segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Do estado do país

 


Na semana passada o Governo deu orientações aos hospitais do SNS para suspenderem durante o mês de Novembro a actividade assistencial não urgente que não implique risco de vida para os doentes. Lê-se e não se quer acreditar, mas é verdade. Se em Março e Abril todos fomos de alguma forma surpreendidos pela pandemia e assustados com as suas características e consequências, a medida semelhante que então foi tomada parecia fazer sentido.

Entretanto, passaram sete meses e, se todos nós cidadãos comuns fomos aprendendo alguma coisa sobre a pandemia, os responsáveis políticos certamente aprenderam muito mais, tal como médicos, cientistas e restante pessoal da saúde obviamente avançaram no conhecimento e capacidades de tratamento. Ou, para falar mais rigorosamente, deveriam ter aprendido.

Desde o início da pandemia, as consequências económicas, sociais e sanitárias têm sido devastadoras

No final de Outubro o Instituto Nacional de Estatística informou-nos que entre 2 de Março e 18 de Outubro se registaram “mais 7936 óbitos do que a média, em período homólogo, dos últimos cinco anos”. Tendo-se verificado nesse período 2918 mortos por Covid-19, ficam por explicar um excesso de cerca de 5.000 mortes. Por outro lado, o próprio Governo informa, na nota explicativa que consta da proposta de Orçamento de Estado para 2021 que prevê terminar o ano com menos um milhão e meio de consultas e menos 152 mil cirurgias relativamente ao ano 2019. Já o Tribunal de Contas, no seu «relatório sobre COVID 19 – Impacto na Actividade e no Acesso ao SNS, realizado entre Março e Julho» divulgado na semana passada, relativo à gestão da pandemia pelo Ministério da Saúde, veio alertar para que «um dos maiores desafios actuais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) é o de equilibrar a resposta à segunda fase de maior incidência da pandemia Covid-19 com a garantia de assistência aos doentes não-Covid sem o aumento acentuado dos tempos de espera».O Tribunal de Contas «considera que a recuperação da actividade não realizada terá de ocorrer num contexto de cuidados adicionais na prática clínica, com o risco de a capacidade instalada no SNS não ser suficiente para fazer face a este aumento de procura sem o aumento acentuado dos tempos de espera».

Face a tudo o que se vai sabendo, incluindo informação prestada pelas entidades oficiais mais variadas, resulta surpreendente que, perante a segunda vaga da pandemia em curso, esperada por todos, a resposta do ministério da Saúde seja decidir de novo pela descida drástica da oferta de serviços por parte do Serviço Nacional de Saúde.


É evidente não ter sido preparado um plano de resposta à segunda vaga que surge em época de frio, acumulando com as doenças típicas desta altura do ano que já tradicionalmente entopem as urgências dos hospitais. É mesmo inacreditável que não tenha sido preparado um plano de integração massiva da capacidade hospitalar particular e social que evitasse duas coisas: excesso de procura por doentes covid-19 e falta de capacidade para tratar todas as outras doenças. Se se pretendia demonstrar que o SNS não estava à altura para responder às necessidades dos portugueses não se poderia fazer melhor. As consequências estão à vista com os números acima apresentados (todos oficiais) a que acresce o facto de os portugueses acorrerem a fazer seguros de saúde privados que já são mais de 3 milhões, que acrescem às centenas de milhar de número de funcionários públicos com ADSE que não utilizam o SNS.

Provavelmente, esta situação é consequência de algo que os responsáveis políticos têm escondido dos portugueses e que é a falta aflitiva de dinheiro com que o país se defronta. A queda da produção económica é brutal, não vai recuperar nos próximos meses e a quebra de recolha de impostos segue em paralelo. As medidas políticas de apoio a sacrificados pela economia, sejam trabalhadores ou as próprias empresas são por definição transitórias, apenas adiam os problemas, na esperança de que a pandemia passe e se possa recuperar o caminho anterior. Por outro lado, embora Portugal seja o país da EU que menos gastou em apoios pela pandemia em função do PIB, os custos desses apoios são grandes para as nossas possibilidades. 


A dívida pública gigantesca que foi crescendo todos estes anos é um obstáculo a que o Estado se possa financiar lá fora para fazer frente a estas necessidades inesperadas. E a famosa «bazuca» da União Europeia tarda em chegar. Às notícias trágicas sobre subida repentina de desemprego e atrasos nos apoios por parte da Segurança Social virão em breve juntar-se as consequências das moratórias bancárias.

Seria bom que, por uma vez, os responsáveis políticos, do Presidente da República ao Governo e aos líderes partidários, todos eles, esclarecessem os portugueses sobre a real situação do país e o que fazer efectivamente para lhe fazer face antes de um violento choque com a realidade, já previsível, em vez de voltarem a falar de TGV´s.
 
