segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Pequena reflexão, no dia que lhe é dedicado

Sábado de manhã a escrever a crónica semanal em dia de reflexão. As eleições são amanhã e esta crónica será publicada na segunda-feira, já depois de conhecidos os resultados eleitorais e terem acontecido as consequências políticas mais importantes, para além dos festejos dos vencedores. Como habitualmente, folha branca e caneta ao lado do computador, para alinhar tópicos a desenvolver. Um assunto se impõe: eleições.
As eleições deste fim-de-semana vão ficar para a História. Eventualmente pelos resultados, mas desde logo pelo seu circunstancialismo verdadeiramente excepcional.
Imagine quem me está a ler que, na parede de fundo da sua sala de jantar, tem o quadro Guernica de Picasso. Sim, eu sei que só pelas suas dimensões tal seria difícil, eu próprio já me emocionei algumas vezes perante a pintura, pelo que a conheço bem. Mas deixe esse aspecto de lado e imagine que todos os dias almoça e janta com as crianças e restante família tendo a Guernica como fundo. Significaria isso que mesmo durante esses períodos de leve convívio e confraternização agradável e bem-disposta, não deixaria de ter como pano de fundo a guerra, a destruição, o ódio, a desgraça da barbárie, o sofrimento atroz e os gritos de socorro eternizados genialmente por Picasso. O que, deve dizer-se, não é propriamente boa companhia para os momentos de lazer e convivência, pelo que quem almoçasse numa tal sala só tinha duas hipóteses: ou nunca mais lá almoçava, ou de alguma maneira esquecia que o quadro estava ali, transformando-o mentalmente numa simples peça de decoração sem significado intrínseco.
Ora bem, o que se passou nestas eleições foi uma situação semelhante, que obrigou de alguma forma os portugueses a almoçar numa sala com a Guernica ao fundo, fazendo os possíveis e impossíveis por não dar por ela.
Portugal é o país em que o principal responsável durante dezenas de anos por um dos maiores bancos está detido com suspeitas de fraudes e sei lá que mais crimes económicos. Ricardo Salgado foi durante anos a face do banco e do grupo económico a que presidia, por escolha da restante família. Mas foi muito mais do que isso. Socialmente era o expoente de uma determinada elite que fugia às capas das revistas ditas sociais; ao contrário dos arrivistas que se pelam por lá aparecer, aquela família pagava o que fosse preciso para se manter fora das fotografias. E tinha-se a noção de que pairava acima das restantes pessoas, quer pela atitude, quer pelo poder que se adivinhava só pela sua presença. Poder real, dado que o seu banco era claramente aquele que mais claramente se relacionava com a economia e as médias e pequenas empresas mas, e sobretudo, pela participação do grupo nos maiores negócios do país, naqueles em que o Estado tinha uma palavra decisiva. Falo, como é bom de ver, nas telecomunicações e nas diversas parcerias publico privadas que transformaram as obras públicas em simples justificação para negócios financeiros. Tudo ruiu fragosamente perante o descalabro de contas que se tornaram impossíveis de esconder e o homem que era o maior responsável por aquele império está detido, aguardando pela conclusão de processos que se adivinham numerosos e pesados, não só em Portugal, mas também em pelo menos meia dúzia de países com a Suiça à cabeça.

Mas esta não é a única detenção de pessoas importantes que a Justiça manteve durante os meses que antecederam estas eleições. Vários políticos de topo se viram a braços com processos judiciais relacionados com actividades ilícitas como corrupção e troca de favores durante o exercício de elevadas funções como governantes ou agentes superiores do Estado, pelo que passaram esta campanha detidos. À cabeça está, como é evidente, o anterior primeiro-ministro de Portugal, não cabendo aqui comentar ou analisar da justeza ou não da actuação da Justiça neste caso, bastando apenas para o caso dar nota de que a situação existe e é ineludível.
Tal como podemos fazer por ignorar o quadro de Guernica na sala de jantar, a realidade de fundo destas eleições foi esta. Para além das questões evidentes da vinda e saída da troika, da austeridade e sacrifícios dos portugueses, das contas do Estado, da evolução económica, da emigração, do desemprego, das exportações etc. etc. havia algo de que não se falava, mas que estava sempre presente.
Portugal é um país com muitos séculos de História. É mesmo o pais europeu que tem as suas fronteiras estabilizadas há mais tempo. Os portugueses já passaram por muito ao longo de todos estes séculos e adquiriram um saber e um sentir colectivos que ultrapassam em muito questões pontuais, por mais relevantes que elas pareçam quando surgem.

