Há cem anos a Europa tentava recuperar dos destroços da I Grande Guerra e da pandemia da gripe espanhola que provocou ainda mais mortos que aquela. O fim dos velhos impérios e as condições draconianas impostas à Alemanha, bem como o desenvolvimento de novas ideologias políticas tinham criado as condições para uma alteração radical da velha civilização europeia. O surgimento dos fascismos em Itália e na Alemanha preparava a hecatombe que surgiria pouco depois. Na Rússia soviética, a morte de Lenine e a subida ao poder de Estaline mostrava uma nova e violenta face do exercício do poder pelos comunistas que se tornaria uma verdadeira imagem de marca. Mesmo entre nós, a frágil Democracia republicana encontrava o seu fim nas baionetas de um novo golpe militar iniciado em Braga, desta vez vitorioso, e que abriu as portas a uma ditadura que duraria 48 anos.
Na América, o fim dos impérios europeus com o inerente início do fim da colonização africana propiciou condições para um crescimento económico nunca visto. Os EUA eram agora a maior potência mundial e iriam aproveitar essa oportunidade. Baseados numa liberdade individual garantida constitucionalmente com um Estado apenas minimamente intervencionista, os EUA tornaram-se na “terra da oportunidade”. Assim atraíram milhões de imigrantes de todo o mundo, incluindo da Europa.
Acompanhando a pujança económica, Nova York tornou-se numa capital da cultura, fervilhando de actividade artística de que a Música, nas suas diversas formas, era das mais relevantes. Numerosos compositores de música dita erudita surgiram e afirmaram-se a nível global, de que se destacaram Aaron Copland ou Charles Ives. Mas um desses compositores, George Gershwin, destacou-se muito cedo, quer pela qualidade das suas composições, quer pela capacidade de integrar de forma feliz diversos géneros musicais, desde música popular, a jazz e música dita clássica. Uma das suas composições mais famosas, Rhapsody in Blue, é disso um exemplo paradigmático. Tendo recebido uma encomenda para uma nova obra, Gershwin atrasou-se e estava muito perto do fim do contrato quando, numa viagem de comboio para Boston, começou a reparar no ritmo metálico das rodas nos carris. E foi assim que o ruído de um comboio serviu de inspiração para o ritmo de uma obra cujas notas iniciais são imediatamente reconhecíveis em todo o mundo. A sua ópera “Porgy and Bess” inclui a ária “Summertime” imediatamente reconhecível como qualquer ária de Verdi, seja interpretada por Loulie Jean Norman ou por Ella Fitzgerald. A apresentação do seu conhecido poema sinfónico jazzístico “An American in Paris” chegou a incluir buzinas de automóvel juntamente com orquestra sinfónica e inspirou-se na sua estada em Paris quando estudou piano. Curiosamente, apesar das diferenças das suas músicas, Gershwin e o grande Stravinsky admiravam-se mutuamente e não faziam segredo disso.
Apesar de ter morrido muito novo em 1937, com apenas 38 anos, a extensão e qualidade da sua obra musical colocam-no no panteão dos grandes compositores do sec.XX e é sempre com renovado prazer que se ouvem as suas obras.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 23 Fevereiro 2026
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