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 9 de Novembro de 2020

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Emmylou Harris - The Boxer

FRA Outubro 2020 - As Invasões Francesas e a Academia de Coimbra

 





Coimbra marca

 


Das quase certas surtidas dos Vikings nórdicos nos séculos VIII e IX pela costa atlântica da Península Ibérica que hoje é portuguesa não reza a História. Haverá, eventualmente, sinais indirectos de que o nome Lordemão no Concelho de Coimbra poderá ser um deles, dada a semelhança com Lordemanos em Leão onde terá existido uma colónia viking, como sugerem alguns autores. Já da passagem dos Fenícios por estas paragens, muito tempo antes, há muitos vestígios de que um exemplo é o porto que está debaixo da A 14 em Santa Olaia ao pé de Montemor-o-Velho.

Povos dos mais antigos que, viajando pelo Atlântico, entraram pela ria que então existiria e subiram o rio que hoje chamamos Mondego e que ainda durante a Idade Média se chamava Munda. As águas eram navegáveis até onde surgia o primeiro de muitos montes, a montante do qual só embarcações mais pequenas podiam subir o rio. Foi precisamente aí que, desde tempos imemoriais, se fixaram habitantes que usando o porto fluvial ligado ao mar, tanto recebiam mercadorias trazidas pelos barcos, como expediam produtos vindos das serranias do interior.

Ao longo dos séculos e depois de conquistas e reconquistas por povos diferentes que iam e vinham, a estabilização final chegou no século XI com a reconquista cristã final por D. Fernando I o Magno, ainda antes da História de Portugal, que entregou o governo da cidade e região ao moçárabe D. Sesnando cujo túmulo está na Sé Velha.


Se a existência da cidade de Coimbra começou por ser consequência das características orográficas e hídricas da sua região, a própria cidade passou a ser, a certa altura, actor de influência na região, no país e mesmo no mundo. Na região, porque começando por ser a fronteira de onde partiram as conquistas a Sul, determinou o surgimento de numerosas estruturas defensivas à sua volta. No país, porque foi a primeira capital de Portugal, onde nasceram todos os reis da primeira dinastia, havendo apenas dúvidas sobre o local de nascimento de D. Afonso Henriques que, no entanto, aí tem o seu túmulo no Mosteiro de Sta. Cruz. Abrigando a que durante muito tempo foi a única Universidade do país, a influência de Coimbra foi fundamental na língua e na formação das elites do país, tornando a cidade numa marca global ao ser fonte de emissão de ex-alunos da sua Universidade para grande parte do mundo.

 

Como é natural, a modernidade trouxe a abertura do Ensino Superior, levando-o à maioria das outras cidades, o que provocou uma perda de influência da Universidade de Coimbra e, em consequência, da cidade onde está instalada. Nesse movimento inclui-se a própria Medicina, com a instalação de escolas superiores em diversas cidades, incluindo na própria região Centro.


A desindustrialização a que o país assistiu no fim dos anos setenta, acentuada ainda pela globalização, ditou o fim das indústrias tradicionais de Coimbra, desde a cerâmica à alimentação, incluindo o fabrico de cerveja. Foi possível manter e mesmo, felizmente crescer, indústrias cada vez mais sofisticadas de produção de medicamentos e de desenvolvimento de processos de fabrico de genéricos exportados para todo o mundo. Surgiram algumas, poucas, empresas ligadas à informática, mas de grande relevância e notoriedade, dado o mercado internacional exigente em que operam e que mostram como a ligação da investigação científica ligada ao ensino superior à actividade económica é possível e pode servir de âncora ao desenvolvimento económico.

Durante a sua longa existência, Coimbra passou de circunstância ditada pelos elementos naturais a cidade viva e influente no mundo inteiro, tendo mesmo construído uma marca que é imediatamente reconhecível de forma global. Se em determinadas alturas parece diminuir de importância ou mesmo de prestígio, tem conseguido encontrar em si as capacidades para ressurgir e se renovar. É o que tem que fazer de novo nos dias de hoje que têm a grande vantagem de aliar o conhecimento que é cultura, à capacidade de inovação que a investigação pode potenciar.
 
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 2 de Novembro de 2020

FRA de Outubro 2020

https://www.flipsnack.com/FRASETEMBRO/fra-8-outubro.html



 


terça-feira, 27 de outubro de 2020

 Este é o Editorial do jornal Público de hoje, que reflecte a posição do jornal. Não é um artigo de opinião da jornalista. Veja-se a "independência" do jornal em todo o texto e com a utilização do termo «infelizmente» relativamente à não subida eleitoral do PCP. E a "Modelo Continente" a pagar isto. Ainda um dia hei-de perceber porquê, embora a quase não existência de problemas laborais na SONAE possa dar uma ideia. Sobre a hipocrisia e funcionamento do PCP e da Intersindical.




segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Mulheres reais na Idade Média

 


Não sendo historiador, cada vez me espanto mais com os mitos que se foram criando sobre a História, umas vezes criados para glorificar determinadas personagens em desfavor de outras, outras apenas para criar uma base de explicação histórica para a narrativa que interessa ao regime de um determinado momento histórico.

