quinta-feira, 9 de abril de 2026

O QUE VEMOS, OUVIMOS E LEMOS

 

Já tínhamos tido anteriormente a experiência de observar uma guerra em directo. Mas nunca como desta vez foi possível dispor de uma variedade tão grande de comentadores televisivos a opinar sobre os acontecimentos. À quase infinidade de especialistas em relações internacionais junta-se uma variedade de especialistas militares, praticamente todos generais, que nos deixa perplexos. Para começar é difícil perceber como é possível um país com umas Forças Armadas tão reduzidas produzir uma tão grande quantidade de generais, imagino que todos eles já fora do activo. Por outro lado, sendo Portugal um país integrante de uma aliança como a NATO mal se percebe que alguns desses generais mais pareçam porta-vozes do regime de um país claramente em conflito com o ocidente, como é a Rússia.

Todos esses comentadores explicam como funcionam os mais diversos artefactos de guerra, a distância a que são letais, as respectivas contra-medidas, etc. Desde o tempo da guerra do arco e flecha, se há coisa que o Homem tem evoluído é em encontrar novos processos de matar a distâncias cada vez maiores e mais gente de cada vez. Pode mesmo afirmar-se que, durante as guerras, a evolução da tecnologia acelera de uma forma muito superior aos tempos de paz. Vá lá que, terminados os conflitos, se torna possível utilizar muitas dessas invenções para fins pacíficos e de utilização generalizada, como acontece com o GPS. Mas, entretanto, a capacidade de invenção humana para matar semelhantes continua a mostrar-se de forma imparável. Aqueles brinquedos que nos divertiam há bem poucos anos, os drones, passaram a ser das armas mais letais e de utilização mais fácil, mesmo para soldados individuais. Tal como os drones anti-drones, agora dotados de inteligência artificial, que conseguem defender contra máquinas semelhantes, mas mesmo contra mísseis. Aliás, a inteligência artificial domina cada vez mais os teatros de guerra, utilizando a informação recolhida por satélites e internet para seguidamente ordenar o lançamento de contra-medidas e orientando-as até aos alvos, sem intervenção humana no processo. Como em tantos aspectos da vida humana, as preocupações éticas que surgem no início da utilização de novas possibilidades de intervenção rapidamente são ultrapassados em face da possibilidade de garantir êxitos, neste caso militares. Infelizmente, a posição tomada pela empresa Anthropic, a segunda maior de inteligência artificial do mundo, opondo-se à utilização dos seus algoritmos para fins militares deverá estar, mais cedo o mais tarde, destinada ao fracasso. Há sempre alguém que coloca os lucros imediatos à frente das preocupações éticas.

Todos estes aspectos importantes, mas parciais, são sistematicamente abordados pelos comentadores televisivos. Mas o fundamental, isto é, as estratégias e mudanças radicais que se estão a fomentar e mesmo já a verificar-se na construção de uma ordem mundial muito diferente da que até aqui conhecíamos são as mais das vezes completamente esquecidas. 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em  6 Abril 2026

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