sábado, 17 de janeiro de 2026

BB para sempre

 

No meio da enorme confusão em que o mundo inteiro está metido, passou quase despercebida a morte de Brigitte Bardot. Para quem viveu a adolescência e a juventude nos anos 60 e 70, a BB como era conhecida por todos, era um símbolo vivo (e lindíssimo) das transformações por que a cultura e mesmo a sociedade ocidental como um todo estavam a passar naquele momento.

De rapariguinha bonita a querer surgir no mundo do cinema como acontecia e ainda hoje acontece à volta de festivais de cinema como o de Cannes, rapidamente passou a estrela cinematográfica a nível planetário. O momento crucial surgiu em 1956 com o filme de Roger Vadim “E Deus criou a Mulher” em que BB transforma o seu papel numa verdadeira libertação feminina. Bardot não fez apenas valer a sua beleza e presença naturais, mas acrescentou-lhes uma sexualidade afirmativa e desinibida, mesmo para os dias de hoje, que definiu toda uma nova era cinematográfica. A sensualidade da cena em que dança descalça em cima da mesa marcou definitivamente a cultura daqueles anos. BB fez filmes de realizadores clássicos, mas também de realizadores da “Nova Vaga” como ficaram conhecidos. Foi o caso de “Le Mepris” (O Desprezo) realizado por Jean Luc Godard em 1963 em que BB contracenou de forma notável com Michel Piccoli e Jack Palance numa adaptação do romance homónimo de Alberto Moravia.

Brigitte Bardot foi ainda intérprete de canções, por exemplo Bonnie & Clyde da autoria de Serge Gainsbourg, outro símbolo da cultura francesa dos anos 60. Foi ainda modelo para a “Marianne”, assim se tornando praticamente um património da França.

É impossível não marcar um contraponto com a atriz global americana desses anos e igualmente símbolo sexual Marilyn Monroe que, no entanto, acabou por sucumbir à fama e às pressões que acarreta, morrendo tragicamente em 1962 com 36 anos Resultado, provavelmente, de incapacidade de enfrentar uma sociedade americana de uma violência inaudita, pouco depois de cantar os parabéns ao Presidente Kennedy perante dezenas de milhões de telespectadores.

Já Brigitte Bardot teve um destino muito diferente que, aliás, ela própria se definiu. No início dos anos 70 decidiu abandonar o cinema e foi viver para a sua casa “La Madrague” à beira-mar em Saint Tropez aí se refugiando até aos seus últimos dias. Dedicou-se completamente à proteccção dos animais, tendo para isso constituído mesmo uma fundação para onde dirigiu todos os seus pertences.

A BB morreu em 28 de Dezembro de 2025 aos 91 anos, tendo sido sepultada no cemitério de Saint Tropez perante o acompanhamento emocionado da família, alguns amigos próximos e a população de Saint Tropez que lhe dedicava uma extrema afeição. O funeral foi acompanhado pelos Gipsy Kings a quem ela em vida apoiou como só ela era capaz.

Como todos os grandes artistas, a vida de Brigitte Bardot não foi isenta de críticas e contradições. Mas a verdade é que a BB ficará na nossa memória como símbolo da conjugação de beleza e libertação feminina, vivendo para sempre nos écrans do cinema.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 12 Janeiro 2026

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