segunda-feira, 10 de agosto de 2026

AGOSTO DO NOSSO DESCONTENTAMENTO

 Já lá vai o tempo em que Agosto era a “silly season” em que as notícias eram patetas e nos divertiam enquanto os nossos cérebros descansavam dos trabalhos do resto do ano. Não sei se os tempos que vivemos são uma excepção que não constituirá regra para o futuro, mas receio bem que continue esta sensação de que, quando julgamos que batemos no fundo, acabamos por descobrir que ainda se pode descer mais.

Quando o primeiro-Ministro escolheu o chefe de uma polícia, ainda por cima a Judiciária para ministro pareceu-me, e assim o escrevi, um tremendo disparate. Isto independentemente da personalidade, de quem nada conhecia, a não ser uma evidente boa imagem junto da comunicação social. O tempo não demorou muito a dar-me razão e hoje o ainda Ministro da Administração Interna mais parece um animal ferido cercado por uma alcateia faminta de carne. De todas as situações por que tem sido atacado, uma delas, logo a primeira a ser conhecida, seria suficiente, a meu ver, para uma imediata demissão: a contratação privada de uma empresa que trabalhava para a Instituição de que era responsável máximo. Devo dizer que boa parte das outras situações me parecem algo patéticas, desde a discussão entre tanque e piscina até à recolha de uma galera num armazém privado num informalismo inaceitável perante o ordenamento jurídico. Mas a força da campanha orquestrada contra Luís Neves é evidente, tal como a sua origem, só não vê quem não quer, o problema maior é que se pôs a jeito.

Já o Ministro da Educação sofre ataques, não pela sua conduta antes de ser ministro, mas por ser mesmo reformador num país que sabe que precisa de reformas, mas que se levanta indignado quando elas acontecem. Independentemente dos defeitos e erros do procedimento adoptado para a correcção dos exames, a questão de fundo é a reforma que está a ser levada a cabo num ministério que é há muito tempo palco de actuação das mais diversas e poderosas corporações. Corporações essas com um acesso à comunicação social que amplifica os problemas a ponto de invocar um caos que nunca existiu, como agora é evidente. Não está em causa a liberdade de acção da comunicação social, mas atitudes dos seus agentes, e não lhes chamo jornalistas de propósito, que apenas ajudavam a lançar achas para a fogueira com propósitos inconfessáveis.

Independentemente do que cada um de nós possa pensar sobre quem realizou o alegado assalto às instalações de um partido, no caso o Chega que é o segundo maior partido representado na Assembleia da República, o que se passou é algo que vai muito para além do aceitável. Este acontecimento que, estranhamente, a comunicação social parece estar a deixar cair no esquecimento, constitui um verdadeiro atentado à Democracia. Está em causa a guarda de documentação partidária na sede da própria representação da vontade do povo, que é a Assembleia da República. Este assunto não pode ser deixado impune, seja de que maneira for, exigindo-se a publicação urgente das conclusões do inquérito policial para que os portugueses saibam o que se passou e tirem as suas conclusões.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 10 de Agosto de 2026 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

A UCRÂNIA E O FUTURO DA EUROPA

 O horror da guerra na Ucrânia continua. Não conseguindo conquistar mais território ucraniano, Putin bombardeia indiscriminadamente zonas residenciais das principais cidades, provocando morte de famílias inteiras. Para isso utiliza drones e mísseis balísticos com centenas de quilos de explosivos, para provocar o maior número possível de estragos e mortes. Pensará, assim, dobrar a vontade daquele heróico povo, mas só tem conseguido provocar mais resistência e aumentar um sentimento de repúdio ou mesmo ódio que certamente durará muito para além do fim desta guerra. Sim, que ela terá também um fim, como todas as guerras do passado.

E o passado diz-nos que Hitler invadiu a então União Soviética que resistiu durante três anos antes de forçar as forças nazis a recuar até Berlim. Desde Fevereiro de 2022, já lá vão mais de quatro anos, a Rússia de Putin não conseguiu mais do que a actual situação, contra um país muito mais pequeno, mas que se agigantou com a invasão. Não é ainda uma derrota, mas a Rússia está ainda mais longe de uma vitória. Ouvir hoje os responsáveis russos diz muito sobre o seu estado de espírito e aquilo que receiam. Medvedev confessa agora que a Rússia não pode sobreviver sem uma vitória sobre a Ucrânia, enquanto acusa as “potências ocidentais” de estarem a usar a Ucrânia para destruir a Rússia. Já o ministro Lavrov afirma que a exigência de um cessar-fogo antes das negociações é um ultimato à Rússia.

Os responsáveis russos temem verdadeiramente aquilo que já intuem ter uma grande probabilidade de acontecer, mais cedo ou mais tarde, agora que a Ucrânia encontrou forma de levar a guerra ao interior da Rússia assim mostrando ao povo russo a verdade desta guerra. O actual regime russo vai cair levando na queda os seus líderes políticos e responsáveis pela situação que sabem bem o que lhes poderá acontecer nessa altura. Os oligarcas que fizeram fortunas colossais com a corrupção moral e económica de Putin gostaram de enriquecer, mas não estão dispostos a pagar para defender quem os enriqueceu e essa mudança já está a acontecer. A possibilidade de nova implosão do regime como sucedeu em 1990 é cada vez maior, tal como a probabilidade de separação de numerosas províncias, acabando com a Rússia dos 11 fusos horários que hoje conhecemos.

Pelo lado da Ucrânia e da Europa a que já pertence “de coração”, mas a que virá a pertencerá por inteiro, há também mudanças grandes no horizonte. Se por um lado na União Europeia que não deixou cair a Ucrânia, e bem, não se vislumbra qualquer liderança efectiva, o Presidente Zelensky ganhou um prestígio e uma capacidade de negociação sem par entre os responsáveis europeus. Quando esta guerra terminar ele será a voz mais importante da Europa e um verdadeiro líder europeu.

Tudo o que Putin conseguiu com esta guerra estúpida foi ampliar a NATO, unir os países europeus, torná-los mais independentes dos EUA e aumentar de forma impressiva os gastos europeus com a defesa. Para além de voltar a colocar a Alemanha, agora democrática, no centro das políticas europeias a nível económico, mas também, ou sobretudo, militar. O seu regime merece bem o que lhe está para acontecer.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 3 de Agosto de 2026