segunda-feira, 27 de abril de 2026

HERMENÊUTICA DO LAPSO

 

Segundo os dicionários, lapso significa um esquecimento momentâneo, um descuido dele decorrente ou um engano involuntário. Quem, principalmente a partir de uma certa idade, não cometeu lapsos? Já um erro é algo de diferente, por ser o que resulta de uma má compreensão ou de uma análise deficiente de um facto ou de um assunto: é, na verdade, algo mal feito.

Num tempo em que as estações de televisão passaram, durante as 24 horas em que estão no ar, a oferecer entretimento e espectáculo travestido de informação, são às dezenas, ou mesmo centenas, as personalidades especialistas de tudo e mais alguma coisa que comentam e fazem por explicar a realidade. Como estão a decorrer algumas guerras em locais importantes para o andamento da economia mundial, esta catadupa de comentadores e jornalistas atinge mesmo o paroxismo. Claro que os dislates ditos são permanentes e evidentes a qualquer espectador que ainda tenha a paciência de os ouvir. Acresce que muitos dos intervenientes nas mais diversas matérias são parte interessada, embora o não digam expressamente, disfarçando uma agenda própria ou do partido ou outra agremiação a que pertençam sob a capa de uma pretensa independência. Esta doença social alastra mesmo pela classe jornalística, algo que não deveria acontecer nunca e que tem efeitos nefastos sobre a sua necessária credibilidade.

A jornalista Judite de Sousa não é uma jornalista qualquer. Tem uma carreira de dezenas de anos e ocupou cargos de chefia em redacções de importância nacional. Num destes dias num dos tais programas televisivos em que se comentava a actualidade e, em concreto, a guerra no Médio Oriente, foi dito que Donald Trump não conhece a História, o que me parece de uma evidência cristalina. Contudo, a jornalista resolveu exemplificar ou explicar a participação dos EUA emu guerras e não encontro melhor para tal do que afirmar que o Japão só atacou a América em Pearl Harbour depois de levar com duas bombas atómicas em cima. Entendamo-nos: o ataque a Pearl Harbour aconteceu a 7 de Dezembro de 1941 e ditou a entrada dos EUA na II Guerra Mundial; as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki foram lançadas, respectivamente, em 6 e 9 de Agosto de 1945 e ditaram a rendição do Japão e fim da guerra, já que a Alemanha se tinha rendido em 8 de Maio desse mesmo ano.

O significado destes acontecimentos não permite qualquer hesitação sobre os momentos em que ocorreram para um cidadão minimamente informado e, por maioria de razão, para um jornalista profissional. Não se trata de um lapso trocar a ordem por que sucederam. Lapso seria trocar os dias do mês ou os nomes dos países envolvidos, nunca a ordem cronológica. Infelizmente, trata-se do exemplo maior dos disparates ditos nas televisões por estes dias nas televisões. Tão grande ele é, que a princípio duvidei da sua veracidade, tendo ido rever a passagem uma e outra vez. Mas não, passou-se assim mesmo.

Claro que deste erro clamoroso não vem mal ao mundo, servindo apenas de aviso para os telespectadores mais incautos ou mais distraídos que, naturalmente, fazem fé naquilo que lhes é fornecido. Já a tentativa de classificar o erro como um lapso, implicando a falta de necessidade de clarificação e inerente de desculpas, essa sim, é indesculpável em si mesma 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 27 Abril 2026 

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