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quarta-feira, 10 de julho de 2013
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Mário Nunes: um Homem da Cultura
A gadanha do quarto cavaleiro, que este ano anda muito atarefado, levou-nos de surpresa o Senhor Dr. Mário Nunes. Homem de trato amabilíssimo, deixa uma enorme saudade em todos os que com ele privaram. E deixa Coimbra e a sua cultura mais pobre.
Antes de ser Dr. era já um verdadeiro Senhor, não precisando do título académico para se impor fosse onde fosse. Mas a sua vontade de saber mais levou-o a licenciar-se em História, área em que o seu conhecimento pessoal, fruto de pesquisa aturada e permanente, era de grande dimensão e valia.
Apesar da sua origem humilde, o seu valor pessoal não o deixou ir pelos caminhos tão frequentemente trilhados por quem se faz por si próprio: nem ganhou soberba, nem falsa humildade. Continuou sempre fiel à sua maneira de ser, simpática, colaborante e construtiva.
Foi Vereador da Cultura na Autarquia de Coimbra, onde foi frequentemente objecto de críticas mesquinhas sem conteúdo. A sua preocupação de sempre com a genuína cultura do nosso povo levava muitos profissionais da cultura a menosprezarem a sua actividade autárquica, designando o seu pelouro como sendo da cultura…popular. Nada de mais injusto. Enquanto Vereador, Mário Nunes apoiou as associações culturais e a sua actividade, desde o rancho e a filarmónica ao teatro e à música clássica com o mesmo entusiasmo e dinamismo. E nunca ninguém lhe ouviu dizer que se o povo prefere cultura simples, então que se lhe dê música pimba em vez da clássica.
Amou Coimbra como poucos e provou-o na sua intensa actividade. Desde os numerosos livros dedicados a aspectos específicos da Cidade e do seu património, ao elevadíssimo nº de artigos que deixou publicados por diversos títulos de jornais.
Mas não se ficou pela escrita, embora a ela se tenha dedicado com um entusiasmo absolutamente surpreendente.
Logo na década de oitenta dinamizou a criação do GAAC (Grupo de Arqueologia e Arte do Centro), vindo dessa altura o nosso conhecimento pessoal. Se hoje o conhecimento e a defesa do património nas suas mais diversas formas, se tornou em pedra de toque da atitude cultural, nesses tempos não tão longínquos como isso, era uma posição em que Mário Nunes não tinha assim tantos acompanhantes de jornada. Vêm daí as primeiras ideias de levar o mundo a reconhecer a importância do património da Cidade, designadamente da Alta e Universidade.
A Casa dos Pobres foi outra instituição da Cidade a que Mário Nunes entregou o seu dinamismo, tempo e esforços, sendo secretário da sua Direcção. Mário Nunes tinha também responsabilidades no Clube de Comunicação Social de Coimbra e, nos últimos anos, dedicou-se com afinco à Previdência Portuguesa. Era meu colega nos órgãos sociais da Casa de Infância Elísio de Moura.
Acima de tudo era um amigo com quem dava gosto conversar e partilhar ideias para Coimbra. Faz-nos muita falta e, infelizmente, só nos resta dizer: bem-haja Senhor Dr. Mário Nunes por tudo o que fez e nos deu.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 8 de Julho de 2013
Antes de ser Dr. era já um verdadeiro Senhor, não precisando do título académico para se impor fosse onde fosse. Mas a sua vontade de saber mais levou-o a licenciar-se em História, área em que o seu conhecimento pessoal, fruto de pesquisa aturada e permanente, era de grande dimensão e valia.
Apesar da sua origem humilde, o seu valor pessoal não o deixou ir pelos caminhos tão frequentemente trilhados por quem se faz por si próprio: nem ganhou soberba, nem falsa humildade. Continuou sempre fiel à sua maneira de ser, simpática, colaborante e construtiva.