O facto de os portugueses, embora bem conscientes do circunstancialismo excepcional destas eleições, terem mantido a serenidade, demonstrando um civismo exemplar e uma cultura democrática superior durante estas eleições e todo o longo período de campanha que as antecedeu é o mais importante que fica, muito para além da sua vontade política expressa nos votos no dia de amanhã.
Nota: foto de votantes inserida posteriormente neste texto.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Poluidor, em qualquer estrada

Em 1965 foi publicado nos EUA um livro da autoria de Ralph Nader, com o título “Unsafe at any speed” – “Inseguro a qualquer velocidade”. Embora tivesse ficado para a história como tendo sido a causa do fim da produção de um modelo concreto, o “Corvair”, o livro punha em causa muitas opções da indústria automóvel de então, em particular a resistência em adoptar sistemas de segurança para os passageiros como os cintos de segurança, bem como a continuação de utilização de sistemas tecnológicos inseguros, como as suspensões, a direcção e travões, para além de designs exteriores perigosos para os peões em caso de atropelamento. Foi um grito de alerta, muito mal recebido pela industria automóvel, mas o certo é que depois disso houve uma evolução drástica nessa indústria, bem como na acção de associações de consumidores e na exigência dos próprios automobilistas. Hoje em dia, os automóveis só por terem uma carroçaria e quatro rodas se parecem com os daquele tempo. A própria indústria automóvel puxou pela investigação e desenvolvimento de sistemas activos e passivos que tornam os automóveis de hoje incomparavelmente mais seguros para todos os utentes da via pública.
Por sua vez, os choques de petróleo da década de setenta e a consciência ecológica crescente levaram a um aprofundamento do conhecimento do funcionamento dos motores de combustão para a melhoria da sua eficiência, com vista a diminuir o consumo de combustível e a emissão de gases de escape, principalmente dióxido de carbono.
Da indústria automóvel do mundo inteiro, houve um país que se destacou nas últimas dezenas de anos pela qualidade dos seus produtos, que é a Alemanha. Os automóveis alemães, em particular das três marcas premium, a Mercedes, a BMW e a Audi, alcançaram um patamar de prestígio pela robustez das suas mecânicas, qualidade geral de construção que se traduz numa grande fiabilidade, pioneirismo na introdução de sistemas activos de segurança e mesmo design exterior que os tornaram no modelo a seguir pela indústria automóvel de todo o mundo e objectos de desejo dos consumidores.
Em particular, o desenvolvimento tecnológico dos motores diesel fabricados na Alemanha, acabou com a imagem barulhenta, pouco potente, suja e poluente que tinham há alguns anos. Hoje em dia, é mesmo o desenvolvimento tecnológico dos motores diesel, que se sobrepõem mesmo aos motores a gasolina em termos de potência e velocidade, que faz frente a um surgimento mais em força dos motores eléctricos. A eficiência dos motores a gasóleo tem subido enormemente, sendo evidente que ainda podem tirar muito mais força motriz da energia do combustível que gastam, pelo que o seu futuro é ainda promissor.
No entanto, um acontecimento veio nos últimos dias abanar a indústria automóvel de uma forma só comparável ao sucedido na década de sessenta com o livro de Nader. A Volkswagen, que é actualmente o maior fabricante automóvel do mundo, está no centro de um furacão com consequências ainda difíceis de calcular. Depois de ter sido alvo de uma denúncia, por parte da agência de protecção ambiental americana (EPA), de que milhões dos seus automóveis possuíam um dispositivo que permitia enganar as medições da emissão de gases de escape, a Volkswagen reconheceu o facto, boa parte da sua administração demitiu-se, o seu valor bolsista caiu em mais de trinta por centro, arrastando muitos investidores na queda e as multas que vai pagar são gigantescas.
A protecção ambiental leva a que os impostos sobre os automóveis tenham uma forte componente ambiental. Em Portugal, por exemplo, quer o imposto único de circulação (IUC), quer o imposto sobre os veículos automóveis (ISV) têm essa componente, calculada a partir das emissões declaradas de CO2. Se os construtores automóveis declaram um valor e depois quando circulam na estrada poluem trinta ou quarenta por cento mais, há consequências ambientais evidentes, mas também prejuízo fiscal para o Estado, para além de engano deliberado dos consumidores.

