terça-feira, 6 de outubro de 2026

A SOCIEDADE QUE OFERECEMOS AOS JOVENS

 A notícia da passada quinta-feira neste jornal dava conta de que 40% dos nossos jovens estudantes, do 3º ciclo do ensino básico e do secundário, são afectados por depressão. Não se trata de uma afirmação gratuita ou resultado de um inquérito sem representatividade, dado que envolveu mais de 18 mil estudantes de 259 escolas nacionais. Isto é, quase metade dos jovens portugueses apresentam sinais depressivos.

Não sou especialista na matéria, mas sou um cidadão comum, pai e avô, que em determinada altura da vida passou tangencialmente pela Educação e que, essencialmente, se preocupa com o futuro da nossa sociedade, quando os actuais jovens irão viver a sua via activa. O estudo em causa envolve o programa “Mais Contigo” que promove a saúde mental em contexto escolar, de que um dos promotores é a escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra. Assim sendo, só podemos esperar que as Entidades que dedicam a esta matéria com profissionalismo e especialização consigam levar os jovens a superar aqueles problemas de forma rápida e segura.

Questão muito diferente, e é aquela que nos deve preocupar a todos, é tentar compreender as razões desta situação que não pode ser considerada normal e da qual os jovens serão os menos responsáveis. Certamente vários aspectos concorrerão para a situação actual: aspectos escolares certamente, mas também contextos familiares e da sociedade em geral. As sucessivas alterações da organização escolar, com introduz exames, tira exames, ora é necessário produzir competências, ora a formação é que é essencial, etc. etc. têm a necessária consequência de produzir ansiedade e mesmo alguma desmotivação em muitos jovens. A falta de continuidade das aulas (veja-se o que se passa com as greves deste fim de semana!) relacionada também com uma disparatada organização nacional de colocação de professores, só pode conduzir a desmotivação de professores e alunos. As famílias, principalmente as de menores recursos, têm uma capacidade muito limitada de acompanhar os seus jovens, com uma vida profissional que não lhes permite esse acompanhamento.

E quanto à sociedade em geral? Olhemos para o que se passa em Portugal no que diz respeito à saúde mental. Segundo dados internacionais de 2024–2026, Portugal tem 163,4 utilizadores de antidepressivos por cada 1.000 habitantes, o que corresponde a 16,3% da população. Estamos no 2.º lugar entre os países da OCDE, apenas atrás da Islândia (168,9 por 1.000), sendo a média europeia de 60–90 por 1.000. Mas também no que respeita a ansiolíticos Portugal tem historicamente um dos consumos mais elevados de medicamentos da Europa.

Isto é, em Portugal, os jovens não estão sozinhos no que respeita a problemas generalizados de saúde mental. É a própria desestruturação da nossa sociedade que cria as condições para que muitas pessoas se sintam desorientadas, ansiosas ou mesmo perdidas com sentimentos de solidão e necessidade de fuga à realidade. Criámos uma sociedade em que a empatia parece um luxo despropositado e em que as posições, seja sobre o que for, surgem sempres extremadas impossibilitando um confronto normal e pacífico. Para dar um exemplo do desnorte colectivo em que vivemos, olhemos para a comoção pública nos últimos dias com a saída de Cristiano Ronaldo da selecção portuguesa de futebol. Jornalistas com dias inteiros de televisão, comentadores às dezenas para todo os gostos, jogadores da selecção acabrunhados, embora vencedores, acabando num primeiro-ministro a telefonar a Ronaldo, ao seleccionador e ao presidente da federação, temos tido de tudo. Só não tivemos bom senso colectivo e por parte dos responsáveis máximos do país. Não nos podemos, mesmo, admirar com os problemas mentais dos jovens.

Com exemplos destes e um contexto social como o que temos é caso para dizer que não podemos ficar admirados com as necessidades de apoio aos nossos jovens em termos de saúde mental. 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 5 Outubro 2026 

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