segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Obras públicas

Este é um assunto que me é muito caro e ao qual já dediquei algumas linhas nestas crónicas, tentando divulgar alguns aspectos fundamentais.
De uma forma que direi quase sistemática, as obras públicas são fonte de notícias pelas mais diversas razões, normalmente bem desagradáveis para os cidadãos.
Uma obra pública é, por definição, uma obra levada a cabo por uma entidade pública, que será utilizada pela comunidade e que é construída com dinheiros públicos, isto é, provenientes dos impostos dos cidadãos. Só por isso, deveria distinguir-se das obras levadas a cabo por particulares, sejam pessoas singulares ou empresas, que aí aplicam os seus recursos próprios. Isto é, quem é responsável pelas obras públicas tem, ou deveria ter, uma grande preocupação com a utilização das verbas necessárias, que não são suas e sim de todos, o que exige um muito maior cuidado na sua utilização.
De facto, verificam-se diferenças entre umas e outras. No entanto, o que distingue, entre nós, obras públicas de obras particulares, é que estas raramente custam mais do que previsto e terminam nos prazos acordados, enquanto aquelas muito raramente atingem esses objectivos.
Tudo tem início na decisão de fazer a obra pública e na definição do programa. Os critérios de decisão dependem frequentemente de factores não mensuráveis, de carácter político ou mesmo pessoal, que se sobrepõem à efectiva necessidade daquele investimento e da capacidade financeira para o fazer, para não falar da sua sustentabilidade económica ao longo do período de vida útil.

A seguir vêm os projectos e residirá aí a maior falha das obras públicas. Os donos de obra (decisores políticos, neste caso) têm normalmente uma falta de experiência aflitiva relativamente a estes assuntos. Gostam de chamar arquitectos de renome, esperando que parte do seu prestígio lhes passe para eles por osmose. Ficam, na maior parte dos casos, sem capacidade crítica sobre os projectos, colocando-se nas mãos dos projectistas. Depois, querem fazer ou lançar as obras nos seus mandatos, apressando a fase de estudo e projecto, que é o momento em que se devem tomar as grandes opções e onde é preciso tempo para definir a obra de forma completa. Nesta fase, é frequente atropelar-se tudo, fugindo a uma boa coordenação dos diversos elementos de projecto (arquitectura e especialidades), caindo-se mesmo no erro fatal de não mandar fazer a revisão dos projectos a uma entidade independente antes do lançamento do concurso para a obra. Tudo isto é crucial para retirar espaço a erros de projecto e imprevistos durante a obra.

No momento da adjudicação, o mais fácil é entregar a obra à proposta de preço mais baixo. Mas, como diz o povo, o que é barato sai caro e as propostas muito baixas escondem normalmente truques que levarão a que no fim da obra o preço suba muito, anulando a suposta vantagem inicial.
Depois temos a execução das obras. Dando de barato que se cumpriram as boas práticas até esse momento, o que é raríssimo suceder nas obras públicas, o empreiteiro tem todos os elementos para cumprir o contrato. Haverá sempre lugar a decisões pontuais a que o dono de obra deverá responder em tempo útil, pelo que se deverá rodear de uma equipa de acompanhamento e fiscalização, com capacidade de resposta e competências delegadas.

Nunca o dono de obra se deverá prestar a alterações durante o decorrer dos trabalhos: se o projectista as propuser, deverá responder-lhe com uma pergunta que é se trouxe o livro de cheques, porque será ele a pagá-las.
Infelizmente, todo o processo relativo a obras públicas é frequentemente um conjunto deplorável de erros evitáveis, cujas consequências surgem apenas no fim. Todos os conimbricenses sabem bem do que falo, pelo que é desnecessário referir casos concretos.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 24 de Fevereiro de 2014