Foi Vereador da Cultura na Autarquia de Coimbra, onde foi frequentemente objecto de críticas mesquinhas sem conteúdo. A sua preocupação de sempre com a genuína cultura do nosso povo levava muitos profissionais da cultura a menosprezarem a sua actividade autárquica, designando o seu pelouro como sendo da cultura…popular. Nada de mais injusto. Enquanto Vereador, Mário Nunes apoiou as associações culturais e a sua actividade, desde o rancho e a filarmónica ao teatro e à música clássica com o mesmo entusiasmo e dinamismo. E nunca ninguém lhe ouviu dizer que se o povo prefere cultura simples, então que se lhe dê música pimba em vez da clássica.
Amou Coimbra como poucos e provou-o na sua intensa actividade. Desde os numerosos livros dedicados a aspectos específicos da Cidade e do seu património, ao elevadíssimo nº de artigos que deixou publicados por diversos títulos de jornais.
Mas não se ficou pela escrita, embora a ela se tenha dedicado com um entusiasmo absolutamente surpreendente.
Logo na década de oitenta dinamizou a criação do GAAC (Grupo de Arqueologia e Arte do Centro), vindo dessa altura o nosso conhecimento pessoal. Se hoje o conhecimento e a defesa do património nas suas mais diversas formas, se tornou em pedra de toque da atitude cultural, nesses tempos não tão longínquos como isso, era uma posição em que Mário Nunes não tinha assim tantos acompanhantes de jornada. Vêm daí as primeiras ideias de levar o mundo a reconhecer a importância do património da Cidade, designadamente da Alta e Universidade.
A Casa dos Pobres foi outra instituição da Cidade a que Mário Nunes entregou o seu dinamismo, tempo e esforços, sendo secretário da sua Direcção. Mário Nunes tinha também responsabilidades no Clube de Comunicação Social de Coimbra e, nos últimos anos, dedicou-se com afinco à Previdência Portuguesa. Era meu colega nos órgãos sociais da Casa de Infância Elísio de Moura.
Acima de tudo era um amigo com quem dava gosto conversar e partilhar ideias para Coimbra. Faz-nos muita falta e, infelizmente, só nos resta dizer: bem-haja Senhor Dr. Mário Nunes por tudo o que fez e nos deu.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 8 de Julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Anarquia financeira
Dominique Strauss Khan emergiu momentaneamente do seu
desaparecimento da vida pública para anunciar solenemente, em pleno Senado
francês, que “o sistema financeiro internacional não está na origem da crise
económico-financeira”. Palavras a ter em conta, porque vindas de alguém que foi
ministro das Finanças no seu país e foi, acima de tudo, Director Geral do FMI
até há dois anos, altura em que submergiu num mar de escândalos pessoais de
vária ordem. DSK, como é conhecido em França, defende que não é o sistema
financeiro que está errado, sendo “o comportamento dos que o utilizam o
verdadeiro problema”.
Na realidade, todos nos lembramos bem onde começou esta
crise em 2008 e foi exactamente no sistema financeiro americano, tendo
alastrado rapidamente a todo o mundo, com repercussões muito graves na nossa
União Europeia, onde continua a não querer terminar e a causar danos que
demorarão décadas a superar.
Que muitos responsáveis pelas instituições financeiras
não são de confiar, já se tinha percebido pelos comportamentos demasiado
evidentes de banqueiros sem escrúpulos com vencimentos e prémios indecorosos
ligados precisamente a objectivos de prazo imediato contrários à saúde do
sistema financeiro. A revelação do teor de conversas telefónicas durante o auge
da crise em 2008 entre responsáveis de topo de um dos maiores bancos
irlandeses, o AIB (Anglo Irish Bank) veio mostrar ao mundo como funciona o
sistema financeiro e a forma chocante como trabalham os seus maiores
“responsáveis”. O CEO do AIB fugiu da Irlanda para os Estados Unidos onde abriu
falência, para não pagar as suas dívidas pessoais ao banco, no montante de 8,5
milhões de euros.
