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sexta-feira, 19 de junho de 2020
quinta-feira, 18 de junho de 2020
quarta-feira, 17 de junho de 2020
segunda-feira, 15 de junho de 2020
OS BIOMBOS DOS EXTREMISTAS
Para não ir mais longe, a Revolução Francesa aconteceu pela
revolta popular contra as miseráveis condições de vida da generalidade do povo
no “ancient regime”. Os grandes orientadores da revolução chamavam-se Danton,
Marat e Robespierre como aprendemos na História do Liceu. Tal como aprendemos
que os excessos da revolução vieram a desembocar no Terror e em Napoleão que a
si próprio se coroou Imperador, contra todos os princípios e objectivos da
Revolução republicana. E também aprendemos que o rei Luiz XVI, símbolo do
absolutismo, tal como a sua mulher Antonieta foram decapitados durante o
processo revolucionário através de uma máquina inventada por um médico, cujo
objectivo era proporcionar uma morte rápida e, eventualmente, sem sofrimento, embora
ninguém pudesse confirmar esse aspecto. Mas os próprios Danton e Robespierre
foram cilindrados pela revolução que iniciaram e acabaram com a cabeça cortada
pela guilhotina, acusados de contra-revolucionários. Já Marat também não
sobreviveu à revolução devido a uma rapariga chamada Charlotte Corday que o
apunhalou enquanto tomava banho. Marat chamava “inimigos do povo” aos que
achava que deviam fazer parte dos milhares que foram vítimas da máquina do Dr.
Guillotin durante os anos quentes da revolução. O povo parisiense foi levado a
acções bárbaras em nome de uma causa justa, sintetizada em Liberdade, Igualdade
e Fraternidade. Mas não foi este o único caso da História.
Em 1917, um punhado de ideólogos comunistas russos levou o povo
a acompanhá-los numa revolução de uma violência extrema em nome da Igualdade e
da Justiça Social que seriam o corolário da sua acção. Claro que, para atingir
esses bons objectivos, seria necessário eliminar os “inimigos do povo”,
recuperando o termo inventado cem anos antes por Marat. O regime de repressão
que se lhe seguiu durou mais de setenta anos, terminando apenas em 1989. Também
neste caso o povo, sob o apelo de causas justas, seguiu líderes que apenas
queriam substituir um regime absolutista pelo deles próprios. E também neste
caso muitos dos principais defensores da revolta foram cilindrados pelo
processo, começando simbolicamente pelos marinheiros de Kronstadt.
Não se consegue compreender a adesão do povo alemão às ideias
de um Hitler no início dos anos trinta do século passado, sem que se perceba
que, de alguma forma, ele apelava à injustiça do sofrimento decorrente das
cláusulas dos tratados de Versalhes. A coberto desse apelo, os nazis
implantaram o mais bárbaro dos regimes políticos. Também eles não passaram sem
liquidar em primeiro lugar os seus que lhes poderiam fazer frente, na “noite
das facas longas”. Depois de ter acreditado na bondade de Hitler o povo alemão
veio a ser vítima das escolhas do seu líder, acabando numa derrota com
sofrimentos inomináveis após levar todo o mundo à guerra mais mortífera de
sempre.
As preocupações com justiça e igualdade serviram ao longo da
História, e continuam a servir, como biombo para fazer passar ideologias que
não têm nada a ver com elas sendo os seus defensores capazes das maiores
manipulações para levar os seus objectivos avante, usando os sentimentos
precisamente daqueles que mais têm fome de justiça, começando pelos jovens e os
que, de uma forma de outra, são objecto de discriminação.
O racismo é uma das maiores e mais vergonhosas injustiças que a
humanidade alguma vez inventou. Nasce da sensação de que se é superior só por
se ter a pele de uma determinada cor. A ciência da genética ensina-nos hoje que
na Humanidade não há raças, isto é, à injustiça da discriminação o racismo soma
a ignorância, pelo que a luta contra o racismo é, sem dúvida, uma luta justa.
O
nosso tempo histórico é precisamente aquele em que o racismo é mais condenado com
expressão nas legislações nacionais dos mais diversos países e também nos
convénios internacionais como a Declaração dos Direitos Humanos. Pode
perguntar-se: ainda há muito a fazer? Há, muitos de nós têm ainda um caminho
pessoal a percorrer para abandonar definitivamente os complexos de origem
racista.
Outra coisa são as manifestações que se têm visto, com
interesses políticos a levar pessoas a escrever barbaridades e ter
comportamentos lamentáveis a todos os títulos. Por mais que depois se
demarquem, só quem não quer é que não percebe o interesse em extremar
artificialmente as situações, fazendo ao mesmo tempo passar a sua mensagem
política extremista. Mais uma vez pessoas sinceramente revoltadas com injustiça
são descaradamente manipuladas por quem está apenas interessado na sua agenda
ideológica, como tantas vezes tem acontecido na História.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra na edição de 15 de Junho de 2020
sexta-feira, 12 de junho de 2020
ATACAR A CULTURA
Há quase noventa anos os nazis queimavam livros. Hoje, depois de tentar impor uma novilíngua, censuram-se filmes, vandalizam-se estátuas, etc. Os livros virão a seguir. Há que reagir contra a ignorância e intolerância.
terça-feira, 9 de junho de 2020
MAIS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS
O Governo diz que vai abandonar a regra de entrar um FP pela saída de dois. Mais uma vez, conversa da treta.
