segunda-feira, 13 de julho de 2026

SÃO ROSAS, SENHOR

 Dona Isabel de Aragão, Rainha pela política e pela vontade de outrem:

Nasceu provavelmente em Saragoça em 11 de Fevereiro de 1270. Naquele tempo os casamentos eram apenas contratos os quais, entre a nobreza, constavam frequentemente de acordos políticos entre reinos. Estava-se a muitos séculos do liberalismo e do romantismo que viria a colocar o amor entre pessoas no lugar primeiro da justificação do casamento. O casamento de D. Isabel, filha do Rei Pedro III de Aragão com o Rei D. Dinis de Portugal visou estabelecer boas relações entre os dois reinos peninsulares. Desse casamento nasceram dois filhos, Afonso que haveria de ser o nosso Rei D. Afonso IV e Constança. Também eles seriam destinados a casar, respectivamente, com D. Beatriz de Castela e com o futuro Rei Fernando IV de Castela. Estas trocas de casamentos entre Portugal e Castela acompanhariam a definição final de fronteiras pelo Tratado de Alcanizes firmado em 1297 que praticamente ainda hoje se mantêm.

Dona Isabel, Santa pela vida que escolheu e pela vontade do povo.

Mulher de fortes convicções, a Rainha D. Isabel desde cedo demonstrou uma enorme capacidade como pacificadora numa época marcada por lutas frequentes e graves, mesmo entre membros da mesma família. Aqueles foram tempos de mudanças extremas e de grande implicação futura no desenvolvimento da Europa e também de Portugal. Basta lembrar que a Ordem do Templo foi suspensa pelo Papa Clemente V, (o primeiro Papa com assento em Avignon) em Março de 1312, tendo o seu chefe Tiago de Molay sido queimado em 18 de Março de 1314. O Rei D. Dinis recebeu todos os bens dos Templários em Portugal, criando a Ordem de Cristo, tão importante no futuro.

No meio de todo este tumulto, a Rainha D. Isabel fazia o contrário. Foi pacificadora, quer na guerra civil entre o marido D. Dinis e o seu filho D. Afonso, quer entre o filho já Rei e o Rei de Castela. Usava a sua fortuna pessoal e da sua Casa para exercer caridade junto dos pobres. Aí residiu o motivo para o que a Tradição designou como “Milagre das Rosas”. Ao levar pão para os necessitados, saiu-lhe ao caminho D. Dinis que, dando ouvidos aos que na Corte criticavam D. Isabel como dissipadora dos dinheiros públicos através dos gastos para com os pobres, a inquiriu sobre o que transportava no regaço, certo de que seriam pães para distribuir. A Rainha abriu o regaço e mostrou o que levava após afirmar “são rosas, Senhor”, assim tirando a razão aos que a criticavam e deixando o Rei seu marido sem palavras. Após a morte do rei D. Dinis, em 1325, a Rainha foi viver para Coimbra junto do Mosteiro de Santa Clara.

A sua acção humanitária era de tal dimensão que o povo de Coimbra passou a ter por ela uma devoção impressionante que ainda hoje perdura, visível nas procissões que regularmente são realizadas com a sua imagem. E foi pela pressão do povo de Coimbra que a sua rainha seria santificada em 1625, lembrando-se a data do seu falecimento, 4 de Julho, como o dia da Cidade de Coimbra, sendo a Rainha Santa a padroeira da nossa Cidade.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 13 Julho 2026 

COIMBRA EM BOM

 Face à total ausência de boas notícias sobre o SNS, é impossível deixar de realçar nestas linhas duas notícias recentes sobre o SNS em Coimbra representado pela ULS Coimbra.

Não é que Coimbra não seja uma ilha (entre outras) de excepção altamente positiva face ao mar de problemas em que o SNS tem sido pródigo desde há já demasiados anos. Eu próprio sou um exemplo vivo da qualidade dos serviços prestados pelas entidades do SNS com quem tenho tido contacto directo. Começando pela Unidade de Saúde Familiar Cruz de Celas de que sou utente com um Médico de Família atento e competente sempre disponível para dar resposta aos problemas de saúde que vão surgindo. Acabando nos HUC onde já tive intervenções cirúrgicas na Ortopedia e na Cardiotoráxica, onde tive oportunidade, perante situações de menor até extrema gravidade, de comprovar a excelência, não só da organização e capacidade técnica dos serviços, mas sobretudo do cuidado e conhecimento dos profissionais, aos diversos níveis, sejam médicos ou enfermeiros. Como curiosidade, e prova também do que escrevo, de uma vez em que uma queda desastrosa me levou às urgências dos HUC, fui atendido com rapidez e total profissionalismo. Depois de sair, telefonei a um responsável médico do hospital, ao mais alto nível, a felicitá-lo pela prestação de que tinha sido testemunha, que me indagou por que não lhe tinha telefonado a dizer do sucedido. Agradeci, mas respondi que tal seria inteiramente desnecessário por tudo o que tinha testemunhado, isto para além de não me sentir bem se o fizesse, claro.

Para mim, como se percebe, dizer cuidados de saúde é dizer SNS, não há cá seguros de saúde, nem ADSE e, até hoje, não me posso queixar, muito antes pelo contrário.

Nos últimos dias quase passou despercebida uma notícia da maior importância para a nossa região. Foi anunciado que a ULS de Coimbra preencheu vagas clínicas para especialistas em Medicina Geral e Familiar (MGF) que permitem assegurar cobertura total de médico de família na sua área de acção que abrange 10 concelhos e quase meio milhão de utentes. Nada de desculpas de níveis de imigração, que também cá há, nem de falta de médicos ou outras razões na verdade indesculpáveis utilizadas no resto do país para esconder incompetência.

Bem se percebe o orgulho de Francisco Maio Matos, Presidente do Conselho de Administração da ULS de Coimbra que devo dizer, não conheço pessoalmente, ao afirmar que "conseguir cobertura total de médico de família para os utentes da ULS de Coimbra era um objetivo de enorme relevância e um compromisso que conseguimos concretizar e de que muito nos orgulhamos".

É, assim, possível harmonizar os cuidados de saúde primários com o acesso aos serviços especializados de excelência de um hospital central, dentro da área da ULS de Coimbra, um dos principais problemas do SNS na sua generalidade.

Perante este quadro, já não surpreende a notícia de que a ULS Coimbra decidiu reforçar as equipas de urgência para dar resposta às altas temperaturas previstas para os dias que estamos a viver. Os portugueses têm cada vez mais a consciência de que os problemas do SNS que todos os dias vemos nas televisões são, não de dinheiro gasto, mas sim de organização e de gestão. Em Coimbra parece estar a provar-se isso mesmo, trabalhando bem.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 6 de Julho de 2026