Existe ainda outro prejuízo impossível de calcular a curto prazo. A Volkswagen é alemã e detentora de várias outras marcas como a Skoda, a Seat e a Audi, estando esta última claramente entre as melhores marcas do mundo, para além da própria Porsche pertencer ao mesmo grupo. A confiança, particularmente na indústria automóvel, constrói-se de forma árdua e contínua ao longo de muitos anos, pelo rigor e exigência de qualidade acima de toda a suspeita. A perda dessa confiança é instantânea. E quando uma indústria é quase a imagem de marca de um país no mundo inteiro, a perda é ainda maior. E é essa a maior questão trazida pela fraude gigantesca da Volkswagen.
Foto de http://www.economist.com/.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 28 de Setembro de 2015

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

PRECESSÃO DOS EQUINÓCIOS




O equinócio do Outono chega na quarta-feira às nove e meia da manhã. Num dos dois dias do ano em que a duração do dia é igual à da noite, a eclíptica passa para o lado de “baixo” do equador celeste, sinalizando o início do Outono no nosso hemisfério Norte.
Ao contrário do que nos ensinaram das escolas, a Terra não tem só dois movimentos, o de rotação em torno de si mesma e o de translação em volta do Sol. Dos mais de dez movimentos que faz para além daqueles dois um deles, que já é conhecido há alguns séculos, chama-se precessão. Tal como um pião que roda em torno do seu eixo, mas de forma inclinada, também a Terra roda em torno do seu eixo, estando este inclinado cerca de 23,5º em relação à perpendicular da eclíptica que corresponde à órbita em torno do Sol. 