Mas isto não é nada. No processo de resgate do banco que
começou por um valor estimado de 7,5 mil milhões de euros, o Estado assegurou
garantias de 30 mil milhões de euros que saem obviamente dos bolsos dos
contribuintes irlandeses. Como entre cá o Estado deu a mão ao BPN para “evitar
um risco sistémico” que na realidade não existia, passando rapidamente de um
valor de 400 milhões de euros para quase 8 mil milhões de euros. Para não falar
no caso estranho do investidor que conseguiu um empréstimo da CGD de quase mil
milhões de euros para comprar acções do BCP que hoje não valem nem cem milhões,
tendo a CGD aceite as próprias acções como garantia. O leitor já está mesmo a
ver quem assegura o pagamento desta “imparidade”: claro que nós todos, mais
cedo ou mais tarde, andando os responsáveis para aí a rir-se.
Poderia encher as páginas deste jornal inteiro com casos
semelhantes, só desde 2008, mas penso não valer a pena. Se os banqueiros têm
comportamentos generalizados destes é certamente porque o sistema, não só o
permite, como ainda acaba por não punir a maior parte dos prevaricadores. DSK
terá alguma razão, mas por algum motivo tenta distrair os ouvintes do
essencial: o sistema financeiro, particularmente o europeu tal como está não
serve, os responsáveis políticos não são capazes de o consertar e são os
contribuintes de todos os países que pagam tudo isto, à custa do seu modo de
vida.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 1 de Julho de 2013
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Um futuro possível
A inscrição da “Universidade de Coimbra-Alta e Sofia” na lista do Património Mundial da Humanidade concretizada pela Unesco há dois dias não vem acrescentar nada ao passado da Universidade de Coimbra. Mas vem sublinhar e reconhecer, a nível mundial, algo que por cá já todos nós sabíamos: o valor e importância que a Universidade de Coimbra tem, não só a nível de património construído, mas também pelo papel notável que desempenhou na História de Portugal e da Humanidade. E sabe certamente bem a todos os que tornaram esta classificação uma realidade e muitos foram, a nível técnico, a nível político e a nível universitário: estão todos de parabéns e a Cidade deve-lhes o reconhecimento.
Mas esta classificação deve ser um ponto de partida. É certo que a Unesco não vai trazer directamente dinheiro para Coimbra. Mas o reconhecimento da Universidade como património mundial vai potenciar de forma decisiva o movimento de turistas que irão querer conhecer pessoalmente este “Bem”. E esta circunstância coloca-nos perante o início de novo período para a Cidade, sendo necessário definir uma estratégia para o seu desenvolvimento futuro, que tenha esta nova situação em devida conta.
Vários elementos programáticos sectoriais estão já estudados e aprovados ou em vias de aprovação, tornando-se agora necessária uma visão e uma estratégia global. As Áreas de Reabilitação Urbana já aprovadas e em início de implementação, o Plano Estratégico da Cidade e o Plano Director Municipal revisto juntam-se a regulamentos específicos para a realização de obras em edifícios situados na zona de protecção do “Bem” agora classificado. Numa cidade que tem um património com esta importância não mais se pode permitir que a “cultura”, o “turismo” e mesmo a “reabilitação” do centro histórico tenham caminhos separados vagamente ligados num tronco comum. Estas áreas envolvem saberes próprios e específicos existentes a nível autárquico que devem ser aproveitados, mas que politicamente devem ser unidos para que daqui a vinte anos os cidadãos possam dizer que a classificação da Unesco não só reconheceu algo que já existia, mas que potenciou toda uma recuperação do Centro Histórico, trazendo nova vida a nível de moradores, de comércio e de actividades económicas ligadas ao turismo e à cultura que criaram emprego gerando enorme riqueza para Coimbra.
Uma estreita ligação entre a Autarquia e a Universidade qu
e já existe actualmente, é necessária e crucial, não só para a gestão do “Bem” classificado, mas para a construção comum do futuro de toda a Cidade, em volta da sua velha escola, nunca esquecendo que uma urbe não pode ser um museu, mas que existiu, existe e deverá existir em função das suas gentes. O estado de degradação absolutamente lamentável a que se deixou chegar o património edificado de uma parte constituinte do bem classificado, a Rua da Sofia, vai exigir esforços comuns não só a nível de estudos mas também, e sobretudo, no encontrar de soluções financeiras para a recuperação sustentável dos seus Colégios.
