quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Portugal a arder

A dimensão dos fogos que neste Verão têm atingido Portugal, mas essencialmente as Beiras, não permite que se passe ao lado do assunto. Não do ponto de vista do especialista, que não sou, mas de um simples cidadão beirão que pessoalmente se viu envolvido neste problema, em vários aspectos.

A questão dos fogos tem, desde logo, duas componentes e uma envolvente: é evidente que as novas características climatéricas do nosso país criam um novo contexto que condiciona a prevenção e a resposta a dar aos incêndios.

As altas temperaturas durante muitos dias seguidos, bem como os ventos fortes que as acompanham facilitam a rápida e poderosa propagação dos incêndios. Ainda que não aconteçam muitas ignições como tem acontecido, as que acontecem ganham rapidamente dimensões de difícil combate. Principalmente quando esse combate não se faz logo no início, com muita força. O que exigiria uma dispersão de meios pelo território, previamente ao surgimento das ignições, para além da utilização dos meios de detecção que a evolução tecnológica permite. Esta uma prevenção imediata que exige, para além da capacidade de detecção tecnológica e humana, meios de ataque robustos de que os meios aéreos são uma parcela decisiva. As previsões meteorológicas que hoje são muito precisas devem ser tidas permanentemente em conta, sem quaisquer facilitismos. Por um motivo: nesta, como noutras matérias, o que pode correr mal, vai ser certamente correr mal. É por esta simples razão não solicitar todo o apoio de meios aéreos que se possa ter logo no início dos fogos é uma falha política que, ainda que baseada em opiniões “técnicas”, não é aceitável. Tal como é incompreensível que, ao fim de todos estes anos, o país não disponha de meios aéreos próprios de ataque a incêndios, incluindo pesados.

Não vale a pena imaginar que o abandono do nosso interior vai ser revertido. Não vai, e isso tem de ser um dado do problema. Já a proibição absoluta de construções fora dos núcleos urbanos das aldeias e vilas deve ser tomada com urgência e vertida para os PDM’s. As autarquias têm de ser responsabilizadas pela existência de espécies vegetais propícias à propagação de incêndios nas proximidades das edificações. A eliminação da continuidade vegetal em quilómetros de extensão tem de ser realizada e garantida no tempo.

A estratégia do ataque aos incêndios rurais e o desenho do respectivo dispositivo tem de ter uma componente de decisão final política, para além da técnica. À semelhança do que acontece com a Defesa Nacional em que os técnicos aconselham, mas as decisões finais são sempre políticas. Nem se compreenderia que fosse ao contrário, por que razão nesta área é assim? A decisão de pedir ajuda à União Europeia é política e a simples prudência deveria aconselhar a tomá-la assim que a propagação das chamas se revelou difícil.

O Governo reconheceu ter havido “descoordenações momentâneas”, mas todos tivemos oportunidade de as ver em directo nas televisões quando bombeiros junto dos locais eram impedidos à distância de agir de imediato face a situações fáceis de resolver. Situações que minutos depois se tornavam incontroláveis.

Todos percebemos que, depois dos mais de cem mortos de 2017, as prioridades foram alteradas, e bem se compreende, para defesa prioritária das casas e dos seus habitantes. Mas tal não pode ser conseguido à custa de incêndios totalmente descontrolados, ficando os bombeiros limitados a esperar com as mangueiras nas estradas e junto das casas que as chamas aí cheguem. Aldeias e mais aldeias ficam assim expostas a que frentes de dezenas de quilómetros de fogo progridam e as coloquem em perigo, apenas para serem salvas “in extremis” pelos próprios moradores ou pelos bombeiros, sempre valorosos e prontos a ajudar o próximo.

Perante o que vemos, ouvimos e lemos, de algo podemos estar certos: com a actual organização da Protecção Civil, dos Bombeiros e da estratégia relativa aos fogos florestais não conseguiremos melhores resultados.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 25 de Agosto de 2025 

 

segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Anjos, ou nem assim tanto

 

Não há Verão que não tenha a sua parte de “silly season”. Mesmo no “Verão quente” de 1975, passam agora 50 anos, houve cenas que apelavam mais para o disparate inconsequente do que para a seriedade do que se passava no país. Já neste Verão de 2025 temos o julgamento do processo que opõe a dupla de cantores constituída pelos irmãos Rosado sob a designação “Anjos” e a humorista Joana Marques.

