Já lá vai o tempo em que Agosto era a “silly season” em que as notícias eram patetas e nos divertiam enquanto os nossos cérebros descansavam dos trabalhos do resto do ano. Não sei se os tempos que vivemos são uma excepção que não constituirá regra para o futuro, mas receio bem que continue esta sensação de que, quando julgamos que batemos no fundo, acabamos por descobrir que ainda se pode descer mais.
Quando o primeiro-Ministro escolheu o chefe de uma polícia, ainda por cima a Judiciária para ministro pareceu-me, e assim o escrevi, um tremendo disparate. Isto independentemente da personalidade, de quem nada conhecia, a não ser uma evidente boa imagem junto da comunicação social. O tempo não demorou muito a dar-me razão e hoje o ainda Ministro da Administração Interna mais parece um animal ferido cercado por uma alcateia faminta de carne. De todas as situações por que tem sido atacado, uma delas, logo a primeira a ser conhecida, seria suficiente, a meu ver, para uma imediata demissão: a contratação privada de uma empresa que trabalhava para a Instituição de que era responsável máximo. Devo dizer que boa parte das outras situações me parecem algo patéticas, desde a discussão entre tanque e piscina até à recolha de uma galera num armazém privado num informalismo inaceitável perante o ordenamento jurídico. Mas a força da campanha orquestrada contra Luís Neves é evidente, tal como a sua origem, só não vê quem não quer, o problema maior é que se pôs a jeito.
Já o Ministro da Educação sofre ataques, não pela sua conduta antes de ser ministro, mas por ser mesmo reformador num país que sabe que precisa de reformas, mas que se levanta indignado quando elas acontecem. Independentemente dos defeitos e erros do procedimento adoptado para a correcção dos exames, a questão de fundo é a reforma que está a ser levada a cabo num ministério que é há muito tempo palco de actuação das mais diversas e poderosas corporações. Corporações essas com um acesso à comunicação social que amplifica os problemas a ponto de invocar um caos que nunca existiu, como agora é evidente. Não está em causa a liberdade de acção da comunicação social, mas atitudes dos seus agentes, e não lhes chamo jornalistas de propósito, que apenas ajudavam a lançar achas para a fogueira com propósitos inconfessáveis.
Independentemente do que cada um de nós possa pensar sobre quem realizou o alegado assalto às instalações de um partido, no caso o Chega que é o segundo maior partido representado na Assembleia da República, o que se passou é algo que vai muito para além do aceitável. Este acontecimento que, estranhamente, a comunicação social parece estar a deixar cair no esquecimento, constitui um verdadeiro atentado à Democracia. Está em causa a guarda de documentação partidária na sede da própria representação da vontade do povo, que é a Assembleia da República. Este assunto não pode ser deixado impune, seja de que maneira for, exigindo-se a publicação urgente das conclusões do inquérito policial para que os portugueses saibam o que se passou e tirem as suas conclusões.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 10 de Agosto de 2026
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