O papel das mulheres na sociedade foi variando muito ao
longo dos tempos e diferentes civilizações. Se na Antiguidade houve
civilizações que atribuíam à mulher um papel activo e relevante, na nossa
sociedade ocidental, de matriz essencialmente cristã, a Mulher teve o seu
destino marcado pela maternidade e modelo familiar pré-definido em consequência
disso. A afirmação pessoal das mulheres ficou durante séculos dependente desse
modelo rígido e só surgiu em pleno a partir do momento em que a possibilidade
do planeamento familiar passou a ser uma realidade, já a meio do século XX.
Mas a afirmação profissional generalizada demorou ainda
muitos anos a ser uma realidade e é ainda, entre nós, muito limitada e de
difícil concretização, para além das áreas tradicionais ligadas ao ensino ou à
saúde. Será bom que as leis das quotas, através das quais a sociedade faz uma
discriminação positiva às minorias, seja desnecessária no que respeita às
mulheres dentro de pouco tempo, até pelos efeitos perversos que provoca, muitas
vezes contrários à afirmação própria das mulheres.
O mundo está a mudar a uma velocidade espantosa em muitas
áreas e também nesta, podendo prever-se grandes alterações sociais para as
próximas décadas. As mulheres começaram a chegar a lugares de topo na gestão de
grandes empresas e também de organismos que até há pouco estavam historicamente
reservados a homens. O caso de Christine Lagarde, actual directora geral do FMI
é o mais conspícuo a nível mundial.
Mas as mulheres dirigentes no mundo económico e
financeiro de topo não surgem apenas em cargos ligados à administração pública.
Também muitas grandes empresas têm hoje mulheres nos seus lugares de maior
responsabilidade, o que começa já a não ser excepção e sim normal.
Por qualquer motivo, a indústria automóvel apareceu desde
sempre associada aos homens, talvez pela ligação ao desporto automóvel, um
domínio masculino clássico, com muito raras excepções, de que destaco Michelle
Mouton nos rallies.
Assim, aparece ainda como facto de realce que a segunda
maior construtora automóvel do mundo, a General Motors, tenha hoje uma mulher à
frente da sua administração. Engenheira Electrotécnica de formação, Mary Barra
dirige um conglomerado presente em seis continentes que emprega 212.000 pessoas
e que recupera de uma situação de pré-falência em 2009, tendo já devolvido o
apoio financeiro estatal que recebeu na altura e regressado aos resultados
positivos a nível mundial. Mas outras grandes empresas têm hoje mulheres à
frente dos seus destinos. É o caso da IBM, dirigida por Ginni Rometty, bem como
da Pepsi Cola com Indra Nooyi, da Hewlett Packard com Meg Whitman, da Lockeed
Martin com Marilyn Hewson ou da Yahoo com Marissa Mayer.
Estes são, evidentemente, casos americanos. De facto, o
número de mulheres americanas com responsabilidades de topo em grandes empresas
é superior ao número equivalente de todo o resto do mundo, sendo a Europa a
segunda região com mais mulheres em lugares de topo, mas com a Ásia a
aproximar-se rapidamente.
Não discuto se o facto de serem mulheres introduz alguma
diferença relativamente à actuação dos homens em lugares semelhantes e,
sinceramente, nem é isso que aqui está em causa. Importa, sim, saudar o facto
de o mundo passar a ser mais equilibrado e respeitador de todas as pessoas como
tal e não em função de género ou outras razões. E isso já é suficientemente
positivo.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 3 de Março de 2014
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