A inclusão da Rua da Sofia na candidatura faz todo o sentido. A sua construção teve precisamente como justificação a instalação dos Colégios da Universidade, por volta de 1535, aquando da vinda definitiva da Universidade para Coimbra decidida por D. João III. O êxito desta classificação passará muito pelo que acontecer na Rua da Sofia daqui para a frente e da forma como potenciará, ou não, a regeneração urbana de toda a Baixa.
Mas esta classificação deve ser um ponto de partida. É certo que a Unesco não vai trazer directamente dinheiro para Coimbra. Mas o reconhecimento da Universidade como património mundial vai potenciar de forma decisiva o movimento de turistas que irão querer conhecer pessoalmente este “Bem”. E esta circunstância coloca-nos perante o início de novo período para a Cidade, sendo necessário definir uma estratégia para o seu desenvolvimento futuro, que tenha esta nova situação em devida conta.
Vários elementos programáticos sectoriais estão já estudados e aprovados ou em vias de aprovação, tornando-se agora necessária uma visão e uma estratégia global. As Áreas de Reabilitação Urbana já aprovadas e em início de implementação, o Plano Estratégico da Cidade e o Plano Director Municipal revisto juntam-se a regulamentos específicos para a realização de obras em edifícios situados na zona de protecção do “Bem” agora classificado. Numa cidade que tem um património com esta importância não mais se pode permitir que a “cultura”, o “turismo” e mesmo a “reabilitação” do centro histórico tenham caminhos separados vagamente ligados num tronco comum. Estas áreas envolvem saberes próprios e específicos existentes a nível autárquico que devem ser aproveitados, mas que politicamente devem ser unidos para que daqui a vinte anos os cidadãos possam dizer que a classificação da Unesco não só reconheceu algo que já existia, mas que potenciou toda uma recuperação do Centro Histórico, trazendo nova vida a nível de moradores, de comércio e de actividades económicas ligadas ao turismo e à cultura que criaram emprego gerando enorme riqueza para Coimbra.
Uma estreita ligação entre a Autarquia e a Universidade qu
e já existe actualmente, é necessária e crucial, não só para a gestão do “Bem” classificado, mas para a construção comum do futuro de toda a Cidade, em volta da sua velha escola, nunca esquecendo que uma urbe não pode ser um museu, mas que existiu, existe e deverá existir em função das suas gentes. O estado de degradação absolutamente lamentável a que se deixou chegar o património edificado de uma parte constituinte do bem classificado, a Rua da Sofia, vai exigir esforços comuns não só a nível de estudos mas também, e sobretudo, no encontrar de soluções financeiras para a recuperação sustentável dos seus Colégios.
A inclusão da Rua da Sofia na candidatura faz todo o sentido. A sua construção teve precisamente como justificação a instalação dos Colégios da Universidade, por volta de 1535, aquando da vinda definitiva da Universidade para Coimbra decidida por D. João III. O êxito desta classificação passará muito pelo que acontecer na Rua da Sofia daqui para a frente e da forma como potenciará, ou não, a regeneração urbana de toda a Baixa.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 24 de Junho de 2013
domingo, 23 de junho de 2013
segunda-feira, 17 de junho de 2013
1984 em 2013
A queda do muro de Berlim em Novembro de 1989 sinalizou o fim dos regimes comunistas e da Guerra Fria que, desde o fim da II Grande Guerra em 1945, manteve a sorte do mundo num fio da navalha.
Acabava também um mundo bi-polar em que duas grandes potências disputavam a supremacia militar, mas também económica e política. Foi aliás a evolução económica do bloco ocidental que não parou de crescer desde os anos cinquenta de forma exponencial a ditar aquele resultado, por exaustão do bloco de Leste que orientava todas as suas energias para a manutenção do equilíbrio militar, o que a certa altura se tornou manifestamente impossível.
