terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

George Gershwin e o mundo no seu tempo

 Há cem anos a Europa tentava recuperar dos destroços da I Grande Guerra e da pandemia da gripe espanhola que provocou ainda mais mortos que aquela. O fim dos velhos impérios e as condições draconianas impostas à Alemanha, bem como o desenvolvimento de novas ideologias políticas tinham criado as condições para uma alteração radical da velha civilização europeia. O surgimento dos fascismos em Itália e na Alemanha preparava a hecatombe que surgiria pouco depois. Na Rússia soviética, a morte de Lenine e a subida ao poder de Estaline mostrava uma nova e violenta face do exercício do poder pelos comunistas que se tornaria uma verdadeira imagem de marca. Mesmo entre nós, a frágil Democracia republicana encontrava o seu fim nas baionetas de um novo golpe militar iniciado em Braga, desta vez vitorioso, e que abriu as portas a uma ditadura que duraria 48 anos.

Na América, o fim dos impérios europeus com o inerente início do fim da colonização africana propiciou condições para um crescimento económico nunca visto. Os EUA eram agora a maior potência mundial e iriam aproveitar essa oportunidade. Baseados numa liberdade individual garantida constitucionalmente com um Estado apenas minimamente intervencionista, os EUA tornaram-se na “terra da oportunidade”. Assim atraíram milhões de imigrantes de todo o mundo, incluindo da Europa.

Acompanhando a pujança económica, Nova York tornou-se numa capital da cultura, fervilhando de actividade artística de que a Música, nas suas diversas formas, era das mais relevantes. Numerosos compositores de música dita erudita surgiram e afirmaram-se a nível global, de que se destacaram Aaron Copland ou Charles Ives. Mas um desses compositores, George Gershwin, destacou-se muito cedo, quer pela qualidade das suas composições, quer pela capacidade de integrar de forma feliz diversos géneros musicais, desde música popular, a jazz e música dita clássica. Uma das suas composições mais famosas, Rhapsody in Blue, é disso um exemplo paradigmático. Tendo recebido uma encomenda para uma nova obra, Gershwin atrasou-se e estava muito perto do fim do contrato quando, numa viagem de comboio para Boston, começou a reparar no ritmo metálico das rodas nos carris. E foi assim que o ruído de um comboio serviu de inspiração para o ritmo de uma obra cujas notas iniciais são imediatamente reconhecíveis em todo o mundo. A sua ópera “Porgy and Bess” inclui a ária “Summertime” imediatamente reconhecível como qualquer ária de Verdi, seja interpretada por Loulie Jean Norman ou por Ella Fitzgerald. A apresentação do seu conhecido poema sinfónico jazzístico “An American in Paris” chegou a incluir buzinas de automóvel juntamente com orquestra sinfónica e inspirou-se na sua estada em Paris quando estudou piano. Curiosamente, apesar das diferenças das suas músicas, Gershwin e o grande Stravinsky admiravam-se mutuamente e não faziam segredo disso.

Apesar de ter morrido muito novo em 1937, com apenas 38 anos, a extensão e qualidade da sua obra musical colocam-no no panteão dos grandes compositores do sec.XX e é sempre com renovado prazer que se ouvem as suas obras.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 23 Fevereiro 2026 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Povo que sofre e se supera

 A Natureza tem esta característica difícil de aceitar: por mais que o Homem a tente humanizar, há sempre momentos em que se torna demasiado difícil, ou mesmo impossível, domá-la completamente. Sendo a minha formação de Engenharia, sei perfeitamente que toda a intervenção humana se baseia em probabilidades, não sendo possível garantir uma segurança absoluta contra as forças da Natureza. Tenho sempre presente a explicação dada pelo Físico Richard Feynman para a tragédia do vai-vem espacial Challenger em 1986: tão simples como anéis “o-ring” terem perdido a elasticidade com a temperatura ambiente muito baixa verificada na noite anterior ao lançamento. Isto é, mesmo nas tecnologias mais avançadas do mundo a Natureza encontra frechas por onde entra de forma subtil, mas decisiva.

