terça-feira, 8 de setembro de 2026

ELES NÃO SABEM NEM SONHAM…

 

QUE ENQUANTO UM HOMEM SONHA O MUNDO PULA E AVANÇA

Quando estudava no Liceu D. João III em Coimbra, surgiu uma música que se tornou quase num hino da juventude desse tempo, cantada por Manuel Freire, cuja letra era “PEDRA FILOSOFAL”, um poema de António Gedeão. Mal sabíamos, então, que o poeta ali cantado não era mais nem menos que o pseudónimo do autor de um livro de capas pretas que todos nós usávamos como guia para experiências de Química, um professor chamado Rómulo de Carvalho.

Pode parecer estranho que, num momento da História da Humanidade atravessado por tantos e graves problemas provocados por personalidades que mal conseguimos compreender, comece uma crónica com citação de um poema que celebra a Liberdade e espelha um optimismo justificado pela capacidade de sonhar com um mundo melhor.

Mas há uma razão para esta introdução e reside no lançamento para o espaço pela NASA, há uma semana, de um novo telescópio espacial que se vai juntar ao outro em actividade desde 2022, o conhecido James Webb, que tanto tem feito avançar a ciência, em particular a astrofísica. O local definido para se colocar, onde chegará daqui a três meses, é designado como o segundo ponto de Lagrange Sol-Terra. Apesar de distar 1,6 milhões de km da Terra, foi escolhido por estar no lado oposto ao Sol onde as forças gravitacionais do Sol e da Terra se equilibram, permitindo ao telescópio acompanhar a órbita da Terra.

Este novo telescópio espacial deverá permitir mapear vastas regiões do espaço 100 mil vezes mais rapidamente do que o Hubble, podendo revelar milhares de planetas exteriores, estudar galáxias e melhorar o conhecimento da matéria escura. Nesta área da Astrofísica, cada grama de conhecimento que se ganha carrega consigo toneladas de novas dúvidas e perplexidades, pelo que a melhoria das capacidades técnicas é crucial para a evolução da ciência.

Só o lançamento deste novo telescópio espacial, cujo desenvolvimento, construção e envio para o espaço custou verbas colossais, visando o aumento do conhecimento humano dos mistérios do Universo em que existimos e de que somos menos que um grão de areia, já seria motivo para se olhar para o futuro da Humanidade com optimismo. Mas outras circunstâncias fazem ainda com que esse optimismo seja ainda mais justificado. O nome deste novo telescópio espacial é “ROMAN SPACE TELESCOPE”. E quem foi Nancy Grace Roman, a Mulher assim homenageada pela NASA?

Nancy Roman foi a primeira mulher a atingir um lugar executivo e a primeira Chefe de Astronomia na NASA, numa altura em que era muito difícil para as mulheres trabalhar em ciência, em particular naquela área. Certa das vantagens em colocar um telescópio no espaço, acima da atmosfera terrestre, levou dezenas de anos, nas décadas 60 e 70 a convencer disso os colegas astrónomos da NASA, bem como outros cientistas e responsáveis governamentais. Finalmente os seus esforços foram coroados de êxito, tendo o financiamento sido aprovado em 1977 e o Hubble sido lançado em 1990. Por esta razões, Nancy Roman, que faleceu em 25 de Dezembro de 2018 passou a ser conhecida como a “Mãe do Hubble”. Sem ela, é muito provável que ainda hoje não existissem telescópios no espaço. Para além da sua actividade científica, Nancy Roman fez questão de encorajar outras mulheres a seguirem carreiras na ciência e astronomia, sendo inspiradora de centenas de cientistas em astronomia e outras áreas de ciência.

O tributo que a NASA lhe presta dando o seu nome a este extraordinário instrumento científico que é o novo telescópio espacial é inteiramente justificado. É igualmente motivo de esperança numa Humanidade que é capaz de reconhecer a vida extraordinária de uma Mulher que sonhou aquilo em que, no seu tempo, mais ninguém acreditava. Contribuindo, assim, decisivamente para a evolução da Ciência, do conhecimento do nosso Universo e uma aproximação do como e do porquê estarmos aqui e qual pode ser o nosso futuro.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 7 Setembro 2026 

 

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