segunda-feira, 4 de outubro de 2010

REPÚBLICA


Os acontecimentos que de alguma forma alteraram o rumo da nossa História devem ser recordados ou mesmo comemorados quando essa alteração se veio a revelar benéfica. Faz amanhã cem anos que foi implantada a República em Portugal. Data importante, porque marcou uma viragem na nossa História.
A Monarquia que, de tantos séculos de existência se havia entranhado na História de Portugal tinha claramente envelhecido no início do Séc-XX, do que é prova toda a História do Séc- XIX português. Curiosamente, foi o Ultimato inglês que veio acabar por cortar laços históricos de relação íntima entre o povo urbano e a Coroa, laços esses já enfraquecidos desde a ida da Coroa para o Brasil e da revolução Liberal, cerca de cem anos antes.
Hoje em dia, um século após 1910, a comemoração da República já tem pouco a ver com o fim da Monarquia e sim com o que aconteceu desde então.
Cabe aqui dizer que sou republicano, mas que não renego a nossa História e não esqueço os mais de setecentos anos em que Portugal foi uma Monarquia com muitos momentos altos de afirmação ao mais alto nível mundial.
Também não partilho da ideia de que a Democracia e a Liberdade são exclusivos da República. As actuais Monarquias constitucionais actualmente existentes por essa Europa fora são a prova de que os valores democráticos e o desenvolvimento económico e social são compatíveis com a manutenção de Monarquias. Há apenas uma pequena diferença que me faz ser republicano e que é a não aceitação de que alguém possa exercer cargos públicos, ainda que de simples representação, apenas por direito de nascimento. É o princípio da Igualdade. Como se costuma dizer, a diferença poderá parecer pequena, mas viva a diferença!
A comemoração da República é assim, para mim, um acto de cidadania porque significa a possibilidade de todos serem iguais perante a Lei, residindo na vontade do Povo a escolha de quem o governa e representa, aos diversos níveis.
Não é, definitivamente, uma comemoração da primeira República que de facto, pouco tem para ser comemorada. Na realidade, à chamada “ditadura de João Franco” dos últimos anos da Monarquia, sucedeu-se a “ditadura do Partido Republicano Português” e uma sucessão de oito presidentes e 45 governos que tiveram o fim que se sabe escassos dezasseis anos depois com a ditadura militar instaurada por Gomes da Costa que abriu a porta ao Estado Novo. A violência que tomou conta das ruas durante a primeira República principalmente em Lisboa, com os seus pontos máximos nas lutas de 1915 e assassinato do presidente Sidónio Pais, bem como a incapacidade de os partidos ultrapassarem as lutas entre si continuam como exemplo acabado do que não se deve fazer.
Felizmente, temos hoje um quadro completamente diferente. Portugal é um país democrático bem integrado em comunidades internacionais. A União Europeia constitui-se hoje na instância que nos chama à pedra quando caímos nos velhos hábitos de falta de controlo nas despesas públicas e nos afastamos do caminho do desenvolvimento económico, como infelizmente acontece hoje. Está assim afastada a hipótese de alteração de regime por via de “putsh” militar sempre presente há cem anos, vindo de fora e sem grandes possibilidades de contestação a obrigação de regresso aos equilíbrios financeiros e às boas contas.
Os problemas pontuais como a crise que vivemos hoje não nos podem fazer esquecer que, apesar de tudo, Portugal está integrado no grupo dos países mais desenvolvidos, tendo níveis de desenvolvimento sociais e económicos quase impensáveis há cem anos. Razões para não perdermos a esperança e comemorarmos a República que temos.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 4 de Outubro de 2010

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