O mundo acordou subitamente diferente, sem a ameaça permanente de um conflito militar global, mas com uma única superpotência. Não passaram muitos anos sem que novas ameaças surgissem.
Em Setembro de 2001 os Estados Unidos foram feridos no seu orgulho de líderes quando o seu território foi pela primeira vez na História palco de um autêntico acto de guerra. A reacção brutal e violenta que se seguiu e que se assemelhou à resposta de um grande animal mordido no pé não causou surpresa, a não ser pela falta de objectividade e até de eficácia, estando ainda hoje o Afeganistão e o Iraque em situação de guerra latente na sequência das intervenções americanas.
Em 2008 surgiu finalmente uma crise económica e financeira a nível global diferente de todas as anteriores, quer pela sua intensidade, quer pela duração. É hoje reconhecido que a finança mundial se aventurou por caminhos antes impensáveis, com consequências desastrosas no mundo económico através da formação de bolhas especulativas que rebentaram nas mãos de quem menos supunha que existissem sequer.
Muitos países se deixaram ir igualmente no canto da sereia e endividaram-se de tal forma que entregaram a própria soberania para tentarem segurar-se num mundo cujas regras são hoje ditadas pelos mercados globais.
Mas outra consequência do fim da Guerra Fria se foi desenvolvendo de forma larvar, tendo surgido há poucos dias à luz do dia de forma impressionante, embora se pense que é apenas a ponta do iceberg. Se até 1989 os diversos Serviços Secretos desenvolviam a sua actividade de uma forma controlada, pelo equilíbrio de forças e a existência de “regras” assumidas, como aliás John Le Carré bem descreveu nos seus livros, o desaparecimento de um dos lados deixou à solta o que ficou sozinho. O seu adversário passou a ser o mundo inteiro, como se sabe agora com a divulgação na imprensa da acção da NSA, agência de segurança nacional americana.
Basicamente, os cidadãos de todo o mundo passaram a ser objecto de espionagem sistemática por parte dos americanos. Eu, o leitor e toda a gente que o leitor conhece e não conhece temos actualmente as chamadas telefónicas por telemóvel, por skype, VOIP, etc., as mensagens electrónicas (mail), as conversas e mensagens nas redes sociais, fotografias e tudo o mais que possa imaginar vasculhadas sistematicamente pelos serviço secretos americanos. Para cúmulo, a NSA nem faz todo o trabalho sozinha, por manifesta dificuldade tecnológica, contratando para esse serviço diversas empresas privadas, como as de telecomunicações.
Estamos em 2013 e não em 1984 e temos que reconhecer com tristeza que o único erro de George Orwell foi de data e não de substância.
Acabava também um mundo bi-polar em que duas grandes potências disputavam a supremacia militar, mas também económica e política. Foi aliás a evolução económica do bloco ocidental que não parou de crescer desde os anos cinquenta de forma exponencial a ditar aquele resultado, por exaustão do bloco de Leste que orientava todas as suas energias para a manutenção do equilíbrio militar, o que a certa altura se tornou manifestamente impossível.
O mundo acordou subitamente diferente, sem a ameaça permanente de um conflito militar global, mas com uma única superpotência. Não passaram muitos anos sem que novas ameaças surgissem.
Em Setembro de 2001 os Estados Unidos foram feridos no seu orgulho de líderes quando o seu território foi pela primeira vez na História palco de um autêntico acto de guerra. A reacção brutal e violenta que se seguiu e que se assemelhou à resposta de um grande animal mordido no pé não causou surpresa, a não ser pela falta de objectividade e até de eficácia, estando ainda hoje o Afeganistão e o Iraque em situação de guerra latente na sequência das intervenções americanas.
Em 2008 surgiu finalmente uma crise económica e financeira a nível global diferente de todas as anteriores, quer pela sua intensidade, quer pela duração. É hoje reconhecido que a finança mundial se aventurou por caminhos antes impensáveis, com consequências desastrosas no mundo económico através da formação de bolhas especulativas que rebentaram nas mãos de quem menos supunha que existissem sequer.
