segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A MALDIÇÃO DA ORFANDADE POLÍTICA


Passaram há poucos dias 30 anos sobre a morte de Sá Carneiro. Muita gente falou sobre a sua obra, houve algumas cerimónias, publicaram-se livros e até se fala num novo processo de inquérito ao desastre de Camarate. Já tanto foi dito sobre a sua personalidade e vida, que não me vou debruçar sobre isso. O seu súbito desaparecimento teve no entanto uma consequência que é poucas vezes referida e que teve grandes implicações na vida nacional. Foi a primeira de uma série de orfandades do PSD (tantas, que mais parecem uma maldição ou uma autêntica síndrome).

De facto, após o 4 de Dezembro de 1980, o Governo da AD continuou em funções, com Pinto Balsemão à frente, por escolha interna do PSD. Independentemente das muitas qualidades de Balsemão, o Governo entrou quase imediatamente em desagregação e pouco mais tempo durou. No interior do PSD, e mesmo no Governo, outras individualidades acharam-se com mais qualidades e capacidades do que o Primeiro-Ministro e fizeram-lhe a vida negra, entregando rapidamente o poder ao PS. Começou aqui a série de orfandades do PSD.

Aos dez anos de governação de Cavaco Silva sucedeu-se o seu famoso abandono em 1995, e ao excelente e empenhado Fernando Nogueira coube o ingrato papel de levar a eleições o cavaquismo-sem-Cavaco, com os resultados que conhecemos. O PSD estava obviamente órfão de novo, com a agravante de estar órfão de alguém vivo e activo na sociedade, mas fora do PSD.

Ao pântano de Guterres, seguiu-se Durão Barroso que logo abandonou o Governo de Portugal para ir presidir à Comissão Europeia O PSD de então ficou outra vez órfão, decidindo entregar o lugar de Primeiro-Ministro a Santana Lopes, de forma orgânica e sem sanção eleitoral. Santana Lopes fez o que pôde naquelas condições. Rapidamente se percebeu que numa situação de aflição económica como a que se vivia, faltava àquele Governo a força que vem da legitimidade democrática das eleições para poder fazer as reformas que se impunham e logo o poder foi de novo para o PS. Até hoje, como bem se sabe. Desde aí, o partido continuou órfão, procurando sistemática e sucessivamente uma liderança que o libertasse dessa condição.

Parece um destino ao qual o PSD não consegue fugir: os seus líderes carismáticos saem dos lugares que ocuparam legitimamente por via eleitoral, sendo o poder entregue a quem previamente tinham escolhido para trabalharem com eles. A consequência desta passagem interna do poder foi sempre a mesma: nas eleições seguintes, lá volta o PS. De facto, o eleitorado tem uma intuição que escapa muitas vezes à teoria política. As eleições constituem cada vez mais uma escolha do líder e não das equipas, embora formalmente isso devesse ser assim apenas para o cargo uninominal de Presidente da República. Quando a transição de líderes não provoca eleições antecipadas, isto é, não devolve a voz ao eleitorado, os sucessores designados tendem a ter o seu destino marcado num futuro bem próximo, pese embora a sua grande qualidade política e capacidade de trabalho.

Resta o triste consolo de ver que o PSD não está sozinho neste hábito. Veja-se o que sucedeu a Gordon Brown após ter substituído Tony Blair à frente do Governo britânico: tendo aceitado o poder político sem eleições, Gordon Brown liderou os Trabalhistas para a derrota eleitoral.

A História ensina-nos muitas coisas. Aqui aprende-se que as orfandades que resultam de decisões unipessoais não dão bom resultado, e aprende-se ainda que o povo não perdoa aos que aceitam ficar “por nomeação”.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra de 13 de Dezembro de 2010

3 comentários:

anónimo alcoólico disse...

Já tenho discutido esta matéria das orfandades... Há abandonos e abandonos e o de Durão Barroso custa-me que seja tipificado como uma "traição" ao País (se o foi ao PSD, é um problema interno do partido, que aos cidadãos sem militância não diz respeito). Quem de bom senso pode achar que um Primeiro-Ministro de um pequeno, pobre e periférico país europeu recusaria a presidência da União? Quantos portugueses acreditavam que um português chegaria a esse elevado cargo? A nossa comunicação social não endeusaria um Mário Soares ou um Jorge Sampaio se lá tivessem chegado? Então, esse não é uma abandono, uma fuga, uma traição, é um motivo de orgulho para todos nós! Pena foi o que se seguiu, mas a culpa foi mais dos que cá ficaram do que de quem partiu!

JOÃO PAULO CRAVEIRO disse...

O que escrevi sobre Durão Barroso foi:Ao pântano de Guterres, seguiu-se Durão Barroso que logo abandonou o Governo de Portugal para ir presidir à Comissão Europeia.
Escrevi abandonou e não traiu. É diferente. Que abandonou, abandonou, isso é inteiramente pacífico.

anónimo alcoólico disse...

Sobre esta questão da orfandade política, há um caso que me parece não dever ser confundido com os demais. Não considero que a ida do Dr. Durão Barroso seja compaginável com as expressões "abandono" ou "traição". Que Primeiro-Ministro de um país pequeno, pobre e periférico como o nosso recusaria a Presidência da Comissão Europeia? Quantos portugueses imaginariam que um português chegaria a esse prestigiante lugar? A nossa parcelar comunicação social endeusaria figuras como Mário Soares ou Jorge Sampaio se lá tivessem chegado... Pena foi o que se passou com a sua sucessão, mais por culpa dos que cá ficaram do que por responsabilidade de quem partia para tão elevado destino!