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Baratas tontas


Um cidadão que se interesse pelo que acontece para tentar ter uma percepção minimamente verdadeira da realidade do país através da informação que lhe chega pelos meios de comunicação social tem muita dificuldade em consegui-lo. Não é por falta de meios. Hoje em dia, não é preciso ir procurar a informação, já que ela nos chega em catadupas pela televisão, pelos jornais e revistas e, cada vez mais, pela internet. O problema está em discernir o que é verdade e verdadeiramente importante, no meio do manancial que nos chega, por dois motivos essenciais: desde logo, pela necessidade de distinguir o importante da chamada espuma dos dias; depois, porque a informação nos chega cada vez mais filtrada pelos interesses dos mais diversos actores, sejam políticos, económicos ou apenas sociais.
Em consequência, os média saltam de assunto em assunto, tratando cada um deles com uma sofreguidão impressionante e tantas vezes confrangedora, atropelando de caminho a dignidade de pessoas, instituições e até, muitas vezes, a verdade que deveria ser o seu objectivo principal.
Para não ir muito atrás no tempo, relembro aqui alguns assuntos que dominaram por completo os media durante dias sucessivos, quase parecendo que todo o nosso futuro dependia daquilo, apenas até o novo substituir o anterior. Foi assim que se discutiram os “swaps”, dando a ideia de que toda a gente percebia mesmo aquilo. A adopção de crianças por casais homossexuais parecia a certa altura o assunto crucial da sociedade portuguesa. O Tribunal Constitucional também tem o seu lugar garantido com estrela da companhia quando é chamado a tomar alguma decisão.

Os estaleiros de Viana do Castelo, após anos e anos de quase inactividade laboral apareceram de repente como assunto dramático para a economia e política nacionais quando o governo, mal ou bem, pouco interessa para aqui, tentou encontrar uma solução para o seu futuro.

Mas isso só até os média se atirarem à magna questão das praxes universitárias, não tocando minimamente no problema, esse sim importante para o país, da qualidade de ensino, ou da falta dela, em grande número de ditas universidades. A venda de mais de oitenta quadros de Miró, por uma das empresas liquidatárias do BPN, pareceu transformar todos os portugueses em especialistas de arte, podendo até levar a crer que os museus que temos têm grande dificuldade em gerir as permanentes multidões que diariamente os vão visitar.
Provavelmente o leitor já nem se lembrará, mas aqui há umas semanas morreu o grande Eusébio. O coitado do grande jogador benfiquista nunca deve ter imaginado o entusiasmo com que os media pugnaram por depositar os seus restos no panteão nacional, tratando aliás esse cemitério como se de um templo religioso se tratasse.
O mais recente drama pungente do país é a saída do resgate, com ou sem programa cautelar, como se isso fosse uma questão ideológica e não uma decisão ponderada a tomar em consequência da situação económica e financeira no momento adequado, tendo apenas em conta os interesses do país.
Os portugueses são tratados como patetas pela maioria da comunicação social, com a televisão e os seus telejornais de uma hora e as suas estrelas apresentadoras e comentaristas à cabeça, eles sim que se comportam como baratas tontas. Será, talvez, sintoma de uma profunda alteração que se está a verificar na comunicação da informação aos cidadãos através da internet e que leva os meios tradicionais a tentar agarrar e tratar a informação como puro espectáculo, para se manterem á tona de água. Seja como for, tudo isto é muito desagradável para quem observa, ridículo para os seus actores do momento e acaba por retirar à comunicação social a credibilidade que lhe é essencial para sobreviver.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 17 de Fevereiro de 2014

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sch!!!! Ouçam a música



Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.
…..
Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!



Claudio Abbado costumava dizer que a queda da neve tinha um certo som; nada que nós portugueses não saibamos desde a infância, através do lindíssimo poema de Augusto Gil. O maestro falecido há poucas semanas admirava o silêncio das montanhas por onde desde criança gostava de passear, e que usava como elemento essencial das suas criações musicais. Não por acaso, no fim dos concertos chegava a ficar dois ou três minutos em suspense depois da última nota de Mozart ou do seu amado Bruckner se extinguir e antes de se virar para os aplausos.

 
De cada vez que dirigia uma peça, Abbado nunca a repetia, por mais vezes que a tivesse interpretado. As composições surgiam sempre diferentes, com vida própria. Quando substituiu Karajan à frente da Filarmónica de Berlim, a mesma orquestra, com os mesmos músicos, passou a ser outra completamente diferente. A sua forma de dirigir, sem imposições nem movimentos bruscos, quase que apenas com o sorriso e o olhar, fazia fluir a música de uma forma surpreendentemente subtil e aparentemente fácil, por mais complexa que fosse.
A sua maneira de interpretar a música de forma completamente diferente do que se conhecia até então, bem como uma capacidade muito própria para gerir personalidades vincadas como são os músicos em orquestras de altos níveis de exigência e excelência, marcaram vivamente a sua passagem pelas diversas orquestras que dirigiu. Os quase vinte anos em que dirigiu o La Scala da sua cidade natal, Milão, conduziram a uma mudança radical naquele teatro. Claudio Abbado fugia ao conservadorismo musical e levava as suas orquestras a interpretar obras de compositores contemporâneos como Alban Berg ou mesmo Stockhausen. Sempre virado para o futuro, deu força ao jovem maestro venezuelano Gustavo Dudamel e fundou três orquestras: a Orquestra Mozart de Bolonha, a Orquestra Juvenil da união Europeia e a Orquestra Juvenil Gustav Mahler.
Como já é tradição quando morre um seu Maestro, o Teatro la Scala despediu-se de Claudio Abbado de uma forma tocante: de portas abertas, mas com as cadeiras sem público que ouvia em pé no exterior do Teatro, a filarmónica tocou uma das peças preferidas do grande Maestro, a Marcha Fúnebre da Terceira Sinfonia “Eróica” de Beethoven, sob a direcção emocionada de Daniel Baremboim.
Ficam-nos as gravações, mas Claudio Abbado é insubstituível porque as suas interpretações eram recriações permanentes da música.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 10 de Fevereiro de 2014

