A guerra de invasão da Rússia à Ucrânia, associada à nova política norte-americana decorrente da eleição de Donald Trump para presidente veio alterar profundamente as relações entre os diversos blocos políticos, económicos e militares.
Recordando a História, a Rússia começou a sua invasão da Ucrânia em 2014, através da ocupação de territórios de forma encapotada, incluindo a Crimeia, todos nos lembramos dos “homenzinhos verdes”. Desta forma Putin começou por atirar para o caixote do lixo todos os acordos internacionais estabelecidos após o fim da URSS, que aliás o presidente russo classifica como a pior catástrofe do sec. XX. Dado que a comunidade internacional só reagiu com palavras, em Fevereiro de 2022 Putin iniciou a guerra na Ucrânia que prossegue até hoje. De assinalar ainda que Putin exerce a presidência russa desde 2000 (com uma intermitência fingida entre 2008 e 2012), podendo ocupar o lugar até 2036 por ter alterado a Constituição por referendo, algo que é característico dos ditadores.
Desde o início da presente invasão que a Ucrânia tem sido ajudada militarmente pelo Ocidente, incluindo os EUA. Não se conhecendo exactamente o número de vítimas desta guerra, entre militares e civis, é certamente de largas centenas de milhares de pessoas. Com a eleição de Donald Trump tornou-se evidente que os EUA se aproximaram das posições russas, chamando Zelensky de ditador, acusando a Ucrânia de ter iniciado a guerra, etc. Como Trump iniciou ainda uma campanha de intimidação dos vizinhos geográficos (Canadá. Panamá, Groenlândia) não parece difícil perceber que o presidente americano tenha uma generosa compreensão pelas relações russas com os seus vizinhos.
No meio disto tudo está a Europa separada dos EUA por um oceano, mas encostada territorialmente à Rússia. Desde a II Grande Guerra a Europa habituou-se a beneficiar da protecção militar proporcionada pelos EUA através da NATO. Pôde assim construir um Estado Social generalizado sem antecedentes na História. Contudo, as condições alteraram-se radicalmente, nem havendo a certeza de que os EUA cumprirão o Art. 5º da NATO em caso de ataque a Estado membro. A Europa, nomeadamente a União Europeia, acordou e tenta agora recuperar o tempo perdido e colocar-se em posição de se poder defender e apoiar qualquer país atacado. Em pano de fundo ainda a guerra na Ucrânia que é Europa do ponto de vista geográfico e pretende sê-lo política e economicamente. Todos os países europeus com fronteira com a Federação Russa sentem que estão em perigo e que o resultado da guerra da Ucrânia poderá colocar a sua soberania em risco.
Em consequência a Europa
prepara-se para gastar uma enorme quantidade de dinheiro em despesas militares,
no que chamou “Plano Rearmar a Europa/Prontidão 2030” que visa permitir que
os países da UE invistam na melhoria das suas capacidades de defesa. No total,
o plano estima uma despesa total de 800 mil milhões de euros, incluindo a
concessão de empréstimos até 150 mil milhões de euros em compras de produtos
militares em conjunto. A Comissão propõe ainda que os países
possam usar cada ano até 1,5% do PIB com a defesa sem serem penalizados por
quaisquer défices de orçamentos excessivos.
Que ninguém imagine que todo este esforço financeiro se fará sem sacrifícios. Os recursos financeiros a alocar em despesas militares virão obrigatoriamente de algum lado que acabará sempre por ser os nossos impostos. Começará para já por colocar a despesa militar em 2% do PIB. Como actualmente gastamos cerca de 1,3%, o aumento será de quase 2.000 milhões de Euros. Mas será só o princípio, dado que rapidamente se exigirá muito mais. Como vamos ter eleições em breve, será de exigir que os partidos se definam claramente quanto a este aspecto, designadamente o PS e o PSD, já que dos partidos dos extremos do leque partidário só podemos esperar demagogia e populismo. Mas, por favor, que não nos mintam!
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 31 Março 2025