Este ano que acaba trouxe, quase a acabar, algo que, embora fosse de esperar, surpreendeu pela mudança radical, mas também pela clareza que trouxe à situação internacional. No que diz respeito à Europa, em particular, revelou o fim de uma situação de adormecimento que, perdoe-se-me a comparação, faz lembrar a referência de Camões a Inês de Castro nos Lusíadas mudando apenas o nome de Inês por Europa:
Estavas, linda Europa, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito
Refiro-me à publicação da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos que veio clarificar os eixos estratégicos dos EUA relativamente à sua segurança nacional, que engloba vários aspectos de que se destaca a defesa militar.
A reacção europeia a esta publicação foi de grande surpresa, mas não devia. A administração americana há algum tempo que vinha a mostrar-se desagradada com a falta de empenho dos países europeus no financiamento da aliança de defesa a que pertencem, a NATO. Faço notar que, na nossa campanha presidencial, surgiram candidatos a defender a saída de Portugal da NATO, argumentando que é mesmo um ditame constitucional. Na realidade, os países europeus, com a notória excepção da Polónia, “et pour cause”, habituaram-se há muito tempo, a confiar no chapéu americano acreditando que essa situação se manteria indefinidamente. Mas o mundo mudou, e não foi apenas pela eleição de Donald Trump. A crescente influência da China acompanhando o seu crescimento económico, mas também um investimento gigantesco na política militar, mormente nos modernos equipamentos, está a alterar todo o equilíbrio mundial. A sua penetração em inúmeros países, quer em África, quer nas Américas Central e do Sul, para não falar na Ásia e no Ártico, faz-se de um modo muito silencioso, mas eficaz na prossecução dos objectivos de criação de influência.
Deve-se notar que a nova estratégia americana não abandona a segurança transatlântica, mas exige responsabilidade à Europa e coloca as alterações mundiais num novo e importante plano. A guerra na Ucrânia surge neste contexto, chamando a Europa às suas responsabilidades num conflito que se desenrola no velho continente. Os europeus não podem mais manifestar solidariedade apenas por palavras, contando com os americanos para a parte difícil: armar a Ucrânia e pagar as despesas da guerra.
A política imperialista de Putin não surgiu do nada, antes tem antecedentes históricos profundos com o antigo império russo e a ex-União Soviética a demonstrá-lo. Face à História é mesmo fácil verificar as razões intrínsecas ligadas aos sentimentos profundos russos que vão para lá de quaisquer razões político-ideológicas.
Após as dezenas de anos de paz e bem-estar económico que se seguiram ao fim da Segunda Grande Guerra, a União Europeia enfrenta novos desafios que exigem protagonistas sólidos e, certamente, uma alteração profunda no seu funcionamento interno. Já não se trata de regular o tamanho da fruta ou mesmo o tipo de motores dos automóveis. O que está em causa é demasiado sério e é o futuro colectivo de todos nós nos tempos mais próximos, a começar no ano que agora começa.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 29 Dezembro 2025