Por isso, os pólos da Terra vão descrevendo um círculo em torno da perpendicular da eclíptica, que se repete a cada 26.000 anos, significando isso que não apontam sempre para o mesmo local da esfera celeste. É assim que, se actualmente a estrela que vemos mais próxima do pólo Norte é aquela a que chamamos Polar, daqui a uns 13.000 anos será a estrela Vega que estará nesse local, para daqui a 26.000 anos ser de novo a Polar, após o fecho do círculo.
Desde muito cedo que os homens se habituaram a olhar para o firmamento, retirando informações da regularidade dos movimentos dos diversos astros que viam, o que lhes permitia prever eventos astronómicos. Daí às tentativas de prever o seu próprio futuro através dos astros foi um passo, tendo-se assim desenvolvido a astrologia, que ainda hoje tem muitos seguidores, como se vê nas televisões e jornais. Só que, a realidade é muito mais complexa do que a simples observação dos astros no firmamento. Além de a esfera celeste ser muito enganadora, dado que os astros estão todos a distâncias muito diferentes de nós, embora pareçam colados numa esfera, na realidade eles não estão sempre no mesmo sítio consequência, entre outras causas, da precessão dos equinócios. Por isso, aquelas cartas astrológicas muito bonitas e complexas que se fazem para prever a vida das pessoas falham por completo para além claro, de todos nós termos a liberdade de escolher os nossos caminhos independentemente do que alguns pensam “estar escrito nas estrelas”. Quando olhamos para a História, podemos ter a tentação de pensar que há uma lógica interna, um fio condutor qualquer pré-determinado que a explica. Na realidade, a complexidade das relações sociais e económicas é tão grande, que muitos dos eventos que mudaram o caminho da História poderiam não ter acontecido ou poderiam ter funcionado ao contrário, apenas com uma pequena variação de factores completamente imponderável.
Com a evolução do conhecimento científico, a astrologia cedeu o seu papel à astronomia, estando hoje remetida para o lugar das curiosidades e da exploração dos mais crédulos.
Mas a humanidade parece gostar e até precisar muito de “forças”, “magnetismos” e “atracções” mais ou menos ocultas para explicar o que lhe vai acontecendo. Nas últimas dezenas de anos novas cartas astrológicas parecem ter vindo substituir as antigas, com o objectivo de prever e, se possível, construir o futuro. Acompanhando a crescente invasão de toda a actividade humana pelas finanças, os economistas, particularmente os que se dedicam à econometria, têm vindo a desenvolver modelos matemáticos cada vez mais complexos e inacessíveis ao vulgar cidadão, onde introduzem uma imensidade de dados históricos, assim calculando multiplicadores que, como por magia, se aplicados ao presente permitiriam conhecer o futuro. Esquecendo-se daquela velha história que ensina que o bater de asas de uma borboleta no Japão pode provocar um furacão no Atlântico, pretendem reduzir a complexidade das relações humanas a uma simples relação directa de causa-efeito, sem perceberem que tomam o lugar das leitoras de cartas Tarot. E, ainda por cima, com frequência erram gravemente no cálculo dos multiplicadores, como já aconteceu com o próprio FMI.
Certamente que o conhecimento do passado, também nas chamadas ciências económicas, é extremamente importante para tomar boas decisões, até para evitar erros passados. Mas daí a pensar que se pode prever o futuro com fórmulas matemáticas que ainda por cima escondem pressupostos escolhidos à vontade do freguês, vai o passo que faz a diferença entre a ciência e a... chamemos-lhe fantasia, que até tem o condão de deixar mal quem nela cai na asneira de confiar cegamente.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 21 de Setembro de 2015

Uma constante?

Em Inglaterra, o Governo conseguiu ultrapassar a crise e voltar ao crescimento; as sondagens davam empate técnico: venceu folgado o partido no Governo. 
Na Grécia, o Governo chegou a acordo com a troika e preparou um novo resgate que evita a saída do euro, pelo menos a curto prazo; as sondagens davam empate técnico: o partido no Governo venceu folgado. 
Em Portugal, o Governo cumpriu o memorando assinado com a troika, o FMI foi-se embora e o crescimento regressou; as sondagens dão empate técnico: o partido no Governo........(a completar no dia 4/X).

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

E o Luso aqui tão perto (Crónica de viagem)



Coimbra é o centro geográfico de uma pequena região dotada de numerosos locais apelativos, dotados de características próprias e que, no seu conjunto, constituem uma zona com um valor extraordinário, do ponto de vista turístico. Tudo isto a pouco mais de meia hora de viagem de automóvel, o que facilita as deslocações de ida e regresso, com tempo para usufruir daquilo que nos é oferecido. Locais que mereceriam ser tratados em conjunto do ponto de vista turístico, em conjunto com a própria cidade de Coimbra, dada a sua complementaridade evidente.
A Lousã, com a sua serra e as aldeias dantes abandonadas e que hoje constituem um conjunto cosmopolita. A paisagem impressionante de Penacova com o rio Mondego a correr no fundo da serrania. Montemor-o-Velho e o seu castelo magnífico sobre os belíssimos campos do Mondego. A Figueira da Foz, quer como praia, quer como cidade, sem esquecer as outras praias de Quiaios, Mira e Tocha. A Curia com o parque das termas, o Grande Hotel e o seu parque, para além do único campo de golf verdadeiramente perto de Coimbra. Entre tantos outros de que espero falar em breve, são tudo locais com belezas diferentes e encantos próprios tantas vezes esquecidos dos guias turísticos elaborados em função de regiões turísticas agigantadas que tendem a esquecer o pormenor.

