Dona Isabel de Aragão, Rainha pela política e pela vontade de outrem:
Nasceu provavelmente em Saragoça em 11 de Fevereiro de 1270. Naquele tempo os casamentos eram apenas contratos os quais, entre a nobreza, constavam frequentemente de acordos políticos entre reinos. Estava-se a muitos séculos do liberalismo e do romantismo que viria a colocar o amor entre pessoas no lugar primeiro da justificação do casamento. O casamento de D. Isabel, filha do Rei Pedro III de Aragão com o Rei D. Dinis de Portugal visou estabelecer boas relações entre os dois reinos peninsulares. Desse casamento nasceram dois filhos, Afonso que haveria de ser o nosso Rei D. Afonso IV e Constança. Também eles seriam destinados a casar, respectivamente, com D. Beatriz de Castela e com o futuro Rei Fernando IV de Castela. Estas trocas de casamentos entre Portugal e Castela acompanhariam a definição final de fronteiras pelo Tratado de Alcanizes firmado em 1297 que praticamente ainda hoje se mantêm.
Dona Isabel, Santa pela vida que escolheu e pela vontade do povo.
Mulher de fortes convicções, a Rainha D. Isabel desde cedo demonstrou uma enorme capacidade como pacificadora numa época marcada por lutas frequentes e graves, mesmo entre membros da mesma família. Aqueles foram tempos de mudanças extremas e de grande implicação futura no desenvolvimento da Europa e também de Portugal. Basta lembrar que a Ordem do Templo foi suspensa pelo Papa Clemente V, (o primeiro Papa com assento em Avignon) em Março de 1312, tendo o seu chefe Tiago de Molay sido queimado em 18 de Março de 1314. O Rei D. Dinis recebeu todos os bens dos Templários em Portugal, criando a Ordem de Cristo, tão importante no futuro.
No meio de todo este tumulto, a Rainha D. Isabel fazia o contrário. Foi pacificadora, quer na guerra civil entre o marido D. Dinis e o seu filho D. Afonso, quer entre o filho já Rei e o Rei de Castela. Usava a sua fortuna pessoal e da sua Casa para exercer caridade junto dos pobres. Aí residiu o motivo para o que a Tradição designou como “Milagre das Rosas”. Ao levar pão para os necessitados, saiu-lhe ao caminho D. Dinis que, dando ouvidos aos que na Corte criticavam D. Isabel como dissipadora dos dinheiros públicos através dos gastos para com os pobres, a inquiriu sobre o que transportava no regaço, certo de que seriam pães para distribuir. A Rainha abriu o regaço e mostrou o que levava após afirmar “são rosas, Senhor”, assim tirando a razão aos que a criticavam e deixando o Rei seu marido sem palavras. Após a morte do rei D. Dinis, em 1325, a Rainha foi viver para Coimbra junto do Mosteiro de Santa Clara.
A sua acção humanitária era de tal dimensão que o povo de Coimbra passou a ter por ela uma devoção impressionante que ainda hoje perdura, visível nas procissões que regularmente são realizadas com a sua imagem. E foi pela pressão do povo de Coimbra que a sua rainha seria santificada em 1625, lembrando-se a data do seu falecimento, 4 de Julho, como o dia da Cidade de Coimbra, sendo a Rainha Santa a padroeira da nossa Cidade.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 13 Julho 2026