Vejamos a variação do nº de FP nos últimos anos:
Vejamos a variação do nº de FP nos últimos anos:
Foto recolhida no blogue (Im)pertinências
segunda-feira, 8 de junho de 2020
BEETHOVEN – SUPERAR A LIMITAÇÃO
Não deverá haver, na História da Humanidade, muitos exemplos da
capacidade do cérebro humano ultrapassar as limitações físicas do corpo que
habita da forma genial como o fez Beethoven.
Quando a sua Nona Sinfonia foi apresentada em 1824, no Teatro
da Corte Imperial de Viena, Beethoven estava completamente surdo, ao ponto de
não ouvir os aplausos estrondosos de um público entusiasmado pela novidade da
música que tinha acabado de ouvir pela primeira vez, pelo seu absoluto
brilhantismo mas também, certamente, pela oportunidade de ali homenagear o
compositor amado. Conta-se que, tendo sido convidado a permanecer ao lado do
maestro durante o concerto, um dos cantores teve mesmo que o virar para a
assistência para se aperceber da reacção do público.
Dotado de um espírito forte, famoso pelos seus acessos de
cólera mas também pelo seu sentido de humor, se há característica que se pode
atribuir-lhe é o seu amor à Liberdade. Entusiasmado pelos valores difundidos
pela Revolução Francesa, dedicou a Napoleão a sua revolucionária Terceira Sinfonia.
O que não foi perene foi a sua dedicatória, que raspou na partitura original,
ao saber que o destinatário se tinha declarado Imperador, afirmando: «Afinal
trata-se de um homem vulgar! Agora vai pisar todos os direitos humanos e
obedecer apenas à sua ambição; vai querer ser superior a todos os outros e
tornar-se um tirano». A terceira sinfonia seria para sempre chamada «Heroica»
em vez de «Sinfonia Bonaparte».
Quando compôs a «Heroica» em 1804, aos 34 anos de idade,
Beethoven sofria já de surdez avançada que de forma crescente o ia impedindo de
ouvir aquilo a que se dedicava de forma apaixonada, a Música, ouvindo apenas
aquilo a que Romain Rolland chamou o «canto interior». A partir de 1815 já só
conseguia mesmo comunicar com os amigos através de escrita e, até ao fim da
vida, a música existiria cada vez mais apenas no seu cérebro para ser passada
pela sua caneta ao papel. A importância histórica da terceira sinfonia advém
também de, para muitos, marcar a passagem definitiva do classicismo para um
romantismo que abre as portas a toda uma nova época da História da Música dando
largas à emotividade e libertação dos sentimentos.
Muitos autores se debruçaram sobre a vida de Beethoven e a sua
obra, destacando aqui o acima referido Romain Rolland que, no princípio do
século XX, dele escreveu uma biografia e o teve como inspiração para o seu
monumental romance «Jean Christophe» que lhe valeu o Nobel da Literatura.
Ainda hoje a interpretação e gravação da integral das suas nove
sinfonias constitui um ponto culminante da carreira de qualquer orquestra ou
maestro. A influência destas obras na História da Música é de tal ordem que
muitos compositores, depois de Beethoven, se recusaram a escrever mais de nove
sinfonias, como sinal de respeito perante o grande mestre; as quatro primeiras
notas da Quinta Sinfonia são, talvez, o trecho musical mais conhecido da
História da Música, apesar de tão curto. São todas tão impressivas e diferentes
entre si que dão a qualquer pessoa a possibilidade de gostar mais de uma ou
outra permitindo-me a mim, apenas amante da música, dizer que gosto
particularmente da Sétima e da Nona. Cresci a ouvir as interpretações das
sinfonias de Beethoven por Karajan, tendo criado a ideia de que se tratava de
uma música por vezes um pouco pesada; depois conheci as interpretações de Claudio
Abbado com uma sensibilidade muito própria e belíssima e, finalmente, de Simon
Rattler que me ofereceu toda uma nova perspectiva de Beethoven, provando a
riqueza e profundidade da sua música inimitável.
Para além da monumental obra que se estende por diversas formas
musicais, Beethoven marcou também a História da Cultura, ao ser o primeiro músico
a viver da publicação das suas obras, não se sujeitando a ter mecenas de quem
dependesse financeiramente e de algum modo pudessem tentar limitar a sua
criação. De entretenimento privado de aristocratas, a apresentação das obras
musicais foi paulatinamente passando para salas de concertos e foram surgindo
as orquestras profissionais, o que permitiu a popularização e democratização desta
forma artística.
Celebrando-se no ano que passa os 250 anos do nascimento de Ludwig van
Beethoven, apenas posso deixar um desafio aos nossos leitores: se já conhecem a
sua música, revisitem-na com novos intérpretes que os há excelentes; se não
conhecem, vão ouvi-la em discos ou, de preferência, ao vivo, em concertos.Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 8 de Junho de 2020
domingo, 7 de junho de 2020
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