De facto, ouvindo e vendo os jornalistas nestes dias de tragédias provocadas por condições meteorológicas extremas nunca sentidas entre nós, parece que a principal preocupação é encontrar responsáveis directos pela situação. Contudo, ventos de mais de 200 Km/h ou tempestades seguidas durante várias semanas são situações a que o país não estava habituado. As infra-estruturas não foram, em grande parte, calculadas para estas situações extremas e as consequências são as estamos a ver. Claro que a ocupação do território tem sido feita de forma inconsciente, não respeitando a existência de arribas, os leitos de cheia, etc. O abandono dos campos e da agricultura de proximidade ajuda às consequências de incêndios gigantescos no Verão e de inundações no Inverno. A ideologia meteu-se também nos interstícios de discussões que deveriam ser sobretudo técnicas e até mesmo barragens que deveriam estar em funcionamento para ajudar a suster as águas não estão lá.

A realidade da Natureza a reivindicar muito do que o homem lhe tem subtraído é um facto não só entre nós, mas em todo o mundo. A deriva do nosso velho companheiro, o Anticiclone dos Açores abriu a porta aos “rios de tempestades”, mas as consequências vão muito para além de Portugal, sentindo-se em boa parte da Europa. E a “viagem” do Anticiclone dos Açores também tem causas, ligadas às alterações das correntes profundas do Atlântico que têm a ver com o degelo do Ártico.

Quando os jornalistas tentam encontrar responsáveis por problemas locais relacionados com a actividade humana e da governação, seja local ou nacional, cumprem o seu necessário papel de escrutínio, só possível em Democracia. Mas, das reportagens e da aflição que sentimos junto das populações martirizadas com terras e casas ardidas ou sem electricidade ou com água a ocupar caves e pisos térreos, acaba por surgir algo de muito positivo. Os portugueses têm uma capacidade extraordinária de resistência perante as dificuldades, mesmo as mais extremas. A seguir à aflição dos primeiros momentos, surge uma capacidade de reacção notável, a que se junta uma enorme onda de solidariedade nacional. Solidariedade essa, tantas vezes anónima, que mitiga o sofrimento e mostra até que ponto ódios e diferenças artificiais cedem perante a Bondade e a Esperança em que dias melhores virão.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 16 Fevereiro 2026 

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

PLANEAR E GERIR é necessário

 As situações limite constituem oportunidades para testar sistemas instalados e, depois de ultrapassadas, proceder a uma avaliação do sucedido. É fácil responsabilizar pelas alterações climáticas a actual situação que se verifica em largas zonas do país depois da tempestades Kristin e Leonardo, mas assim se retira a carga que deveria cair sobre quem tem a responsabilidade de planear o ordenamento do território.

Por sorte nossa, no que a Coimbra respeita, a tempestade Kistin desviou-se relativamente ao previsto e não fomos vítimas ao nível do sucedido na região de Leiria. Mas as chuvas intensas e permanentes que temos sofrido fizeram recordar as cheias anteriores, em particular as de 2001 e 2016, causando ansiedade e fazendo regressar as preocupações com as consequências das inundações.

É também o momento para colocar questões que continuam sem resposta há dezenas de anos. É certo e sabido que, depois da tragédia, tudo se esquece e parte-se para novas questões “urgentes” que passam a ocupar o espaço mediático. Infelizmente, os eventuais relatórios sobre o que se passou irão para o fundo das gavetas, sem que aproveitem ao futuro.

Nos anos 60 do sec. passado foi elaborado e aprovado o Plano de Aproveitamento do Mondego” que foi concretizado, durante as duas décadas seguintes, embora não totalmente. Acresce a existência da “Estratégia Nacional para a Gestão da Água”, plano essencial para uma eficiente gestão de um recurso essencial. Relativamente à bacia do Mondego, está prevista a construção da barragem de Girabolhos acompanhada da central da Bogueira. Este conjunto é essencial para uma gestão eficiente das águas do Mondego. A construção desta barragem foi iniciada mas, em 2016, foi parada pelo Governo de então. Como consequência das tempestades deste Inverno, o actual Governo anunciou novo concurso para a construção deste empreendimento que, desta vez e com atraso de tantos anos, se espera que finalmente venha a ser completamente executado.

Fica à vista de todos o problema do planeamento territorial em Portugal de que parece só se tomar consciência colectiva quando surgem as consequências sofridas por tanta gente.