A norte de Coimbra, e bem perto, está ainda a Serra do Buçaco, com a sua mata valiosíssima do ponto de vista ambiental e o magnífico Hotel que, para além dos seus serviços de qualidade excepcional, nos proporciona a sua extraordinária beleza arquitectónica e paisagística. Dos seus jardins que se podem usufruir livremente, é possível partir para passeios pedestres pelas matas, quer para a Cruz Alta no cimo da serra, quer para a vila do Luso, no fundo da serra.
A vila do Luso, que mais parece uma Sintra em miniatura pelas suas belezas naturais e edificações, tem vindo a ser objecto de uma reabilitação urbana cuidada por parte da Câmara da Mealhada, que lhe melhorou substancialmente os espaços públicos, incluindo as fontes de água onde desde sempre qualquer pessoa se pode abastecer livremente da água do Luso que a mala do seu carro conseguir conter em garrafões.
Bem nas proximidades da fonte, está o “Casino do Luso”, edificado no século XIX sobre os balneários das termas. Também este edifício foi restaurado, mostrando-se hoje em toda a magnificência do seu salão com o tecto pintado em 1910 pelo pintor Gabriel Constante.

 A história deste edifício e do seu sugestivo nome vem de, no início do século XX, ter sido arrendado ao Casino Peninsular da Figueira da Foz, depois de ter sido “Club” e “Grémio”; Alguns anos depois, a Sociedade de Águas do Luso passou a explorar directamente o espaço, mantendo-se, no entanto, a designação até aos dias de hoje.
Se o “Casino” do Luso só por si já merece uma visita, a exposição que neste momento acolhe é um motivo acrescido para a deslocação ao Luso. Estão a passar 205 anos sobre a Batalha do Buçaco e no Casino do Luso está montada uma interessante exposição sobre o conhecimento geográfico daquela região nessa altura da História, bem como de partes do país com particular enfoque nos locais que tiveram algo a ver com a passagem dos exércitos franceses durante as invasões. Nesse tempo, eram os Engenheiros militares que tinham a função de fazer os levantamentos e de os passar para as cartas, não havendo ainda Engenheiros civis, tendo as cartas uma importância crucial para as operações militares, como se sabe. Grande parte das cartas existentes na altura foi levada para o Brasil com D. João VI e o seu séquito, outra parte foi depois levada de Portugal pelos franceses e também pelos ingleses. Do espólio de cartas desse tempo actualmente existente em Portugal, foram impressas cartas com explicações técnicas e históricas, que estão em exposição no Casino do Luso até ao fim deste mês. 

Para quem não se interessar tanto por este assunto, há algo mais a justificar a visita. De facto, estão expostas dezenas de caricaturas com figuras a três dimensões, que reproduzem com bastante rigor os uniformes militares portugueses desde o início da nacionalidade até aos dias de hoje.
Como frequentador usual do Luso, sempre achei estranho que seja raro encontrar por lá conimbricenses que, provavelmente, vão procurar muito mais longe tudo o que aquela vila oferece, incluindo hotelaria para as mais diversas bolsas, termas e SPA. E o Luso está aqui tão perto, caro leitor, que vale mesmo a pena a pequena viagem para lá ir.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Um cidadão inteiro