Muitos países se deixaram ir igualmente no canto da sereia e endividaram-se de tal forma que entregaram a própria soberania para tentarem segurar-se num mundo cujas regras são hoje ditadas pelos mercados globais.
Mas outra consequência do fim da Guerra Fria se foi desenvolvendo de forma larvar, tendo surgido há poucos dias à luz do dia de forma impressionante, embora se pense que é apenas a ponta do iceberg. Se até 1989 os diversos Serviços Secretos desenvolviam a sua actividade de uma forma controlada, pelo equilíbrio de forças e a existência de “regras” assumidas, como aliás John Le Carré bem descreveu nos seus livros, o desaparecimento de um dos lados deixou à solta o que ficou sozinho. O seu adversário passou a ser o mundo inteiro, como se sabe agora com a divulgação na imprensa da acção da NSA, agência de segurança nacional americana.
Basicamente, os cidadãos de todo o mundo passaram a ser objecto de espionagem sistemática por parte dos americanos. Eu, o leitor e toda a gente que o leitor conhece e não conhece temos actualmente as chamadas telefónicas por telemóvel, por skype, VOIP, etc., as mensagens electrónicas (mail), as conversas e mensagens nas redes sociais, fotografias e tudo o mais que possa imaginar vasculhadas sistematicamente pelos serviço secretos americanos. Para cúmulo, a NSA nem faz todo o trabalho sozinha, por manifesta dificuldade tecnológica, contratando para esse serviço diversas empresas privadas, como as de telecomunicações.Estamos em 2013 e não em 1984 e temos que reconhecer com tristeza que o único erro de George Orwell foi de data e não de substância.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 17 de Junho de 2013
sábado, 15 de junho de 2013
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Cidade virada ao futuro
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Mas há caminhos para lá chegar. Um deles passa pela utilização da sua identidade que, no caso da nossa Cidade, é fortíssima e deve ser assumida sem complexos e com a maior confiança e intensidade. Essa identidade advém de uma História antiquíssima, que vem de antes da própria Nacionalidade e que é suficientemente conhecida até aos tempos da cultura moçárabe e do célebre D. Sesnando. A História de Coimbra é um património imaterial que pode e deve enformar toda a acção para a afirmação da nossa Cidade.
O Turismo é a atividade económica mais óbvia que decorre da utilização da História como vantagem comparativa. Mas não se pode ficar por uma recepção simpática dos estrangeiros que nos visitam. Aliar a Cultura ao Turismo é essencial e tal ainda não foi feito entre nós, não se percebendo como uma Autarquia moderna não coloca essas duas preocupações no mesmo pelouro. O turismo cultural é hoje uma actividade económica em expansão em toda a Europa, onde as férias prolongadas praticamente estão em extinção substituídas por viagens de curta/média duração muito mais abertas a um conhecimento aprofundado dos locais que se visitam.
A recuperação dos Centros Históricos é outra pedra de toque na afirmação da identidade das Cidades competitivas. Coimbra está finalmente no bom caminho, através da aprovação dos programas estratégicos das suas áreas de reabilitação urbana e da mais que provável aprovação da candidatura a património mundial reconhecido pela Unesco. Assim os responsáveis autárquicos e universitários o assumam por completo, o que inclui a assunção das verbas previstas para os próximos quinze anos e uma colaboração eficaz sem complexos nem guerrinhas de protagonismos balofos.
A “venda” internacional de Coimbra deve abranger ainda o recente e muito significativo surto de aparecimento e desenvolvimento de empresas de base tecnológica com grande sucesso, saídas da Universidade. Portugal dispõe hoje em dia de um instrumento poderoso e muito competente de atracção de investimentos estrangeiros e de apoio da nossa economia lá fora, que é o AICEP. Uma Cidade como Coimbra não pode deixar de usar e abusar dessa ferramenta, tal como o fazem as empresas para se internacionalizarem.
Coimbra está à porta de um futuro brilhante. Assim os responsáveis dos partidos políticos o percebam e sejam capazes de entrar por essa porta porque, para o bem e para o mal, é por eles que em democracia passam essas opções.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 10 de Junho de 2013
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