A dimensão dos fogos que neste Verão têm atingido Portugal, mas essencialmente as Beiras, não permite que se passe ao lado do assunto. Não do ponto de vista do especialista, que não sou, mas de um simples cidadão beirão que pessoalmente se viu envolvido neste problema, em vários aspectos.
A questão dos fogos tem, desde logo, duas componentes e uma envolvente: é evidente que as novas características climatéricas do nosso país criam um novo contexto que condiciona a prevenção e a resposta a dar aos incêndios.
As altas temperaturas durante muitos dias seguidos, bem como os ventos fortes que as acompanham facilitam a rápida e poderosa propagação dos incêndios. Ainda que não aconteçam muitas ignições como tem acontecido, as que acontecem ganham rapidamente dimensões de difícil combate. Principalmente quando esse combate não se faz logo no início, com muita força. O que exigiria uma dispersão de meios pelo território, previamente ao surgimento das ignições, para além da utilização dos meios de detecção que a evolução tecnológica permite. Esta uma prevenção imediata que exige, para além da capacidade de detecção tecnológica e humana, meios de ataque robustos de que os meios aéreos são uma parcela decisiva. As previsões meteorológicas que hoje são muito precisas devem ser tidas permanentemente em conta, sem quaisquer facilitismos. Por um motivo: nesta, como noutras matérias, o que pode correr mal, vai ser certamente correr mal. É por esta simples razão não solicitar todo o apoio de meios aéreos que se possa ter logo no início dos fogos é uma falha política que, ainda que baseada em opiniões “técnicas”, não é aceitável. Tal como é incompreensível que, ao fim de todos estes anos, o país não disponha de meios aéreos próprios de ataque a incêndios, incluindo pesados.
Não vale a pena imaginar que o abandono do nosso interior vai ser revertido. Não vai, e isso tem de ser um dado do problema. Já a proibição absoluta de construções fora dos núcleos urbanos das aldeias e vilas deve ser tomada com urgência e vertida para os PDM’s. As autarquias têm de ser responsabilizadas pela existência de espécies vegetais propícias à propagação de incêndios nas proximidades das edificações. A eliminação da continuidade vegetal em quilómetros de extensão tem de ser realizada e garantida no tempo.
A estratégia do ataque aos incêndios rurais e o desenho do respectivo dispositivo tem de ter uma componente de decisão final política, para além da técnica. À semelhança do que acontece com a Defesa Nacional em que os técnicos aconselham, mas as decisões finais são sempre políticas. Nem se compreenderia que fosse ao contrário, por que razão nesta área é assim? A decisão de pedir ajuda à União Europeia é política e a simples prudência deveria aconselhar a tomá-la assim que a propagação das chamas se revelou difícil.
O Governo reconheceu ter havido “descoordenações momentâneas”, mas todos tivemos oportunidade de as ver em directo nas televisões quando bombeiros junto dos locais eram impedidos à distância de agir de imediato face a situações fáceis de resolver. Situações que minutos depois se tornavam incontroláveis.
Todos percebemos que, depois dos mais de cem mortos de 2017, as prioridades foram alteradas, e bem se compreende, para defesa prioritária das casas e dos seus habitantes. Mas tal não pode ser conseguido à custa de incêndios totalmente descontrolados, ficando os bombeiros limitados a esperar com as mangueiras nas estradas e junto das casas que as chamas aí cheguem. Aldeias e mais aldeias ficam assim expostas a que frentes de dezenas de quilómetros de fogo progridam e as coloquem em perigo, apenas para serem salvas “in extremis” pelos próprios moradores ou pelos bombeiros, sempre valorosos e prontos a ajudar o próximo.
Perante o que vemos, ouvimos e lemos, de algo podemos estar certos: com a actual organização da Protecção Civil, dos Bombeiros e da estratégia relativa aos fogos florestais não conseguiremos melhores resultados.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 25 de Agosto de 2025