O título desta crónica é uma tradução literal de uma das canções mais emblemáticas dos Beatles, que fecha o também notável disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band publicado em 1967: “A DAY IN THE LIFE”. Esta canção, por muitos considerada a obra-prima absoluta dos Fab Four, torna-se ainda mais impressionante vista com os olhos da actualidade, e não apenas do ponto de vista musical. Ao olhar friamente para a notícia da morte de Tara Browne, herdeiro da Guiness, num desastre automóvel, misturando essa tragédia com factos banais do dia-a-dia, parece criticar-se o nosso mundo de hoje, em que notícias de diversas importâncias e significados se confundem e se sucedem a um ritmo avassalador. O resultado é uma visão do mundo fragmentada e pessimista, muitas vezes mesmo catastrofista.
Tendo até hoje vivido 26.267 dias, muitos deles acabaram por ser apenas mais um dia na minha vida que hoje completa 72 anos. Apesar das notícias de personagens que ainda hoje procuram beber a água da “fonte da juventude”, a vida pressupõe a morte que para todos nós virá, mais cedo ou mais tarde. Entre aqueles dias de vida, alguns houve em que a morte descaradamente rondou bem perto. Em dois deles, chegou a fazer parar o coração, obrigado a bater de novo pelos médicos numa dessas vezes, mas acordado de novo de forma inexplicável aos quinze anos quando a consciência já via de cima o corpo inerte rodeado da família em aflição extrema. Mas bem perto andou também a morte quando foi possível fazer regressar à vida um afogado, através da respiração boca-a-boca e compressões torácicas, mesmo sem nenhum curso de primeiros socorros.
Todos nós descendemos do “Homo sapiens” surgido há cerca de trezentos mil anos, o que é praticamente um instante quando a vida surgiu na Terra há uns quatro mil milhões de anos. O planeta onde vivemos pertence ao sistema solar que por sua vez é uma parte minúscula da galáxia chamada Via Láctea que tem centenas de milhares de milhões de estrelas. Já a Via Láctea é apenas uma das mais de um milhão de milhões de galáxias existentes no Universo observável, que não fazemos a mínima ideia do que é, onde começou e onde acaba.
Tudo isto para dizer que verdadeiramente importante é perceber qual o nosso lugar na linha da vida e no espaço que ocupamos transitoriamente, isto é, o relacionamento com “o outro” e o respeito pelo planeta onde vivemos que devemos conservar para as gerações vindouras. Ao Pai e à Mãe que tive a sorte de ter devo tudo o que sou e estou infinitamente grato pelo carinho e paciência com que me orientaram e pela vista grossa às imensas asneiras que fiz. Mas os filhos e os netos são outra história. São a nossa “máquina do tempo” que nos continua para o futuro e nos dão a certeza de que a nossa passagem por esta vida não foi em vão.
Este é mais “um dia na vida” como cantavam os Beatles. As notícias dos jornais e das televisões continuam a trazer-nos a realidade imposta pelos disparates de tantos dos “grandes” deste mundo, lá fora e cá dentro. Mas os dias todos que já passaram nesta vida ensinaram-nos que, verdadeiramente importantes, são a consciência de que viemos ao mundo com um propósito e que somos amados e queridos por quem verdadeiramente importa.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 15 de Junho de 2026
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