Não andarei muito longe da verdade se disser que o “Encontro de Davos” de 2026 foi muito para além do habitual neste habitual encontro de personalidades da política internacional, da economia mundial e de empreendedores globais. O discurso que o Presidente americano Donald Trump trazia preparado e leu perante a assistência, e que muito provavelmente foi escrito pelo seu conselheiro Stephen Miller, chocou quem o ouviu. A violência e suprema arrogância das palavras quer atacaram directamente países que há dezenas de anos pertencem à mesma aliança militar e até agora partilhavam valores civilizacionais comuns ultrapassaram todos os limites.
Donald Trump aproveitou Davos para concretizar aquilo a que chamou Conselho de Paz (Board of Peace) que a princípio se destinaria a assegurar a reconstrução da Faixa de Gaza dentro daquela sua ideia de lá construir a “Riviera do Oriente” como já lhe chamou. Nada que surpreenda atendendo à sua predilecção pelos negócios acima da política e, em particular, pela promoção imobiliária de luxo.
Contudo, este denominado Conselho de Paz já vai muito para além daquele objectivo limitado no tempo e no espaço físico. Os seus objectivos alargaram-se visando agora constituir uma “organização internacional destinada promover estabilidade, restaurar governação legal e assegurar uma paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”. Assim Donald Trump atropela os fins da ONU, enquanto afirma sentir-se “honrado” por presidir a uma nova instituição internacional criada por ele próprio, “mais eficaz” do que as instituições hoje existentes. Para tal convidou cerca de 60 países a integrarem o Conselho de Paz, estabelecendo uma verba de ingresso de mil milhões de dólares por cada país. O seu documento de constituição, a chamada “Carta do Conselho de Paz”, foi assinado em Davos pelos líderes de cerca de 35 países entre os quais, contudo, não se encontra a esmagadora maioria dos países membros da NATO, com os países europeus à cabeça, mas incluindo já a Hungria e a Turquia.
Sem surpresas, o Conselho de Paz tem um órgão de gestão superior constituído por seis norte-americanos e ainda pelo antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair. Evidentemente todos escolhidos directamente por Donald Trump e basicamente um grupo de homens de negócios a querer governar o mundo.
O discurso do Presidente americano em Davos abordou ainda a questão da Gronelândia. Embora tenha reafirmado a vontade de posse da ilha por parte dos EUA, curiosamente não colocou em cima da mesa a hipótese de conquista militar. E, no final do Encontro, numa reunião com o Sec. Geral da Nato Mark Rutte, Donald Trump terá chegado a acordo com a aliança militar numa solução que garantirá aos EUA a segurança militar do Ártico mas também a exploração das riquezas naturais daquele território.
Os sinais de que a ordem mundial que conhecemos está em ruptura já são mais que apenas sinais, são uma certeza. Do que não temos a certeza é se a nova situação internacional será melhor e mais segura do que aquela.
Visto 1054, publicado originalmente no Diário de Coimbra de 26 Janeiro 2026