terça-feira, 31 de março de 2026

SOCIEDADE A PRETO E BRANCO

 

A tendência para que as posições sociais e políticas se tornem intolerantes não é dos nossos dias, antes acompanhou o desenvolvimento de ideias filosóficas durante séculos.

Sabemos que a possibilidade da defesa de opiniões diversas no espaço público e o diálogo em liberdade são traços fundamentais da democracia. Contudo, nos nossos dias, assistimos a um aumento notório da intolerância que, se já nem sempre nos surpreende, carrega consigo consequências sociais não desprezáveis.

Curiosamente, a evolução da tecnologia trouxe consigo possibilidades de comunicação com que dantes nem podíamos sonhar. Poderíamos supor que assim que se teriam aberto portas de diálogo e abertura que aprofundariam a democracia com vantagens para todos. Mas, na verdade, todos temos a noção de que tal não se verifica.

A internet trouxe as chamadas redes sociais. Em vez de redes, bem se poderiam chamar prisões sociais. Tomadas pela publicidade, os algoritmos encarregaram-se de conhecer as preferências e gostos de cada um e de dar respostas em conformidade. Assim se foram apartando de cada um de nós as opiniões diferentes em termos de produtos e serviços, mas também, e aí está o problema, no que respeita às preferências sociais e políticas. Todos nós, ao fim de algum tempo, apenas temos acesso àquilo que as redes acham que é do nosso agrado. Surgem-nos produtos e também “amigos” que, à partida, estarão de acordo connosco, assim se evitando discussões e opiniões diferentes, numa “paz dos anjos” completamente artificial e monocórdica afastando-se do diálogo que, como é sabido, exige esforço de argumentação e ideias sólidas, num extremar cada vez mais evidente e falho de sentido.

Entretanto, na senda da antiga CNN, as estações de televisão generalistas montaram canais que dão notícias 24h sobre 24 horas, num rodopio de transformar factos banais em escândalos e de inventar problemas onde, na realidade, eles não existem. Tudo num afã de conseguir maiores “shares” do que a concorrência.

Aos debates entre representantes dos diversos partidos que, à partida se sabe estarem a “puxar a brasa à sua sardinha” o que significa apresentar a realidade de forma mais favorável, seguiram-se os painéis de “comentadores”. Aí, como só alguns espectadores mais atentos ou mais privilegiados têm conhecimento das “simpatias” de cada um, são dadas opiniões e muitas vezes explicações sobre a realidade, que acontece serem filtradas com objectivos escondidos. Com outra agravante. As opiniões dos representantes dos partidos, que sabem bem que “não se apanham moscas com vinagre”, amaciam as mensagens para não assustar os espectadores. Já as opiniões supostamente “independentes” dos comentadores dos diversos painéis são cada vez mais extremadas levando a que os simpatizantes de um e outro lado as sigam de forma acrítica e cega com os reflexos que se veem na sociedade.

Como se sabe, ao contrário do que surge nesses painéis, a realidade não é preta nem branca, havendo uma infinidade de cores e tons, também na sociedade, mesmo na política. Tenhamos o bom-senso de não seguir falsos profetas e, sobretudo, de questionar tudo o que nos dizem na televisão e na net.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 22 de Março de 2026 

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