Mas temos ainda outra questão grave, que é a da gestão do território. E não precisamos de sair da bacia do Mondego para o provar. De facto, embora incompleto, o plano velho de 60 anos de “Aproveitamento Hidráulico do Mondego” é uma obra notável a nível nacional e de uma importância crucial para a bacia do Mondego. Mas nunca foi criada uma entidade que pudesse fazer a sua gestão global, compatibilizando os vários interesses, tantas vezes conflituantes. É necessário gerir as várias barragens existentes, em função da produção de energia eléctrica, incluindo igualmente as descargas, segurança e operação hidráulica; mas também desenvolver e manter o sistema de regadio do Baixo Mondego e promover o desenvolvimento agrícola e territorial, entre outras funções de relevo.

Nem é preciso inventar. De facto, todas estas competências são as da EDIA que gere o empreendimento do Alqueva com os resultados que se conhecem.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 9 Fevereiro 2026 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

DE APOLLO A ARTEMIS

 

O deus grego Apolo era filho de Zeus, o deus mais poderoso de todo o panteão grego. Depois de Zeus, Apolo era o deus mais venerado, sendo a divindade do sol, da juventude, da música e da poesia, entre outros.

Apollo foi o nome dado, nos anos 60, ao programa da NASA que cumpriria o desejo formulado por John F. Kennedy de levar um americano a por o pé na Lua e trazê-lo de volta em segurança antes que aquela década terminasse. Kennedy já não o veria, mas foi realmente em 21 de Julho de 1969 que o comandante da Apollo XI desceu do módulo lunar Eagle para pisar o solo lunar. Lembro-me como se tivesse sido ontem, embora já tenham passado 57 anos sobre esse acontecimento extraordinário. Era um adolescente, mas fiquei acordado a ver a televisão até que a transmissão directa da Lua, quase às três da manhã, surgiu e fui chamar a família para assistir também. O programa Apollo não se fez sem dor, nem sacrifício. Em 1967, num treino em terra, morreram três astronautas num incêndio na nave Apollo I. A Apollo XIII lançada em Abril de 1970 e que deveria ser a terceira a pousar na Lua sofreu uma avaria grave e todo o mundo seguiu em directo a viagem até à Lua e regresso em segurança no limite, após usar a gravidade lunar como catapulta para a Terra. O programa Apollo levou 12 astronautas a pisar a Lua em seis alunagens bem sucedidas. A última foi a Apollo XVII em 1972, pelo que o Homem já não visita o nosso satélite natural há 54 anos.

Apollo tinha uma irmã gémea, Ártemis, a deusa da Lua, da caça e dos animais selvagens. Faz assim todo o sentido que, neste século XXI, a NASA tenha adoptado o seu nome para um novo programa para levar de novo o homem à Lua. O programa Artemis tem três fases. A primeira, denominada Artemis I, consistiu no envio à Lua, em Novembro de 2022, da nave não tripulada Orion e regresso em segurança à Terra. Esta operação testou o funcionamento de todo o equipamento desenvolvido pela NASA para levar de novo o homem à Lua e trazê-lo em segurança. Na segunda fase, a Artemis II levará uma tripulação de quatro pessoas até à Lua, passando por trás do planeta e regressando à Terra. Sendo tripulada, proporcionará um teste definitivo às condições necessárias para a vida humana numa viagem fora da órbita terrestre. Já a Artemis III completará o programa. Levará a tripulação à Lua, descendo no satélite pela primeira vez desde 1972. Mas esta viagem será completamente diferente do programa Apollo. Deverá proporcionar as condições para que o Homem possa viver na Lua de forma sustentada durante períodos prolongados, preparando as condições para uma presença humana permanente na Lua.

A Artemis II deverá ser lançada na próxima sexta-feira, dia 6 de Fevereiro. Para quem desde há tantas dezenas de anos espera que que a Humanidade visite de novo a Lua, é algo de especial numa manifestação de Esperança no futuro de uma Humanidade que nos últimos tempos parece sem Norte, nem boas notícias. Que o Comandante Reid Wiseman, o piloto Victor Glover e os especialistas da missão Christina Koch e Jeremy Hansen façam uma boa viagem até à Lua e regressem em segurança são os meus votos.

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