segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

GUERRAS SEM GUERREIROS

O desenvolvimento tecnológico está a mudar radicalmente a nossa vida, não sendo a guerra exceção. Ao longo dos séculos os homens foram lentamente aperfeiçoando os processos de matar o inimigo, à medida que a mobilidade foi evoluindo e que a capacidade de fogo também foi aumentando. Mas havia algo que ainda não tinha mudado: era sempre preciso ter soldados no terreno, ainda que a pilotar os aviões para largar as bombas.
Foi a partir do momento em que os militares desenvolveram os sistemas de navegação guiada por satélite, (mais tarde foram tornados disponíveis para usos civis, através do GPS que hoje usamos), que se desenvolveu toda uma tecnologia que está a definir novas formas de fazer a guerra. Quase todas semanas lemos notícias um pouco estranhas com títulos do género “Aviões teleguiados dos EUA matam quatro rebeldes no Paquistão”. São os famosos “drones”, que não são mais que pequenos aviões de guerra, equipados com mísseis, com sensores de tudo e mais alguma coisa, para além de câmaras especiais que lhes permitem “ver” de noite. Só lhes falta algo: piloto. São comandados à distância, aliás a uma distância de muitos milhares de quilómetros. A sala de comando situa-se bem no interior dos EUA, onde operadores de computadores com pequenos joysticks vão manobrando os “drones” por cima do território do outro lado do mundo, procurando os inimigos e eliminando-os um a um. O facto de usarem farda faz concluir que se trata de uma instalação militar, mas não transforma a atividade que lhes foi atribuída, que antigamente tinha um nome bem desagradável.
Como se isto ainda não fosse suficientemente mau, soube-se há poucos dias que já foi apresentado um novo avião de guerra, este de dimensões normais, que também não precisa de piloto. O software de que dispõe permite-lhe mesmo “tomar decisões” táticas por si mesmo, independentemente dos “controladores” à distância.
Muitas questões levantam estas novas e estranhas formas de fazer a guerra que, algo insolitamente, tornam cada vez mais atuais as palavras de Klausevitz sobre o significado da guerra vista como o prolongamento da diplomacia, por outros meios.
Se observarmos bem, não há guerra declarada no Paquistão. Mas os “drones” andam por lá a matar com o maior dos à-vontades, mais parecendo que desapareceram as fronteiras entre países. Por outro lado, a tecnologia que permite este tipo de guerra é demasiado sofisticada para que países pobres se possam defender. Acresce que, quem a possui, deixa de ter aquele aborrecimento de ter mortos em combate havendo, no entanto, cada vez mais “efeitos colaterais”. Na prática, o 11 de setembro fez confundir a guerra clássica com a luta internacional contra o terrorismo, levando as Forças Armadas a fazer “trabalho sujo” antes entregue a serviços secretos, o que a breve prazo bem poderá vir a tornar obsoleta a clássica organização militar dos países como Portugal.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 16 de Janeiro de 2012

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