Quando está prestes a iniciar-se a utilização efectiva da nova ligação viária entre a Beira Rio/Av. Fernão de Magalhães e a Rua da Sofia a que se decidiu chamar Avenida Dom Sesnando Davides, que era conhecida como Via Central, vai finalmente colocar-se a sério a decisão sobre o futuro papel urbano da Rua da Sofia. Assunto que merece reflexão porque o que for decidido terá certamente implicações a longo prazo na vida do Centro da Cidade.
Até aos anos 80 do sec. passado, a Estação Nova recebia bem cedo pela manhã milhares de pessoas que se deslocavam a Coimbra para trabalhar, ir à Escola, tratar de assuntos de saúde ou apenas administrativos, que chegavam vindos das diversas linhas de longo curso ou regionais. Muitas pessoas vinham também da Linha da Lousã e todas elas atravessavam a velha Baixa a pé dirigindo-se para os destinos ou transportes urbanos. Ao fim do dia faziam o trajecto inverso, aproveitando para fazer algumas compras no numeroso comércio que havia naquelas ruas.
As alterações ferroviárias acabaram com esses fluxos de pessoas. O fecho das ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz ao tráfego automóvel e posteriormente aos transportes públicos permitiu a pedonalização daquelas ruas, mas, progressivamente, o “canal” que antes disso tinha uma utilização intensíssima pelos conimbricenses, passou a passeio de turistas. A zona da “baixa” que, durante séculos, era centro comercial a céu aberto servindo Coimbra e toda a região beirã, perdeu essa valência, sendo comum acusar-se o aparecimento dos “shopping centers” por esse facto, o que mais parece uma desculpa esfarrapada: recordo que, durante todo esse tempo, o único “shopping” verdadeiro de Coimbra era o construído no Vale das Flores em 91/92 cuja reduzida dimensão é evidente.
Assim sendo, enquanto o comércio da “Baixa” se ressentia da fuga dos conimbricenses, os próprios moradores saíram da Baixa. Muitos deles eram comerciantes que moravam nos andares superiores das suas lojas que, fruto das melhorias económicas dos anos 80, foram morar para habitações mais cómodas, mas fora da “Baixa”. Progressivamente foram restando idosos com fracas possibilidades económicas que, aos poucos, foram desaparecendo por razões ditadas pela natureza.
Este problema da falta de moradores passou a ser o mais grave de toda uma zona já com a sua actividade económica muito debilitada.
A Av. D. Sesnando Davides corta este imenso espaço a meio, mas servirá apenas para transportes públicos. Entretanto, a Rua da Sofia já hoje não é praticamente utilizada para o trânsito automóvel citadino porque as pessoas se desabituaram de a usar com o excessivo tempo que as obras de implantação do Metro Mondego têm demorado. Culturalmente, a Rua da Sofia é um património urbano de valor incalculável, mas está integrada numa zona degradada de uma forma impressionante aos mais diversos níveis. Não é possível pensar na sua valorização apenas com alterações de trânsito, devendo antes estas ser integradas num plano urbanístico/cultural coerente que, ligando o passado ao futuro, seja digno da vontade inicial do Rei D. João III ao mandar abrir a Rua de Santa Sofia no sec. XVI.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 27 Julho 2026
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