Quando soube da queixa nem queria acreditar, julgando que se tratava de mais uma das formas de publicidade que para aí abundam, com o objectivo de obter os tais “cinco minutos de fama” que garantissem mais casas cheias ao grupo. Como a minha ignorância sobre certas formas de música é muito grande, pensei que a banda “Anjos” até fosse constituída por dois jovens, que é o habitual entre bandas de irmãos. Mas não, os irmãos Rosado são dois homens maduros que assim ganham a vida, e fazem eles bem, que a dita vida está difícil para toda a gente.

Contudo, a força das notícias sobre o tal processo judicial foi de tal impacto que fui fazer o que julgo ter feito a maioria dos portugueses: procurei informar-me sobre o caso. E ainda mais espantado fiquei. Os “Anjos” processavam a humorista por causa de um vídeo por ela publicado em que fazia o que lhe é habitual: expunha o ridículo de algo. No caso, uma actuação obviamente falhada do duo cantor na interpretação do hino nacional antes de uma prova desportiva de motos, no Algarve. Dois anos antes da causa em Tribunal.

Dois motivos se me apresentaram para justificar a ida a Tribunal por causa de tal matéria. Desde logo, algo muito próximo de litigância de má-fé, utilizando os “Anjos” a Justiça com o objectivo de prejudicar a humorista, daí tentando retirar lucros financeiros pedindo uma indemnização de mais de um milhão de euros por supostos prejuízos sofridos. Claro que a banda canora tem toda a liberdade para se queixar na justiça, mas não me parece que o Tribunal vá nesta conversa, por mais queixas de acne que apresentem. É apenas ridículo.

Mas há outra possível razão e esta será mais séria. É claramente perceptível na sociedade portuguesa uma intolerância crescente. Nota-se isso no comportamento de demasiadas pessoas, seja na rua, em restaurantes ou na circulação automóvel. À mínima situação que normalmente provocaria apenas alguma manifestação de desagrado, salta imediatamente uma violência verbal desmedida, quando não mesmo física. Claro que, nas redes sociais, isso é mesmo o dia-a-dia provocando um acantonamento social que, cada vez mais, isola as pessoas nos seus grupos políticos, sociais ou familiares, na prática impedindo qualquer debate ou mesmo conversa séria.

A intolerância à crítica é uma das consequências deste comportamento que se generaliza na nossa sociedade. Chega mesmo a raiar a vontade de censurar toda e qualquer manifestação de opinião própria desfavorável, pior ainda se essa crítica se revestir de humor. Devemos reconhecer que Portugal viveu durante muito tempo num ambiente fechado, desfavorável à liberdade de expressão. Durante uns três séculos a Inquisição zelou para que isso fosse habituando os portugueses a encontrar processos escondidos para encontrar caminhos diferentes da norma oficial. Na primeira metade do sec. XX o Estado Novo também não foi capaz de encontrar outra maneira de impor a sua “verdade” que não pela censura oficial.

Nos últimos 50 anos todos fomos aprendendo a viver democraticamente, aceitando opiniões diversas e a viver pacificamente com a crítica. De vez em quando os humoristas lá tinham algum percalço no caminho, mas apenas quando se metiam com alguma instituição mais fechada. Nunca por criticarem as actuações de artistas, fossem músicos, pintores ou escritores. Esta situação que agora se nos depara é nova e, claramente, tem como objectivo coartar a liberdade de expressão, no caso concreto através do humor. Só podemos esperar que o Tribunal assim entenda porque os portugueses não querem voltar atrás.

 Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 11 de Agosto de 2025

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Coimbra no seu melhor: a Bluepharma

 

Nos anos 90 costumava estar estacionado no Aeródromo de Coimbra um pequeno avião monomotor. Era o meio de transporte usado pelo administrador alemão da unidade de produção de Aspirina da farmacêutica Bayer situada em S. Martinho do Bispo. Com a família a residir em Cascais, ele próprio pilotava o avião para vir trabalhar em Coimbra e no fim de semana voar para casa, de forma mais rápida e segura.

Por volta da mudança de século a Bayer decidiu alterar a sua política fabril e, em consequência, fechar a pequena fábrica em Coimbra. Pareceria que a parca indústria farmacêutica de Coimbra iria sofrer um rude golpe. Mas, surpreendentemente, o arrojo, a capacidade de iniciativa e de empreendedorismo de alguns jovens alterou o rumo da História. Paulo Barradas agregou a si Sérgio Simões, Isolina Mesquita vinda da Bayer e Miguel Silvestre para propor à Bayer a compra da fábrica, mantendo os seus funcionários. Assim nasceu a Bluepharma que iniciou as suas actividades em 2001, com 58 colaboradores. Em contrapartida, a Bayer comprometia-se a adquirir a produção das Aspirinas aqui produzidas durante sete anos, garantindo assim um período de adaptação. Contudo, a visão empreendedora destes gestores levou a que menos de três anos depois a Bluepharma já não estivesse dependente dessa garantia de compra dos seus produtos. E, a partir daí, o crescimento da Bluepharma é algo de impressionante, mas que na realidade só surpreende quem não conhecer os seus gestores. A fábrica original cresceu, em 2023 foi inaugurada uma nova unidade industrial em Eiras, que representou um investimento de trinta milhões de euros, para produção de formas sólidas orais potentes, tendo em vista essencialmente o tratamento de cancros. A Bluepharma prepara ainda um novo investimento que será o “Coimbra Life Sciences Park” a instalar em Cernache onde, em tempos existiu a cerâmica Poceram, tendo já garantido boa parte do capital a investir, num total de mais de cem milhões de euros.

Tudo isto em pouco mais de vinte anos. O número de trabalhadores passou dos 58 iniciais para mais de 700. Mais impressionante, destes, 67% têm graus de formação superior (licenciatura, mestrado ou doutoramento). A Bluepharma produz medicamentos próprios e para terceiros, procede à investigação, desenvolvimento e registo de novos medicamentos e ainda fabrica e comercializa medicamentos genéricos. Nesta última área, uma função importante é o desenvolvimento do processo produtivo dos genéricos já que, se a fórmula da molécula se torna pública, a maneira de obter o medicamento comercializável com segurança não o é. A Bluepharma é hoje um grupo farmacêutico com vinte empresas que já está na Europa, em África e nos EUA. Em 2022 exportou 89% da sua produção para mais de 40 países.

Há ainda um aspecto deste sucesso empresarial que não tem sido devidamente relevado. Na realidade, Coimbra já teve uma área industrial importante, nomeadamente nas áreas da alimentação, cerveja e cerâmica. Tudo isso desapareceu, levado pelas circunstâncias históricas. Nos últimos anos tem-se desenvolvido em Coimbra toda uma área extremamente sofisticada ligada ao software, com várias empresas a marcar cartas a nível mesmo mundial. Mas a desmaterialização da economia tem um aspecto socialmente fragilizante. Nós somos feitos de matéria, precisamos de nos alimentar, de vestir, de nos deslocarmos, de ter onde nos abrigar e de nos tratar quando doentes. Tudo isto precisa de produção industrial e mesmo de agricultura. A informatização é cada vez mais necessária para nos facilitar a vida e até ajudar à produção de bens. Mas não nos substitui nem faz desaparecer a necessidade de produção industrial.

A Bluepharma é a prova de que Coimbra tem capacidade para ultrapassar dificuldades circunstanciais, mesmo económicas e políticas e de se reinventar. A junção da ambição do empreendedorismo com o conhecimento técnico e científico e total independência dos poderes políticos pode ser a chave para o sucesso industrial, mesmo num tempo em que os serviços parecem ser o único factor económico de sucesso. 

 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 4 de Agosto de 2025