segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

É só escolher


Castro (e o seu Rolex)


Primeiros de Dezembro




 Neste ano em que o 1º de Dezembro voltou a ser feriado, perante tudo o que li e ouvi, não posso deixar de partilhar algumas notas pessoais sobre esta data.
Esta data é das mais impressivas na minha memória. Quando tinha uns dez anos de idade e vivia em Oliveira do Hospital, com a Serra da Estrela ali em frente coberta de neve nessa altura do ano, lá íamos todos nós marchar às nove da manhã para umas cerimónias que não recordo, mas que tinham a ver com as comemorações do 1º de Dezembro. O que recordo sim, é que estava um frio de rachar e que a farda da "Mocidade Portuguesa" contemplava uns simples calções e uma camisa com as mangas dobradas pelo cotovelo. A minha Mãe, com o maior carinho, enchia tudo por baixo da farda com a roupita mais quente que encontrava, de forma a que não se visse por fora e que disfarçasse um pouco o frio. 

Durante o Estado Novo o 1º de Dezembro foi sempre uma data marcadamente celebrada e ensinada aos jovens como sendo a data da Restauração, por ser aquela em que “corremos com os espanhóis” e recuperámos a nossa independência. Essa celebração tinha um forte cunho patriótico e mesmo nacionalista, pela glorificação do povo português e diabolização dos espanhóis. Na realidade, Filipe II de Espanha apenas havia herdado o trono português depois dos disparates do nosso Rei D. Sebastião, que ele próprio Filipe tinha tentado dissuadir de ir para o desastre de Alcácer Quibir. Tudo tinha a ver com as famílias que detinham e governavam os seus reinos, estabelecendo entre si acordos familiares pelos casamentos, pelo que os reinos iam e vinham consoante as heranças, os casamentos e as guerras que irmãos e primos faziam entre si. Não havia ainda na altura o conceito de Estado-Nação. Anos antes, houvera igualmente tentativas dos nossos reis para virem a herdar os reinos de Espanha por via da política de casamentos o que, por mero acaso, não veio a suceder. O 1º de Dezembro de 1640 foi um golpe de algumas elites na tradição acima referida e não uma revolta popular. Por mim, tenho um grande, muito maior respeito pelo que se passou entre 1383 e 1385, vendo aí verdadeiros motivos de celebração que, no entanto, passam ao lado dos feriados e das comemorações nacionais. Talvez porque o povo teve aí um papel decisivo.
Entendo, apesar de tudo, que alguma data deve haver para celebrar a independência de Portugal. Não havendo tradição na celebração da fundação essencial pelo acordo entre o nosso primeiro Rei Afonso e seu primo D. Afonso de Castela em 1143 ou da entronização do nosso Rei João I, o 1º de Dezembro também poderá servir para o efeito. 
É por isso que lamentei que esse feriado tivesse sido suspenso pelo governo de Passos Coelho e fico satisfeito com a sua reposição. Mas não posso deixar de me referir ao comentário de que essa suspensão do feriado se teria dado para apoucar ou menosprezar a data. De facto, numa situação de desespero económico-financeiro como aquela por que passámos em 2011/2013, faz todo o sentido puxar o mais possível pela produção nacional e os feriados contribuem, obviamente, para a reduzir. Para aqueles que se referem a esta situação com algum sarcasmo lembrarei muito simplesmente o célebre "dia de trabalho para a nação" de Vasco Gonçalves. Quando a situação é de penúria, fazem-se sacrifícios e quem não entende isto não pode cuidar do bem comum. Devo ainda recordar que a reposição deste feriado no corrente ano apenas antecipou em um ano o que estava anteriormente previsto para a sua reposição, que se verificaria em 2017. Numa situação em que, depois de os portugueses terem passado por grandes sacrifícios, já não dependemos do estrangeiro para todas as nossas contas, passamos a poder fazer escolhas. É por isso que fico satisfeito por voltarmos a poder prescindir da produção de um dia de trabalho, gozando de um feriado que relembra a recuperação da Independência. 
O que ouvimos dos principais responsáveis políticos neste 1º de Dezembro foi, contudo, lamentável a todos os títulos, por demonstrar falta de respeito pelos sacrifícios por que os portugueses passaram na sequência do resgate que nos trouxe a troika, chamada in-extremis em 2011 situação que, essa sim, significou verdadeira perda da nossa soberania. Façamos votos para que os responsáveis pela governação, na tentação do fácil e imediato, nunca mais nos coloquem na necessidade de pedir resgate seja a quem for, até pela situação gravíssima que os diversos nacionalismos a ressurgir por esse mundo, mas principalmente na Europa, nos poderão vir a criar.