quarta-feira, 3 de junho de 2026

BOA EDUCAÇÃO, PRECISA-SE

 Uma das mudanças sociais mais evidentes, para quem já anda por cá há uns anos, reside numa alteração evidente no relacionamento entre as pessoas. Habitualmente essa alteração é atribuída à crescente influência das redes sociais sobre os comportamentos pessoais, que terão consequências na capacidade de desenvolvimento de empatia com o outro. Como resultado do nível social familiar ou mesmo da escola, até se poderá encontrar alguma afabilidade no trato mas, como se sabe, isso é apenas exterior e mesmo artificial. Ainda que tal possa parecer importante para algumas pessoas e possa satisfazer relacionamentos em encontros meramente sociais, não traduz qualquer empatia, não significa capacidade de alguém se colocar no lugar do outro e assim melhor o compreender. Na verdade, é cada vez mais difícil encontrar amabilidade no relacionamento inter-pessoal, querendo o bem do outro e sendo capaz de ajudar espontaneamente, tendo gestos de cuidado seja perante quem for. Quando as crianças e jovens vivem num mundo dominado pelos écrans, onde o que aparece é completamente artificial e impessoal, onde muitas vezes impera mesmo uma violência gratuita em que ganha quem destruir mais e mais depressa, nem afabilidade e muitas menos amabilidade se podem desenvolver.  Quando os adultos se fecham em redes sociais em que os algoritmos enformam uma realidade virtual onde só surge aquilo capaz de provocar “likes”, o seu relacionamento com o outro diferente, seja em que aspecto for, é igualmente marcado pela falta de empatia, ainda que mascarada por uma afabilidade artificial.

Trata-se aqui do que habitualmente se chamava de má-educação social. Manifesta-se na ultrapassagem nas filas, na condução automóvel agressiva em meio urbano, na travessia à frente de quem passa, enfim, nas mais diversas situações correntes de inter-relacionamento que, com a maior das facilidades, se transformam em situação de conflito.

Mas há outras causas para estas situações que têm relação com as chamadas políticas de educação, isto é, com as escolas dos nossos filhos e com confusões de conceitos demasiado frequentes, mesmo em quem as não devia ter. É frequente ouvir responsáveis políticos pela educação e mesmo muitos professores aos mais diversos níveis afirmarem que “o mais importante na escolas são as crianças”. Lamento, mas isso é apenas um chavão que pode enganar incautos mas que, se for mesmo levado à letra só pode conduzir a maus resultados que se reflectirão mais tarde negativamente na vida adulta das crianças. Na verdade, o mais importante nas escolas é a educação das crianças, o que faz toda a diferença. E educar é muito mais do que simplesmente transmitir conhecimentos, ou “competências” como está na moda dizer, embora entre nós tal não corresponda à realidade, com as consequências de falta de produtividade que todos conhecemos. Por alguma razão já há muito se ultrapassou a fase de falar em “instrução” que etimologicamente significa encher de palha. E todos conhecemos pessoas que encheram o cérebro com grandes conhecimentos e se elevaram aos mais altos graus académicos mas que em termos de educação ficam muito a desejar: são instruídas, mas pouco educadas.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 1 de Junho de 2026 

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