, aliás, ela própria se definiu. No início dos anos 70 decidiu abandonar o cinema e foi viver para a sua casa “La Madrague” à beira-mar em Saint Tropez aí se refugiando até aos seus últimos dias. Dedicou-se completamente à proteccção dos animais, tendo para isso constituído mesmo uma fundação para onde dirigiu todos os seus pertences.

A BB morreu em 28 de Dezembro de 2025 aos 91 anos, tendo sido sepultada no cemitério de Saint Tropez perante o acompanhamento emocionado da família, alguns amigos próximos e a população de Saint Tropez que lhe dedicava uma extrema afeição. O funeral foi acompanhado pelos Gipsy Kings a quem ela em vida apoiou como só ela era capaz.

Como todos os grandes artistas, a vida de Brigitte Bardot não foi isenta de críticas e contradições. Mas a verdade é que a BB ficará na nossa memória como símbolo da conjugação de beleza e libertação feminina, vivendo para sempre nos écrans do cinema.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 12 Janeiro 2026

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

UM NOVO ANO OU UM ANO NOVO

 Os portugueses começam o novo ano com uma escolha que surge no fim de um ciclo eleitoral pesado em que, em cerca de dois anos, tivemos duas eleições parlamentares, europeias, autárquicas e, agora, presidenciais. Cada uma delas transporta significados próprios e proporciona opções específicas aos eleitores.

O panorama político nacional, que resulta da escolha dos cidadãos, é hoje completamente diferente daquele a que estávamos habituados desde há muito tempo. Historicamente, um dos dois partidos, entre o PS e o PSD, era o maior sendo o outro o segundo. Actualmente isso não se verifica com o PS a ocupar o terceiro lugar, abaixo do Chega. Trata-se de uma alteração profunda, com muitas implicações mesmo a nível institucional, com a Assembleia da República incapaz de preencher lugares no Tribunal Constitucional, no Conselho de Estado e mesmo de preenchimento da Provedoria de Justiça.

A eleição do próximo Presidente da República reveste-se, assim, de uma importância acrescida dado que, embora os poderes presidenciais sejam limitados no nosso sistema político, se trata da única eleição personalizada. O próximo Presidente da República, na nova situação descrita poderá, e deverá, ser capaz de desfazer o nó político, com capacidade de decisão e independência relativamente aos partidos principais. O complexo panorama internacional de que a invasão russa da Ucrânia e a intervenção militar americana na Venezuela são exemplos, exige igualmente conhecimento e uma consciência amadurecida, para além de bom senso.

Provavelmente como acontece com a maioria dos portugueses comuns, a pré-campanha serviu para eliminar da minha escolha alguns candidatos, restando nesta altura a opção entre dois finais. A campanha servirá para afinar a escolha final, na consciência de que haverá certamente uma segunda volta entre os dois candidatos mais votados no próximo dia 18.

A pré-campanha foi muito marcada por tentativas de, mais uma vez, trazer a Justiça para a política. Felizmente, as tentativas foram rapidamente paradas pela PGR, restando a parte ética, que não criminal, das actuações dos candidatos ao longo da sua vida. E temos de convir que o conhecimento desse aspecto dos candidatos é verdadeiramente importante para uma escolha tão importante para a nossa vida colectiva futura.

Durante a pré-campanha foram também visíveis confusões entre os poderes do Presidente e as opções políticas da governação, ao contrário do que a própria Constituição define. Se os candidatos querem definir as opções sobre Saúde, Habitação, Educação, etc. que se candidatem a Primeiro-ministro! Claro que é mais fácil fazer afirmações gratuitas sobre as políticas governativas do que ser claro sobre o exercício dos poderes presidenciais, mas também isso nos dá indicações sobre as verdadeiras intenções dos candidatos.

Resta olhar para o exercício das funções presidenciais pelo Presidente que sai, Marcelo R. de Sousa. Ao contrário do que desejaria, Marcelo sai com uma taxa de aprovação apenas ligeiramente acima da de reprovação. Claro que a História exige um distanciamento temporal para uma precepção suficientemente rigorosa de uma actuação presidencial, pelo que será necessário aguardar alguns anos para se perceber qual o verdadeiro valor de Marcelo como Presidente da República.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 5 Janeiro 2025 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

UM MUNDO QUE MUDA

Este ano que acaba trouxe, quase a acabar, algo que, embora fosse de esperar, surpreendeu pela mudança radical, mas também pela clareza que trouxe à situação internacional. No que diz respeito à Europa, em particular, revelou o fim de uma situação de adormecimento que, perdoe-se-me a comparação, faz lembrar a referência de Camões a Inês de Castro nos Lusíadas mudando apenas o nome de Inês por Europa:

Estavas, linda Europa, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruto,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a Fortuna não deixa durar muito

Refiro-me à publicação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos que veio clarificar os eixos estratégicos dos EUA relativamente à sua segurança nacional, que engloba vários aspectos de que se destaca a defesa militar.

A reacção europeia a esta publicação foi de grande surpresa, mas não devia. A administração americana há algum tempo que vinha a mostrar-se desagradada com a falta de empenho dos países europeus no financiamento da aliança de defesa a que pertencem, a NATO. Faço notar que, na nossa campanha presidencial, surgiram candidatos a defender a saída de Portugal da NATO, argumentando que é mesmo um ditame constitucional. Na realidade, os países europeus, com a notória excepção da Polónia, “et pour cause”, habituaram-se há muito tempo, a confiar no chapéu americano acreditando que essa situação se manteria indefinidamente. Mas o mundo mudou, e não foi apenas pela eleição de Donald Trump. A crescente influência da China acompanhando o seu crescimento económico, mas também um investimento gigantesco na política militar, mormente nos modernos equipamentos, está a alterar todo o equilíbrio mundial. A sua penetração em inúmeros países, quer em África, quer nas Américas Central e do Sul, para não falar na Ásia e no Ártico, faz-se de um modo muito silencioso, mas eficaz na prossecução dos objectivos de criação de influência.

Deve-se notar que a nova estratégia americana não abandona a segurança transatlântica, mas exige responsabilidade à Europa e coloca as alterações mundiais num novo e importante plano. A guerra na Ucrânia surge neste contexto, chamando a Europa às suas responsabilidades num conflito que se desenrola no velho continente. Os europeus não podem mais manifestar solidariedade apenas por palavras, contando com os americanos para a parte difícil: armar a Ucrânia e pagar as despesas da guerra.

A política imperialista de Putin não surgiu do nada, antes tem antecedentes históricos profundos com o antigo império russo e a ex-União Soviética a demonstrá-lo. Face à História é mesmo fácil verificar as razões intrínsecas ligadas aos sentimentos profundos russos que vão para lá de quaisquer razões político-ideológicas.

Após as dezenas de anos de paz e bem-estar económico que se seguiram ao fim da Segunda Grande Guerra, a União Europeia enfrenta novos desafios que exigem protagonistas sólidos e, certamente, uma alteração profunda no seu funcionamento interno. Já não se trata de regular o tamanho da fruta ou mesmo o tipo de motores dos automóveis. O que está em causa é demasiado sério e é o futuro colectivo de todos nós nos tempos mais próximos, a começar no ano que agora começa.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em  29 Dezembro 2025