A Natureza tem esta característica difícil de aceitar: por mais que o Homem a tente humanizar, há sempre momentos em que se torna demasiado difícil, ou mesmo impossível, domá-la completamente. Sendo a minha formação de Engenharia, sei perfeitamente que toda a intervenção humana se baseia em probabilidades, não sendo possível garantir uma segurança absoluta contra as forças da Natureza. Tenho sempre presente a explicação dada pelo Físico Richard Feynman para a tragédia do vai-vem espacial Challenger em 1986: tão simples como anéis “o-ring” terem perdido a elasticidade com a temperatura ambiente muito baixa verificada na noite anterior ao lançamento. Isto é, mesmo nas tecnologias mais avançadas do mundo a Natureza encontra frechas por onde entra de forma subtil, mas decisiva.
De facto, ouvindo e vendo os jornalistas nestes dias de tragédias provocadas por condições meteorológicas extremas nunca sentidas entre nós, parece que a principal preocupação é encontrar responsáveis directos pela situação. Contudo, ventos de mais de 200 Km/h ou tempestades seguidas durante várias semanas são situações a que o país não estava habituado. As infra-estruturas não foram, em grande parte, calculadas para estas situações extremas e as consequências são as estamos a ver. Claro que a ocupação do território tem sido feita de forma inconsciente, não respeitando a existência de arribas, os leitos de cheia, etc. O abandono dos campos e da agricultura de proximidade ajuda às consequências de incêndios gigantescos no Verão e de inundações no Inverno. A ideologia meteu-se também nos interstícios de discussões que deveriam ser sobretudo técnicas e até mesmo barragens que deveriam estar em funcionamento para ajudar a suster as águas não estão lá.
A realidade da Natureza a reivindicar muito do que o homem lhe tem subtraído é um facto não só entre nós, mas em todo o mundo. A deriva do nosso velho companheiro, o Anticiclone dos Açores abriu a porta aos “rios de tempestades”, mas as consequências vão muito para além de Portugal, sentindo-se em boa parte da Europa. E a “viagem” do Anticiclone dos Açores também tem causas, ligadas às alterações das correntes profundas do Atlântico que têm a ver com o degelo do Ártico.
Quando os jornalistas tentam encontrar responsáveis por problemas locais relacionados com a actividade humana e da governação, seja local ou nacional, cumprem o seu necessário papel de escrutínio, só possível em Democracia. Mas, das reportagens e da aflição que sentimos junto das populações martirizadas com terras e casas ardidas ou sem electricidade ou com água a ocupar caves e pisos térreos, acaba por surgir algo de muito positivo. Os portugueses têm uma capacidade extraordinária de resistência perante as dificuldades, mesmo as mais extremas. A seguir à aflição dos primeiros momentos, surge uma capacidade de reacção notável, a que se junta uma enorme onda de solidariedade nacional. Solidariedade essa, tantas vezes anónima, que mitiga o sofrimento e mostra até que ponto ódios e diferenças artificiais cedem perante a Bondade e a Esperança em que dias melhores virão.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 16 Fevereiro 2026
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