Lembro-me bem de, há já bastantes anos, o Diário de Coimbra ter publicado uma notícia sobre o desenvolvimento de um forno solar perfeitamente funcional e comercializável por um aluno liceal da nossa Cidade, chamado Pedro Saraiva. Coimbra tinha ali o primeiro contacto com a criatividade e capacidade empreendedora de alguém que se viria a tornar conhecido em todo o país. Devo fazer aqui uma declaração de interesses, dado que, embora muito mais tarde, vim a desenvolver não só uma grande admiração por Pedro Saraiva, mas também uma relação de amizade pessoal.
A carreira académica de Pedro Saraiva foi notável e não podia ser de maior sucesso. Licenciou-se brilhantemente em Engenharia Química na Universidade de Coimbra, podendo aqui prestar testemunho de uma conversa que tive sobre ele, enquanto aluno, com o professor de uma das cadeiras do seu curso e que me disse ter classificado o Pedro Saraiva com um vinte, sendo aliás o único vinte que deu na sua vida de professor universitário. Sendo ele próprio um cientista rigoroso e exigente mas justo, concluiu que aquele aluno sabia pelo menos tanto como ele sobre aquela matéria de química pelo que, em consciência, aquela era a única classificação que lhe poderia atribuir. Pedro Saraiva viajou depois para Boston nos Estados Unidos, para se doutorar com menos de trinta anos de idade no Massachusetts Institute of Technology (MIT) que é, como sabemos, uma das escolas de Ciências e Tecnologia mais prestigiadas do mundo, onde vários prémios Nobel são professores. Regressado à Universidade de Coimbra, onde hoje é Professor Catedrático, desenvolveu uma carreira como cientista e investigador na área da engenharia química, mas também nas áreas da qualidade, da inovação, do empreendedorismo, desenvolvimento de processos e sistemas e ainda de gestão. Entretanto, foi vice-reitor da Universidade, sabendo-se da sua acção profícua na ligação da investigação universitária ao mundo empresarial.
Ele próprio desenvolveu uma actividade empresarial intensa, provando que não se é empreendedor a falar sobre isso, mas a fazer, umas vezes com sucesso total, outra vezes falhando; a que acrescentou ainda uma permanente acção associativa nas áreas do empreendedorismo e vida empresarial
A certa altura da sua vida Pedro Saraiva dedicou-se à causa pública. Foi presidente da Comissão de Coordenação da Região Centro, função a que se dedicou com toda a sua capacidade e conhecimento.
Pedro Saraiva foi também Deputado à Assembleia da República durante dois mandatos, até à legislatura que agora termina. Durante este último mandato, calhou-lhe ser o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ao BES. Todos tivemos oportunidade de ir observando as intervenções de algumas das personalidades chamadas a depor nessa CPI, percebendo-se a complexidade do caso e a dificuldade de, através das declarações contraditórias, umas ao ataque e outras à defesa, compreender como a dívida do BES foi circulando por um conglomerado de empresas. Mostrando a sua inteligência fulgurante e a sua memória prodigiosa, o Deputado Pedro Saraiva, de tal forma conseguiu deslindar aquele emaranhado, com total independência, mas também aplicando todos os seus conhecimentos matemáticos, de sistemas e de comportamento de processos complexos, que o relatório preliminar que produziu recebeu rasgados elogios de todos os grupos parlamentares, da esquerda à direita.
O Pedro Saraiva, tomo a liberdade de o tratar assim aqui, como aliás no dia-a-dia toda a gente que o conhece o faz é, apesar do que acima fica escrito e que é apenas uma pequena parte do que sobre ele poderia ser dito, uma pessoa humilde, nunca se lhe ouvindo qualquer manifestação de importância ou de superioridade. Não levanta a voz a ninguém, nunca o ouvi apresentar-se como professor da universidade e nunca mas mesmo nunca, como professor catedrático, nem sequer para fazer ver algum ponto de vista, ainda que com razão. À formação superior que recolheu numa das melhores universidades do mundo além da Universidade de Coimbra, alia de facto uma educação exemplar, assim brilhando também por aqui numa cidade que vive ainda hoje mergulhada numa doutorice tantas vezes bafienta.
No fim do seu mandato como Deputado que exerceu de forma brilhante, e antes das eleições para uma nova legislatura na qual não vai participar é-lhe devido, na sua terra, o reconhecimento pelo que fez que aqui, pela minha parte, deixo de forma simples. De facto penso que, se é verdade que o silêncio é muitas vezes de ouro, não é menos verdade que ficar calado é muitas vezes significado de medo e hipocrisia, deixando tantas vezes o terreno livre para que a mediocridade faça o seu caminho, o que se reflecte obrigatoriamente num futuro pior do que poderia e deveria ser.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Crónica de viagem: Vá ao norte cá dentro.

