terça-feira, 21 de abril de 2026

MORTANDADE NAS NOSSAS RUAS E ESTRADAS

Desde o início deste ano, e só vamos a meio de Abril, já morreram cerca de 150 pessoas em acidentes rodoviários em Portugal. É certo que a taxa de mortalidade rodoviária tem diminuído entre nós nos últimos anos, mas os valores ainda são muito superiores aos verificados em muitos países europeus. Essa taxa de mortalidade rodoviária por milhão de habitantes diminuiu de 118,8 em 2005 para 58,1 em 2024, o que é de facto uma variação notável. Contudo, a taxa média europeia é de 46 mortes por milhão de habitantes e, por exemplo, na Suécia é de 22 e na Dinamarca de 26, sendo estes os países europeus mais seguros.

Mas aqueles valores escondem algo que nos deverá causar uma grande preocupação. De facto, Portugal é o país da União Europeia que apresenta o perfil de mortalidade urbana mais elevado da Europa. Entre nós 55% das mortes ocorrem em zonas urbanas contra uma média europeia de 39% e apenas 27% em Espanha.

A sinistralidade em meio urbano, em particular na nossa Cidade de Coimbra é um tema ao qual já dediquei várias crónicas, ao longo dos anos. Como em outras cidades, as causas essenciais devem-se a excesso de velocidade, mas também a distracções como uso telemóvel e outros equipamentos digitais dos automóveis. A condução com álcool em excesso mantém-se como uma das causas principais da sinistralidade.

A sinistralidade em geral, mas também em meio urbano, tem dois outros factores a ter em conta, para além do comportamento dos condutores: os veículos e o ambiente rodoviário constituído pelas vias destinadas aos diferentes modos de deslocação: automóveis, veículos de duas rodas e peões.

É aqui que as Autarquias Locais têm uma grande responsabilidade para se conseguir uma redução da sinistralidade no interior das cidades. Cabe-lhes detectar os pontos de conflito entre os diversos modos de deslocação e reduzi-los tecnicamente de forma eficaz. Refiro-me não só à manutenção e correcção de vias rodoviárias e passeios, mas também à adopção de medidas que reduzam a velocidade e aumentem a segurança da circulação dos diversos veículos e peões.

O actual Código da Estrada já prevê a criação de zonas de circulação mista, com velocidade reduzida, em que diferentes tipos de utilizadores — peões, ciclistas, trotinetes, automóveis, transportes públicos — partilham o mesmo espaço viário tornando o espaço urbano mais humano.

A separação clara dos tráfegos local e de passagem é outra medida essencial. A limitação sistemática de velocidade no interior das cidades mediante sistemas de detecção automática de velocidade deveria ser norma. Tal como as passadeiras nas proximidades de escolas deveriam ter iluminação específica e serem igualmente semaforizadas. As obras nas vias públicas deveriam ser devidamente sinalizadas, de dia e de noite, para evitar que facilitem a ocorrência de acidentes graves.

Não precisamos de sair de Coimbra para ver todos estes problemas no dia-a-dia e é lamentável ter de abordar este assunto vezes sem fim ao longo dos anos.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 20 Abril 2026 

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026

E A NATO?

 

A Organização do Tratado do Atlântico Norte foi fundada em 4 de Abril de 1949 com a assinatura do Tratado do Atlântico Norte em Washington. Originalmente fizeram parte da NATO (ou OTAN, utilizando a designação na nossa língua) 12 países: Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Islândia, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Portugal, Reino Unido e os Estados Unidos. Ao longo dos anos, devido a várias razões, mas essencialmente pensando na sua própria segurança, muitos outros países integraram a NATO que hoje inclui também a Alemanha, a Grécia, a Turquia, a Espanha, a Hungria, a Polónia, a República Checa, a Bulgária, a Estónia, a Letónia, a Lituânia, a Roménia, a Eslováquia, a Eslovénia, a Albânia, a Croácia, o Montenegro, a Macedónia do Norte e finalmente, a Finlândia e a Suécia, num total de 32 países.

A NATO surgiu pouco depois do fim da II Guerra Mundial, já num contexto de “guerra fria” e era uma clara resposta ao expansionismo soviético que conseguira impor regimes comunistas em praticamente toda a Europa de Leste e mesmo Central.

Trata-se de uma organização de carácter militar de defesa, isto é, se qualquer um dos países signatários sofrer o ataque de um país externo, pode pedir a ajuda de toda a Organização. Ao longo da sua existência, houve duas excepções, no Afeganistão na sequência do atentado do 11 de Setembro sob mandato das Nações Unidas e na ex-Jugoslávia em 1995 igualmente de acordo com a ONU.

