terça-feira, 31 de março de 2026

O EXEMPLO DA UCRÂNIA

 

A guerra da Ucrânia parece esquecida dos noticiários das televisões. Não devia. Já dura há mais de quatro anos, quase tantos como os da II Guerra Mundial.

Na guerra de invasão que a Federação Russa barbaramente leva a cabo na Ucrânia já morreram centenas de milhares de pessoas, militares e civis. A mesma Rússia que invade um país soberano, clama agora contra a violação do direito internacional na guerra do Irão numa demonstração de hipocrisia sem limites. Entretanto, a tal vitória russa que seria obtida em três dias através da conquista da capital e substituição do governo dito “pró-nazi” esfumou-se numa resistência impressionante do povo ucraniano liderado pelo mais improvável dos presidentes. A vitória russa seria hoje conseguida apenas com a ocupação de uma parte do território ucraniano. Já para uma vitória ucraniana chegaria a defesa da integridade do seu território.

O que se passa na frente de batalha é que a Ucrânia se está a revelar um adversário poderoso, capaz de utilizar novas tecnologias de uma forma poderosa e eficiente. O exemplo de Kupyansk é paradigmático disso mesmo: na semana passada esta cidade foi completamente recuperada pelas forças ucranianas.

À força bruta do invasor russo que utiliza tácticas antigas com material pesado e muitos homens no terreno, a Ucrânia opõe novas tácticas inteligentes e adaptativas desenvolvidas durante estes anos de guerra de resistência. As unidades russas são sistematicamente atraídas para locais previamente armadilhados sendo vítimas de ataques coordenados de drones e artilharia em posições cuidadosamente escolhidas. A utilização de informação é essencial nesta guerra, sendo os militares russos sistematicamente “apanhados” com baixas impressionantes, numa média diária de mais de mil nos últimos meses. A produção ucraniana de drones explodiu e a sua utilização e controlo é hoje feita localmente, de forma a ampliar a eficácia, simultaneamente preservando as forças ucranianas.

As perdas russas têm sido brutais, em equipamento e em baixas humanas. Nas armadilhas ucranianas em que caem, sistematicamente dezenas de tanques e de veículos de transporte são obliterados.

Por outro lado, nestes anos de guerra a Ucrânia desenvolveu uma indústria de guerra que lhe tem permitido atacar a própria Rússia no interior do seu território onde lhe dói mais: na indústria petrolífera, fonte principal dinheiro do orçamento russo.

Assim ultrapassou uma limitação a que o Ocidente (EUA e Europa) a sujeitou, que foi o de não lhe fornecer armas de longo alcance: como se um país atacado não pudesse responder ao invasor e se devesse limitar a defender o seu território.

Não por acaso, na semana passada o presidente russo apelou aos oligarcas para que financiem "voluntariamente" a campanha militar na Ucrânia, numa reunião à porta fechada. Por outro lado, os ataques russos a alvos puramente civis na Ucrânia acentuaram-se nos últimos dias, incluindo, no passado dia 23, o bombardeamento do Mosteiro de Lviv do sec. XVII, Património Mundial da Unesco.

Os ucranianos são um exemplo para todos nós. Assim o Ocidente democrático e liberal saiba corresponder.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 30 de Março de 2026 

SOCIEDADE A PRETO E BRANCO

 

A tendência para que as posições sociais e políticas se tornem intolerantes não é dos nossos dias, antes acompanhou o desenvolvimento de ideias filosóficas durante séculos.

Sabemos que a possibilidade da defesa de opiniões diversas no espaço público e o diálogo em liberdade são traços fundamentais da democracia. Contudo, nos nossos dias, assistimos a um aumento notório da intolerância que, se já nem sempre nos surpreende, carrega consigo consequências sociais não desprezáveis.

Curiosamente, a evolução da tecnologia trouxe consigo possibilidades de comunicação com que dantes nem podíamos sonhar. Poderíamos supor que assim que se teriam aberto portas de diálogo e abertura que aprofundariam a democracia com vantagens para todos. Mas, na verdade, todos temos a noção de que tal não se verifica.

A internet trouxe as chamadas redes sociais. Em vez de redes, bem se poderiam chamar prisões sociais. Tomadas pela publicidade, os algoritmos encarregaram-se de conhecer as preferências e gostos de cada um e de dar respostas em conformidade. Assim se foram apartando de cada um de nós as opiniões diferentes em termos de produtos e serviços, mas também, e aí está o problema, no que respeita às preferências sociais e políticas. Todos nós, ao fim de algum tempo, apenas temos acesso àquilo que as redes acham que é do nosso agrado. Surgem-nos produtos e também “amigos” que, à partida, estarão de acordo connosco, assim se evitando discussões e opiniões diferentes, numa “paz dos anjos” completamente artificial e monocórdica afastando-se do diálogo que, como é sabido, exige esforço de argumentação e ideias sólidas, num extremar cada vez mais evidente e falho de sentido.

