segunda-feira, 22 de junho de 2026

SONS, RUÍDOS E MELODIAS

 

O compositor oriundo de Coimbra Sérgio Azevedo publicou recentemente um livro com o sugestivo título “O que sempre quis saber sobre Música Clássica e teve medo de perguntar”. Destinado ao público em geral, mas também a conhecedores do assunto aborda, de forma objectiva e simples compreensão, diversas matérias ligadas ao tema. Explica quando se devem bater palmas, mas também como se compõem os diversos tipos de orquestras, quais os instrumentos musicais e a estrutura das diversas composições musicais. Para um simples amador desse género de música, como o autor destas linhas, é uma obra preciosa e de extremo interesse.

Sérgio Azevedo justifica também o seu programa na rádio Antena 2 chamado “Ao sabor da corrente”, afirmando: “porque o mundo está cheio de ruídos, sons e belas melodias”. E quem não estará de acordo?

Uma das características desta época histórica em que vivemos é a possibilidade de poder escolher dentro de uma extrema diversidade de propostas musicais, quer as produzidas contemporaneamente, quer as de séculos de actividade artística. Não vou ao ponto de achar que alguns dos estilos actuais como reggaeton, funk brasileiro, rap/hip-hop e outros se devam classificar como sons ou ruídos já que há imensa gente que os houve com gosto. Apenas não serão belas melodias, mas claro, gostos não se discutem e têm o direito a fazer parte da cultura contemporânea

Por isso mesmo posso reinvindicar para mim próprio o direito a ouvir as músicas de que gosto. Entre elas, aquela a que se chama, um pouco impropriamente, “música clássica”, porque essa designação se refere a um período histórico da música, entre o barroco e o romantismo. Há quem, em alternativa, a designe por “música erudita”, talvez porque para a apreciar seja necessária alguma formação cultural com o significado de erudição. Não estou inteiramente de acordo porque muita gente a aprecia completamente, ainda que não tenha muita “erudição”. Chamemos-lhe, então, música clássica, seja qual for o período histórico em que foi composta, mesmo o moderno com as suas “dissonâncias”.

A música clássica, se tem algo a distingue, é consistir numa sequência de notas com ritmo como as outras, mas também harmonia e melodia: as notas sucedem-se como se reflectindo o funcionamento do próprio universo.

A música clássica pode ser desfrutada em casa, através de audição de gravações, seja pelos métodos tradicionais de disco, CD, ou mesmo por streaming, usando simples aparelhos ou sofisticadas e dispendiosas aparelhagens. Mas nem mesmo estas substituem a audição ao vivo de um agrupamento reduzido ou uma orquestra com maestro.

É por isso mesmo que as cidades que pretendem afirmar-se culturalmente não podem prescindir de terem auditórios capazes mas, fundamentalmente, de terem orquestras residentes que possam apresentar com continuidade e qualidade repertórios variados de música clássica. Em Portugal não existem muitas cidades, para além de Lisboa e Porto, sempre elas, que possam afirmar ter essa capacidade. Coimbra é uma delas. Que assim continue, para que também os apreciadores de música clássica tenham a possibilidade de usufruir da oferta artística que preferem.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 22 de Junho de 2026 

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