Embora quem observe as promoções dos diferentes organismos de turismo quase nem dê por isso, há um norte português a visitar, para além do Porto e do Douro, sem qualquer desprimor para estas regiões que, evidentemente, merecem bem ser visitadas e conhecidas.
Claro que o sul de Portugal tem atractivos muito ligados ao calor, às praias e ao Verão, razões mais que suficientes para que as estradas para essa zona do país apresentem nesta altura o movimento que se sabe. Mas o norte tem, além do mais, todo o substrato cultural e social que nos explica como país, como José Mattoso explica e descreve na sua "Identificação de um País".
Percorrer o norte desde Viana do Castelo até ao Gerês é toda uma peregrinação pelo nosso passado e pela nossa identidade, felizmente ainda bem visíveis na paisagem e que as gentes com as suas vivências mantêm bem presentes.
Viana é hoje uma cidade que atrai muitos turistas, grande parte deles da Galiza, possuindo infraestruturas modernas, como por exemplo estacionamento central, que facilitam a visita ao centro da Cidade.
Guimarães, com todo o seu quase culto a D. Afonso Henriques, conseguiu aliar um notório desenvolvimento económico a uma recuperação notável do centro histórico que à noite apresenta uma permanente animação cultural variada e moderna. As ruas estão imaculadamente limpas e é bem interessante que até os empregados de restaurante apresentem na sua roupa referências ao primeiro rei e à classificação como património mundial da UNESCO. Cabe aqui referir que, ao contrário de cultivar rivalidades estéreis, Coimbra e Guimarães poderiam ambas ganhar através da exploração das complementaridades historicas evidentes.
Mas o Norte tem uma zona pouco divulgada, com um caracter único e belezas raras: o Gerês e as Terras de Bouro. O Minho apresenta-se aqui com toda a sua pujança de verde e de vida, a que se alia a força bruta de uma natureza indomável. O gigantesco monólito de granito que alberga o antigo castelo e que domina a Póvoa de Lanhoso é símbolo da dureza destas terras que se reflecte na personalidade das gentes, afáveis mas sólidas nas suas maneiras de pensar e de ser.


 

O Parque Natural da Peneda-Gerês é uma permanente surpresa para os sentidos. Passear pelo seu interior, seja pelas estradas e caminhos, seja pelos trilhos pedestres ou a cavalo, permite encontrar locais paradisíacos e paisagens deslumbrantes. Desde a beleza selvagem da barragem de Vilarinho das Furnas até à povoação do Gerês com os desportos náuticos, a variedade é total. As Caldas do Gerês surgem no meio de uma vegetação frondosa, apelando às memórias dos tempos em que as águas curativas chamavam gentes de muitos lados, algo que hoje renasce com características dos tempos modernos.
As diversas quedas de água são impressionantes e de grande beleza. A cascata de Picães obriga a uma caminhada por trilhos de montanha até se poder atingir o local onde as águas caem de grande altura, permitindo um banho retemperador na piscina natural. As cataratas do Arado desenvolvem-se numa grande extensão através das penedias pela serra abaixo. Em toda a região é possível observar animais vivendo de forma selvagem.
O turismo encontra-se organizado entre nós, desde os anos sessenta do século XX, essencialmente à volta das praias e do Sul. O Norte de Portugal apresenta características únicas, do ponto de vista de paisagem, s. A oferta é enorme e de qualidade, baseada não em grandes hotéis, mas em casas de turismo rural que se encontram em todo o lado, permitindo uma interacção com os residentes locais que enriquece os visitantes do ponto de vista cultural, para além da actividade turística típica.
Parafraseando um célebre publicitário dos tais anos sessenta do século passado, caro leitor, vá ao Norte, cá dentro.