Entretanto, na senda da antiga CNN, as estações de televisão generalistas montaram canais que dão notícias 24h sobre 24 horas, num rodopio de transformar factos banais em escândalos e de inventar problemas onde, na realidade, eles não existem. Tudo num afã de conseguir maiores “shares” do que a concorrência.

Aos debates entre representantes dos diversos partidos que, à partida se sabe estarem a “puxar a brasa à sua sardinha” o que significa apresentar a realidade de forma mais favorável, seguiram-se os painéis de “comentadores”. Aí, como só alguns espectadores mais atentos ou mais privilegiados têm conhecimento das “simpatias” de cada um, são dadas opiniões e muitas vezes explicações sobre a realidade, que acontece serem filtradas com objectivos escondidos. Com outra agravante. As opiniões dos representantes dos partidos, que sabem bem que “não se apanham moscas com vinagre”, amaciam as mensagens para não assustar os espectadores. Já as opiniões supostamente “independentes” dos comentadores dos diversos painéis são cada vez mais extremadas levando a que os simpatizantes de um e outro lado as sigam de forma acrítica e cega com os reflexos que se veem na sociedade.

Como se sabe, ao contrário do que surge nesses painéis, a realidade não é preta nem branca, havendo uma infinidade de cores e tons, também na sociedade, mesmo na política. Tenhamos o bom-senso de não seguir falsos profetas e, sobretudo, de questionar tudo o que nos dizem na televisão e na net.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 22 de Março de 2026 

QUANDO A DEMOCRACIA FUNCIONA

 

Tomou posse o novo Presidente da República. Muitos dirão que é a democracia a funcionar. Como sempre, os portugueses terão sentimentos diferentes: uns satisfeitos por o seu candidato preferido ter sido o escolhido nas urnas, outros aliviados por terem votado, com bom resultado, contra quem não queriam ver no cargo e outros ainda resignados por a sua escolha não ter sido a do povo português. Da minha parte os meus votos das maiores felicidades ao Presidente António José Seguro, que o seu sucesso no exercício do cargo será o sucesso dos portugueses, disso não tenhamos dúvidas.

Seguro é o sexto Presidente da República em Democracia. Todos os anteriores cumpriram dois mandatos, pelo que será de esperar que também ele seja Presidente durante dez anos, até ao início de 2036. Na realidade, enquanto todos os outros órgãos do Estado se encontram em permanente convulsão, com eleições parlamentares e novos governos em sucessivas entradas e saídas, no que respeita ao Presidente da República, os portugueses entregam uma confiança inaudita. Eles são sentidos pelo povo em geral como o garante da continuidade institucional e parece só saírem porque a Constituição assim o determina.

Como é habitual, houve festa, cumprimentos e nem faltaram os comentários sobre o vestuário usado na cerimónia pela mulher do Presidente, que há quem se dedique a tudo, até a esses aspectos e daí não vem mal ao mundo, é apenas divertimento para os demais.

Foi notório o desapego do Presidente Marcelo à saída do cargo tornando-se evidente que, nos momentos anteriores à tomada de posse do novo presidente, já se sentia como um cidadão comum a passear pela rua e como tal agia. Marcelo foi um Presidente que se sentia bem junto das pessoas concretas, uma a uma. Nos últimos anos foi patente o seu desconforto causado pela notória injustiça de acusações sobre um caso de saúde em que foi apanhado no meio de atitudes incorrectas. Não lhe terá sido nada fácil ser acusado daquilo que nunca foi, nem do que nunca praticou na sua vida. Por tudo isso e muito mais, a minha humilde homenagem.

E é a este aspecto, o da saída do anterior Presidente, que gostaria de dedicar o essencial desta crónica. De todos os comentários que li e ouvi sobre esta cerimónia, nenhum se debruçou sobre o significado mais importante da mesma. De facto, para um novo presidente entrar, há outro que sai. E é nesta saída, pacífica e até festiva, que reside o verdadeiro significado republicano da Democracia. O presidente que sai foi também eleito anteriormente, mas abandona o cargo porque é esse o cerne da Democracia. O poder é exercido em nome e por escolha do povo, mas é efémero: tem um limite temporal previamente determinado. As eleições substituem as revoluções. Quem estava sai sem confusões nem derramamento de sangue e é aí que está a beleza do regime democrático.

A verificação do funcionamento da Democracia é feita, assim, não pela entrada de um novo governante, mas pela forma como o anterior sai de cena. E o que acabámos de ver no Palácio de Belém é isso mesmo: mais uma vez, a Democracia a funcionar.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 16 Março 2026