Se há dito popular com que não concordo de todo é aquele que diz que “palavras, leva-as o vento”. Como é evidente, desde logo as palavras escritas, ainda que nas páginas dos jornais que todos os dias se renovam, têm um valor social enorme por influenciarem decisivamente a percepção comum do que sucede no mundo, esteja perto ou longe. Como cronista há mais de vinte anos, estou bem consciente desse facto, aliás, quando me esqueço de que as palavras vão ter com os leitores, muitos deles fazem questão de mo lembrar directamente, muitas vezes na rua, comentando aquilo que escrevi, de acordo ou não, mas sempre de uma forma sincera e agradável. Exactamente o contrário do que sucede na internet, em que o anonimato serve de capa às mais desvairadas e violentas críticas, uma das mais negativas facetas do espaço cibernético. Mais do que as dos jornais, são ainda as palavras dos livros, que podemos guardar e ir revisitar em qualquer momento, a exercer uma influência sobre pensamento e formação da consciência individual e colectiva como mais nenhum meio consegue.
E é precisamente o hábito de leitura de jornais e revistas, no meu caso pessoal diria quase vício permanente desde há muitas dezenas de anos, que cria um sentimento crítico sobre as palavras que nos são apresentadas. Sentimento crítico esse que, nos dias de hoje, nos traz frequentemente muita insatisfação relativa ao que lemos. Sei bem que a premência da novidade e de encher permanentemente o mundo informativo tem como consequência um resvalar do cuidado com a escrita e, muito pior, uma desatenção com a verdade do que se transmite.
Caso diferente é a utilização das palavras para enganar os leitores com mentiras que visam manipular a opinião pública, numa total desconsideração pelos leitores e pela sua liberdade de escolha. Muitos dos autores são já conhecidos por defenderem posições políticas mais ou menos radicais, reflectindo os seus textos isso mesmo, daí não havendo grandes consequências, por já esperar isso mesmo. Mas mais importante é a utilização da palavra de uma forma sub-reptícia, sabendo-se bem que as palavras também não são inocentes. Nos últimos dias, duas situações destas me chamaram a atenção e passo a descrevê-las, como demonstração do que acima fica dito.
Na primeira, um jornalista televisivo, ao referir-se a uma declaração de um ministro, não interessa qual, sobre um assunto corrente da governação, não encontrou outra maneira para o fazer do que dizer: “o ministro alegou que”. Isto é, o ministro não afirmou que, o ministro não explicou que, não, o ministro alegou. O jornalista sabe perfeitamente que, ao utilizar a palavra “alegou” em vez de outra qualquer, remete imediatamente o pensamento do espectador para um contexto de tribunal, por ser habitualmente utilizada em contexto jurídico. E isto também não é inocente, num contexto social e político em que a política é cada vez mais discutida nos tribunais.
Na segunda, num texto num jornal de âmbito nacional, o jornalista escreveu, sobre um estudo recente acerca da sustentabilidade da segurança social, que “o estudo partiu do pressuposto de que a seg. social tem um défice de…”. Como é do conhecimento geral, um pressuposto é um valor inicial de que se parte para um estudo que, no fim, apresenta determinados resultados. O jornalista trocou as coisas, isto é, pegou no resultado final e colocou-o no início como pressuposto. Independentemente de se achar que um estudo está certo ou errado, chama-se a isto enganar os leitores, com todas as letras, numa manipulação descarada.
As palavras têm um valor próprio e elas próprias nunca são inocentes. Mas a sua utilização difere quer se esteja num espaço informativo ou num espaço de opinião. Há exigências diferentes que, a não serem respeitadas, podem mesmo constituir um ataque à liberdade de informação, tão importante para a formação de uma consciência colectiva.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 31 de Agosto 2026
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