http://youtu.be/5sl0eYgs6EA

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Shostakovitch

Não deverá ser fácil encontrar um artista que tenha sido vítima de maiores desencontros de mitologias políticas do que Dimitri Shostakovitch. Um dos grandes génios da música, sendo quase certamente o maior do século XX, este compositor Russo vê agora a sua obra criativa ser descoberta e apreciada, finalmente sem óculos ideológicos, quaisquer que eles sejam. Como merece aliás, sendo mesmo por muitos considerado o Beethoven do século XX. E não é nenhum desconhecido que o afirma: de acordo com Sviatoslav Richter, “Shostakovitch é um descendente de Beethoven, através de Mahler e de Tchaikovski”.
O desejo do regime soviético em apresentar um grande compositor como representante perfeito da sua ideologia foi chocando, ao longo da sua vida, com a sua liberdade artística que não estava de facto ao serviço de ninguém. Para seu azar, Stalin resolveu ir assistir em 1936 a uma das suas obras mais significativas a ópera Lady Mcbeth que, após dois anos de apresentações de sucesso, terminou ali mesmo. Terminou a apresentação da ópera que só voltou a ser representada na ex –URSS em 1963, e ia terminando muito mais para o compositor. Algumas figuras relevantes do regime soviético que ousaram furar a censura à obra foram pouco depois executadas às ordens de Stalin. Os ideólogos do regime, Jdanov à cabeça, não perdoavam a Shostakovich e a outros diversos compositores o “formalismo” e “cosmopolitismo” das suas obras, o que os definia desde logo como pouco preocupados com “as preocupações dos trabalhadores”, e os catalogava como “inimigos do povo”.
Na sequência da “destalinização” que se seguiu ao desaparecimento do “paizinho dos povos”, Shostakovich acabou por se inscrever no Partido Comunista, o que foi amplamente anunciado para o exterior, escondendo-se no entanto que o partido não reconhecia erros na sua actuação anterior perante os compositores censurados. Curiosamente, o compositor aproveitou o abrandamento da mão pesada para escrever algumas das obras mais críticas do poder soviético.
Com uma obra imensa, de que se destacam 15 sinfonias e numerosos quartetos e concertos, não será talvez uma surpresa assim tão grande que o reconhecimento automático da sua obra se faça em todo o mundo através de uma composição de um estilo diferente. Na realidade, a utilização pelo cinema das suas suites de jazz, nomeadamente a valsa da 2ª suite, acabou por levar o seu nome a muitas pessoas que não conheciam a sua obra e que a partir daí foram satisfazer a sua curiosidade em outras paragens musicais. Esta história da promoção a música clássica pelo cinema levar-nos-ia aliás muito longe, em particular nos filmes de Stanley Kubrick que, também usou a valsa da 2º Suite em “Eyes Wide Shut”, para além de Francis Ford Coppola no seu “Godfather”.
Em tempos de “guerra fria”, a música de Chostakovitch andou de andas para bolandas entre o bloco comunista e o bloco ocidental. Felizmente, todo esse tempo passou. Resta-nos a possibilidade de conhecer e apreciar a Arte de Dimitri Shostakovitch que não é, nem nunca foi, boa ou má por ser soviética ou anti-soviética. E acredite leitor, a sua música é uma surpresa mesmo para quem acha que a música dita clássica acabou com Mahler. Não é verdade, muito longe disso. Ouça as suas obras, entre as quais se destacam a sétima e a décima sinfonias, para ter a certeza disso.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 3 de Fevereiro de 2013