segunda-feira, 9 de março de 2026

GUERRA NA UCRÂNIA OU AO NOSSO MODO DE VIDA

Escrevo esta crónica no dia em que passam quatro anos sobre a invasão russa à Ucrânia iniciada em 24 de Fevereiro de 2022, que se seguiu à ocupação militar da Crimeia em 2014 e consequente integração da península na Federação russa.

Se há algo que caracteriza a clique dirigida por Putin que lembro, é um antigo oficial do KGB, é um ódio profundo a tudo o que o Ocidente representa, designadamente o liberalismo económico e em geral as liberdades individuais que representam toda uma Cultura que respeita os direitos humanos. A que acresce um desprezo profundo por aquilo a que chamam a “velha ordem internacional” incluindo tratados assinados e leis da guerra. Putin adoraria poder levar para as relações internacionais a sua prática interna que leva os críticos a saltar dos 13ºs andares ou a morrer envenenados como aconteceu com Alexei Navalny.

Para uma ditadura como a dirigida por Putin e a coorte plutocrata completamente dependente das suas ordens, a revolta popular ucraniana contra a vitória do candidato pró-russo Viktor Yanukovych constituía um susto enorme, pela possibilidade de alastrar ao próprio povo russo. Por outro lado, a manifesta vontade da Ucrânia em se virar para a Europa Ocidental abandonando o velho “abraço russo” constituía outra manifesta “traição” à histórica hegemonia russa traduzida pelo velho Império e pela ex-URSS.

Daí a invadir a Ucrânia em larga escala foi um passo de que, passados quatro anos de guerra, Putin deverá estar amargamente arrependido, mas nunca reconhecerá tal sentimento, porque isso ditaria o seu próprio fim. De uma forma inesperada, aquilo que os russos sonharam que seria uma vitória a alcançar em três dias com a conquista da capital ucraniana tornou-se um pesadelo para as suas tropas. O comboio de tanques que se dirigia para Kyiv foi completamente desbaratado e as conquistas territoriais alcançadas nos primeiros dias foram, em grande parte, reconquistadas pelos soldados ucranianos. Desde então a guerra evoluiu inesperadamente para uma guerra de trincheiras que faz lembrar a selvática luta corpo a corpo da I Guerra Mundial.

As baixas de um lado e outro são terríveis, mas os ucranianos estão a lutar pela soberania do seu país, ao contrário dos russos que obedecem a ordens completamente irresponsáveis de Moscovo. Se há alguém que nesta guerra está mais perto da derrota é a Rússia, assim o Ocidente não abandone os ucranianos. Segundo o Economist as baixas russas andam entre 1,1 e 1,4 milhões dos quais mais de 300.000 são mortos. Só para comparação, no Vietname morreram 58.000 americanos e as consequências sociais foram as que se conhecem. Isto é, o maior problema de Putin, na actualidade, será manter o próprio povo russo sem se revoltar em larga escala. Acresce que as sanções internacionais estão finalmente a obter resultados na economia russa: das 554 ton. de ouro detidas pela Rússia em 2022, restam apenas 160 e o défice orçamental oficial em 2025 foi de 72 mil milhões de dólares.

A Ucrânia está a sofrer bombardeamentos massivos das suas cidades todas as noites porque, na frente de batalha, os russos estão a morrer às dezenas de milhares por mês. Perante a actual liderança americana, chegou a altura da Europa democrática se unir e apoiar a Ucrânia com todas as suas forças, porque representa hoje a frente de batalha contra a tirania e a opressão que há 90 anos era representada pelas forças fascistas e nazis.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em  2 de Março de 2026

 

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