segunda-feira, 17 de agosto de 2015

As mulheres, grandes vítimas da guerra

Uma das últimas novidades do auto-denominado Estado Islâmico dá conta da justificação religiosa encontrada por aquela gente para uma das maiores barbaridades que praticam com regularidade, a chamada “teologia da violação”. Já era conhecida a prática da venda de mulheres e meninas para exploração sexual pelos combatentes islâmicos, mas o que veio agora a público pelos testemunhos de algumas sobreviventes ultrapassa o que se pudesse imaginar e tem que ser divulgado e denunciado. De acordo com esses testemunhos em primeira mão, a violação das mulheres adquiriu uma dimensão sistemática e organizada que a torna numa acção central das tácticas dos jihadistas, fazendo mesmo lembrar a organização nazi para extermínio dos judeus. Os islamitas do DAESH criaram uma rede de casas especializadas onde as mulheres são aprisionadas, com salas para a sua inspecção e marcação. Existe ainda uma rede de transportes para levar as mulheres aos combatentes que lhes foram destinados, tendo mesmo sido elaborado um manual de instruções para as violações, incluindo a justificação teológica para esses actos, descrevendo-os como espiritualmente benéficos. Há relatos de meninas violadas de forma horrenda, que descrevem como os islamitas rezam antes e depois daquelas acções, tidas como aceites pelo Corão. A existência de mulheres escravizadas como objectos sexuais tem mesmo sido usada como propaganda pelos islamitas, para chamar novos jovens combatentes, pelo que não é algo que escondam, antes pelo contrário, é algo que faz parte intrínseca da organização social do chamado Estado Islâmico.
A guerra tem sido, ao longo da História, uma razão para a prática de violações sistemáticas de mulheres, pelo que o que se passa actualmente no dito Estado Islâmico não é, infelizmente, caso único.
Na antiguidade e na idade média, o fim das guerras significava normalmente o saque das terras e cidades conquistadas que constituía o pagamento aos soldados vencedores, incluindo a escravização e a passagem pelo fio da espada das populações aí residentes, bem como a violação das mulheres.
Mais recentemente, na Segunda Guerra Mundial o exército japonês aprisionou centenas de milhares de mulheres coreanas e chinesas, levando-as para bordéis onde foram feitas escravas exclusivamente para satisfação dos desejos sexuais dos soldados japoneses. 
Chamavam-lhes eufemisticamente “mulheres de conforto”. Esta vergonha conhecida mas calada durante muito tempo, não motivou ainda qualquer pedido de perdão por parte dos governantes japoneses, que apenas reconhecem ter o Japão tomado algumas atitudes impróprias naquela guerra. Tendo na semana passada ocorrido o 70º aniversário da capitulação japonesa, ainda não foi desta vez que as muitas mulheres abusadas repetidamente pelos soldados japoneses, muitas delas ainda vivas e aguardando por tal, puderam ouvir um simples “pedimos perdão” para poderem morrer mais pacificadas.Devemos ainda lembrar o caso da guerra na Bósnia nos anos 90 do século passado em que a violação sistemática de mulheres, acompanhada pela morte de toda a população masculina, foi deliberadamente usada para limpeza étnica, tendo os responsáveis sido levados perante o TPI. Os casos de violações sistemáticas de mulheres nos conflitos armados em África, designadamente na República Democrática do Congo e na Serra Leoa e mais recentemente na Nigéria estão aí para mostrar que este não é um problema localizado.
As instituições internacionais têm defendido que, nos últimos anos, a violação sistemática de mulheres como resultado do fim dos conflitos armados tem vindo a diminuir, não sendo já a “norma” o que, sendo evidentemente positivo, não diminui a gravidade dos casos concretos. Trata-se de algo inaceitável em pleno século XXI, à luz das próprias normas internacionais vigentes que prevêem tribunais penais internacionais para este tipo de crimes, pelo que não se percebe que ainda não tenha sido pedida a sua constituição para os responsáveis do dito Estado Islâmico. A grotesca justificação religiosa utilizada pelos islamitas para os seus actos, que anula as mulheres como Pessoas e as torna simples objectos de prazer dos homens, só vem agravar todo o contexto de violações sistemáticas que estão neste mesmo momento a ser levadas a cabo de forma organizada.