segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A doença que alastra



A Síria, tal como a conhecemos durante muitos anos, é um país que já não existe. Actualmente, já nem sequer pode ser considerado como um país, por não ter território definido, governo que governe, nem qualquer sombra de soberania, para além de não haver paz em lado nenhum para os seus habitantes, que não se podem sequer chamar cidadãos. Aquilo que começou na chamada “primavera Árabe” resvalou para um conflito militar inter-Islão entre sunitas e xiitas com uma violência inaudita. Na Síria, anteriormente um país multicultural e multiétnico, mas bastante ligado ao Irão, convergiram todos medos e todos os ódios da região, movimentando alianças regionais e mundiais, desde a Arábia Saudita e Qatar contra o Irão, Rússia e China contra Estados Unidos e Europa, sem esquecer Israel e a Turquia devido ao Hezbollah e aos Curdos. O avanço do xiismo, que sempre foi minoritário, um pouco por todo o mundo muçulmano colocou os principais países sunitas como a Arábia Saudita e seus aliados em alerta pelo medo que têm do Irão xiita, que consideram como o seu inimigo principal, mais ainda que o próprio Israel.
Deste caldo saíram as condições para que nascesse algo ainda pior, o chamado “Estado Islâmico”. Depois de terem aproveitado as deficiências e falhas graves do Iraque após a saída das forças americanas, onde originalmente lutaram para criar um califado nas zonas de maioria sunita no Iraque, os jihadistas avançaram pela Síria, ocupando grande parte do seu território a saque.

 O seu objectivo final é agora recriar o antigo califado, exercendo a sua autoridade sobre todos os muçulmanos do mundo. O objectivo imediato passa pela criação de um Estado muçulmano cujo território será constituído pela zonas sunitas da Síria e do Iraque, o que já estará quase alcançado. As reacções internacionais têm primado pela ineficácia, já que se restringem a acções de força aérea sem qualquer colocação de exércitos no terreno. De facto, o historial do médio-oriente aconselha à maior prudência nas acções militares, porque os aliados de hoje serão certamente os inimigos de amanhã e é impossível conhecer as alianças subterrâneas entre os diversos países, famílias e orientações religiosas que funcionam a cada momento, ditadas pela religião mas também, ou sobretudo, pelo poder do petróleo.
Mas o problema não está circunscrito à Síria e ao Iraque, bem pelo contrário. Na realidade, o terror da autoria de fundamentalistas islâmicos tem sido levado praticamente a todo o lado, não se circunscrevendo à área daquilo a que chamam Califado.
Na Europa recordam-se, entre outros, os atentados nos comboios em Madrid em Março de 2004 que provocaram 191 mortos, em Londres em Julho de 2005 com 52 mortos, em Toulouse em Março de 2012 com 4 mortos, o ataque à revista Charlie Hebdo com 12 mortos em Janeiro de 2015. Sem esquecer os mortíferos atentados islamitas anteriores em Nova Iorque e.Bombaim.
Em África, todo o Norte se encontra em chamas devido aos extremistas muçulmanos. Desde a Tunísia em que turistas são chacinados na praia, até ao Egipto onde a guerra no Sinai é aberta, passando pela Líbia onde as praias são utilizadas pelos jihadistas para mortandades filmadas e mostradas ao mundo inteiro. 
Mas a África sub-sariana experimenta também os horrores da guerra trazida pelos extremistas muçulmanos. Os países situados nas margens do lago Chade, a Nigéria, o Chade, o Níger e os Camarões têm sofrido horrores indescritíveis causados pelos islamitas do Boko Haram. A Somália é palco de frequentes ataques jihadistas que atacam directamente as forças armadas do país. No Quénia, os terroristas islâmicos entraram numa Universidade e foram perguntando a quem encontravam se era cristão, matando de imediato quem respondesse afirmativamente e deixando assim 147 mortos para trás.
Na Índia, em Bombaim, atentados dos jihadistas islâmicos provocaram quase duzentos mortos em Novembro de 2008.
Verifica-se que o jihadismo islâmico encontra terreno propício para a sua macabra actuação em países sem Estado central forte ou mesmo minimamente organizado e em países em que os detentores de poder pouco mais fazem do que canalizar as riquezas dos seus países para as suas próprias contas bancárias, gerando pobreza generalizada e forte insatisfação dos povos.
Olhando para o mapa actual da actividade do jihadismo islâmico, não podemos deixar de nos assustar e perguntar qual a saída para a situação que é visível não ser já resolúvel com acções militares localizadas. E impressiona a aparente passividade do resto do mundo e a completa incapacidade de resposta das instâncias internacionais, como as Nações Unidas.

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