Desde a Escola Primária que ouço falar na Idade Média como uma «idade das trevas» que se seguiu ao desaparecimento do antigo Império Romano às mãos dos invasores denominados Bárbaros. Esta designação, só por si, leva-nos ao engano, porque era assim que os Romanos designavam todos os povos exteriores ao seu Império, quando entre nós, hoje em dia é um adjectivo que qualifica quem pratica crueldades ou manifesta falta de civilização. Contudo, como Umberto Eco nos mostra na obra «Idade Média – Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos» por si organizada, essa designação está longe de corresponder ao que historicamente se passou na Europa, e não só.

Um dos aspectos mais vincados da Idade Média como idade das trevas é certamente o papel supostamente subalterno das mulheres nas sociedades desses tempos. É por isso, pelo menos surpreendente, descobrir como há muitos exemplos em que esse papel não corresponde minimamente à realidade.

Em 1122 nasceu em Poitiers Leonor filha do duque Guilherme X da Aquitânia e de Leonor de Châtellerault. Sendo nesse tempo Poitiers um centro cultural importante, a jovem Leonor aprendeu a andar a cavalo e a jogar xadrez, mas também estudou latim, aritmética e música. Aos 15 anos, já duquesa da Aquitânia, casou com o filho do rei de França que, pouco depois se tornaria Luís VII pela
morte do pai. Ao passar para a corte de França nunca permitiu que o ducado da Aquitânia fosse integrado no reino que era do seu marido. E modificou por completo os hábitos dessa corte sombria e rígida, levando para lá usos da corte de Poitiers na alimentação, no modo de vestir e na Cultura, recebendo trovadores e organizando jogos e torneios. Tendo acompanhado o marido ao Oriente na segunda cruzada entre 1147 e 1149, as difíceis relações do casal atingiram um ponto de ruptura e Leonor acabou por se relacionar com Henrique Plantageneta. Para grande escândalo de muitos, Leonor exigiu e obteve do Papa a anulação do seu casamento com Luís VII, com o qual tinha duas filhas, alegando consanguinidade. Poucas semanas depois do divórcio, Leonor casou-se com Henrique, filho do duque da Normandia e de Matilde, filha e herdeira do rei Henrique I de Inglaterra. Foi assim que, em 1154 Leonor se tornou rainha de Inglaterra com o seu marido Rei Henrique II, vindo o casal a ter oito filhos, cinco rapazes e três raparigas. Entre os seus filhos contam-se Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra. Depois de lutas com seu marido ao lado seus filhos, esteve presa durante 16 anos mas, depois disso, teve ainda uma actividade política extraordinária apesar da idade, incluindo organizar um exército e ir a Viena libertar o seu filho Ricardo, prisioneiro do duque de Áustria.


Por volta de 1080 nasceu Tareja filha de Afonso VI rei de Leão e Castela e de Ximena Moniz, considerada filha bastarda e meia-irmã de Urraca filha da rainha Constança. Viriam ambas a casar com nobres vindos de França, Urraca com Raimundo, filho do conde da Borgonha e Tareja ou, como hoje diz Teresa, com Henrique. O conde D. Henrique era bisneto de Roberto II, rei de França. O que é facto é que Teresa, senhora de uma personalidade fortíssima, nunca deixou que a considerassem de algum modo inferior a sua irmã, exigindo mesmo que, a partir de certa altura, a tratassem por rainha. Pelo casamento com Henrique, Afonso VI entregou-lhes o governo das terras entre os rios Minho e Tejo, o Condado Portucalense. Ao morrer em 1112 o conde D. Henrique deixa Teresa com quatro filhos: D. Afonso Henriques nascido em 1109 e com apenas 3 anos de idade e as suas irmãs Urraca, Teresa e Sancha. Exerceu a regência de forma vincada, nunca perdendo de vista o objectivo de fortalecer o Condado e de o expandir territorialmente. Anos depois de ficar viúva, casou com o poderoso nobre galego Fernão Pérez de Trava, assim apoiando os que defendiam a união da Galiza com Portugal. A facção contrária veio a obter a concordância do Infante Afonso Henriques que defrontou e derrotou a Mãe e os seus apoiantes em S. Mamede em Junho de 1128. A partir daí estabeleceu-se a História de Portugal, separada da da Galiza, pertencendo à especulação o que teria acontecido se Galiza e Portugal se tivessem unido. O que é certo é que D. Teresa foi uma personalidade histórica com uma afirmação surpreendente para a época, sob os pontos de vista pessoal e político.

Não pode ser mera coincidência o facto de duas mulheres do mesmo período histórico há quase mil anos, em locais europeus tão distantes, se terem afirmado com tal força, capacidade pessoal e determinação. Prova de que a Idade Média bem merece ser estudada com um olhar bem diferente daquele que a apelida de «idade das trevas».

 Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 26 de Outubro de 2020