terça-feira, 19 de maio de 2026

LEMBRAR O 20 DE MAIO DE 1449

 

Daqui a dois dias passam 527 anos sobre uma das datas mais vergonhosas da História de Portugal. Ficou para a História como batalha de Alfarrobeira, mas mais valia ser conhecida como traição e morte de Dom Pedro, Duque de Coimbra.

Um dos filhos de D. João I e Dona Filipa de Lencastre D. Pedro era, portanto, um dos membros daquela a que Camões chamou a Ínclita Geração.

D. Pedro era uma personalidade verdadeiramente extraordinária para a sua época, muito pela educação esmerada que recebeu, mas também pelo seu espírito dedicado ao estudo, para além das viagens que realizou pela Europa entre 1425 e 1428. Viajou por Inglaterra, Bélgica, França, terras alemãs, italianas e ibéricas. Em Oxford e Paris conheceu as respectivas universidades, tendo recolhido informações preciosas sobre o ensino aí praticado. Mais tarde haveria de criar um Estudo Geral em Coimbra, que deveria acolher os novos métodos de ensino, em vez da velha universidade, essencialmente religiosa, criada por D. Dinis que não acertava o passo entre Lisboa e Coimbra.

O Infante das Sete Partidas, como seria conhecido, enviou de Bruges uma célebre Carta a seu irmão Duarte com conselhos acertados e inéditos para o seu tempo sobre a boa governação, que ainda hoje surpreendem pelo acerto e grande conhecimento De como cuidar do bem comum.

Enquanto Regente da coroa portuguesa fez do seu meio-irmão Afonso, filho de D. João I e de Inês Pires num relacionamento anterior ao casamento com Filipa de Lencastre, Duque de Bragança. Contudo, tal não foi suficiente para que, após D. Afonso V ser coroado Rei, o Duque de Bragança e outros nobres não tivessem conjurado junto do jovem Rei contra o seu tio que, enquanto Regente, tentara ultrapassar as práticas medievais assim criando inimigos junto da velha nobreza.

Dom Pedro foi atraído a Lisboa para falar com o Rei seu sobrinho, caindo numa cilada junto à ribeira de Alfarrobeira, perto de Alverca. Dom Pedro, que nem sequer tinha envergado armadura para se proteger em caso de batalha, foi trespassado por uma flecha, caindo morto e sendo o seu corpo vergonhosamente abandonado aos cães durante dias.

A Universidade desejada por Dom Pedro para Coimbra, para a qual tinha destinado bens pessoais, não teve desenvolvimento após a sua morte. A sua memória foi perseguida, só sendo reabilitada pelo seu neto Rei D. João II, o Príncipe Prefeito. Coimbra só viria a ter definitivamente Universidade em 1537, com a transferência de Lisboa realizada por D. João III, tristemente acompanhada pela Inquisição que marcaria a vida intelectual portuguesa durante 285 longos anos.

A maldição que caiu sobre a memória de Dom Pedro, Duque de Coimbra, haveria de durar até aos dias de hoje. Infelizmente, a nossa Cidade tarda em reconhecer o valor de alguém que no século XV tinha a sensibilidade e o conhecimento para escrever que «POESIA É MAIS SABOR DO QUE SABER», a quem Sophia de Mello Breyner dedicou este poema:

Nunca choraremos bastante,

nem com pranto assaz amargo e forte,

aquele que fundou glória e grandeza,

e recebeu em paga insulto e morte.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 18 Maio 2026 

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