Os EUA sempre tiveram um papel essencial na NATO, dada a sua dimensão territorial, mas também militar. Contudo, o actual Presidente Donald Trump tem demonstrado uma insatisfação crescente para com a NATO. Entrou mesmo em conflito com um país da NATO, a Dinamarca, com a exigência de transferência da soberania da Gronelândia. Com esta guerra do Irão Trump enfiou-se num buraco sem saída airosa. Quando a começou não perguntou aos seus aliados. Depois, não contactou a NATO, apenas desafiou alguns países a ajudá-lo no Estreito de Ormuz, sem resposta.

Como reacção, Trump regiu com: “A NATO não estava lá, quando precisámos dela. Lembrem-se da Gronelândia, aquele grande, pobremente governado pedaço de gelo”. Isto é, Trump não é capaz de negociar com ninguém, nem com os velhos aliados da América. Só é capaz de impor as suas posições, como sempre fez, noutras circunstâncias pessoais.

E a NATO? Como vai ficar ou evoluir depois disto? Há quem defenda que vai acabar ou que continuará numa nova formulação, sem os EUA. Não me parece que tal venha a suceder. A invasão russa à Ucrânia e a guerra que ainda continua é a prova de que o Ocidente precisa de estar unido, seja a Rússia uma ditadura comunista ou outra qualquer. E a China é e vai ser a verdadeira super-potência, para além dos EUA. Trump vai passar e a sua presidência vai servir de vacina contra as tentações pessoais durante muito tempo nos EUA. Assim o resto do Ocidente o perceba e tenha o bom senso de agir em conformidade. A América é muito mais e muito melhor do que esta fase trumpiana, como o prova a Artemis.

 Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 13 Abril 2026

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O QUE VEMOS, OUVIMOS E LEMOS

 

Já tínhamos tido anteriormente a experiência de observar uma guerra em directo. Mas nunca como desta vez foi possível dispor de uma variedade tão grande de comentadores televisivos a opinar sobre os acontecimentos. À quase infinidade de especialistas em relações internacionais junta-se uma variedade de especialistas militares, praticamente todos generais, que nos deixa perplexos. Para começar é difícil perceber como é possível um país com umas Forças Armadas tão reduzidas produzir uma tão grande quantidade de generais, imagino que todos eles já fora do activo. Por outro lado, sendo Portugal um país integrante de uma aliança como a NATO mal se percebe que alguns desses generais mais pareçam porta-vozes do regime de um país claramente em conflito com o ocidente, como é a Rússia.

Todos esses comentadores explicam como funcionam os mais diversos artefactos de guerra, a distância a que são letais, as respectivas contra-medidas, etc. Desde o tempo da guerra do arco e flecha, se há coisa que o Homem tem evoluído é em encontrar novos processos de matar a distâncias cada vez maiores e mais gente de cada vez. Pode mesmo afirmar-se que, durante as guerras, a evolução da tecnologia acelera de uma forma muito superior aos tempos de paz. Vá lá que, terminados os conflitos, se torna possível utilizar muitas dessas invenções para fins pacíficos e de utilização generalizada, como acontece com o GPS. Mas, entretanto, a capacidade de invenção humana para matar semelhantes continua a mostrar-se de forma imparável. Aqueles brinquedos que nos divertiam há bem poucos anos, os drones, passaram a ser das armas mais letais e de utilização mais fácil, mesmo para soldados individuais. Tal como os drones anti-drones, agora dotados de inteligência artificial, que conseguem defender contra máquinas semelhantes, mas mesmo contra mísseis. Aliás, a inteligência artificial domina cada vez mais os teatros de guerra, utilizando a informação recolhida por satélites e internet para seguidamente ordenar o lançamento de contra-medidas e orientando-as até aos alvos, sem intervenção humana no processo. Como em tantos aspectos da vida humana, as preocupações éticas que surgem no início da utilização de novas possibilidades de intervenção rapidamente são ultrapassados em face da possibilidade de garantir êxitos, neste caso militares. Infelizmente, a posição tomada pela empresa Anthropic, a segunda maior de inteligência artificial do mundo, opondo-se à utilização dos seus algoritmos para fins militares deverá estar, mais cedo o mais tarde, destinada ao fracasso. Há sempre alguém que coloca os lucros imediatos à frente das preocupações éticas.

Todos estes aspectos importantes, mas parciais, são sistematicamente abordados pelos comentadores televisivos. Mas o fundamental, isto é, as estratégias e mudanças radicais que se estão a fomentar e mesmo já a verificar-se na construção de uma ordem mundial muito diferente da que até aqui conhecíamos são as mais das vezes completamente esquecidas. 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em  6 Abril 2026