Todos nós conhecemos histórias antigas mais ou menos picarescas, no sentido de cómicas ou mesmo burlescas, cuja aceitação social advém de se considerarem fruto da irreverência dos estudantes da nossa Universidade.
Entre as mais comuns, contam-se aquelas em que grupos de estudantes assaltavam os galinheiros das residências de lentes universitários. Lembro-me de um primo meu que, enquanto estudante de Medicina, fez parte do grupo que fez um assalto natalício ao galinheiro do Doutor Nunes Vicente, de onde subtraíram um belo perú. Na noite do jantar em que o animal foi apreciado à mesa, já tarde na noite, resolveram telefonar para o assaltado argumentando com uma urgência para o fazer levantar da cama e atender o telefone; momento em que informaram o Prof. de que estavam a comer um perú, mas que sabia a pato!
Pelos anos quarenta, Coimbra conheceu um estudante que ficou na história da academia pelos constantes episódios rocambolescos da sua vida boémia. De seu nome Felisberto Pica, para sempre ficou conhecido como o “Pica”. Muitas das suas actividades acabavam por levá-lo a responder no Tribunal e, tantas vezes lá foi, que a certa altura foi condenado à expulsão da Comarca de Coimbra.
O Pica, estudante de Medicina, foi acabar o curso no Porto, onde veio a exercer como médico. Um dia em que veio a Coimbra de comboio para ver um jogo da sua amada Académica, consta que trouxe uma padiola, sobre a qual seguiu até ao estádio; sendo interpelado pela polícia sobre o cumprimento da interdição legal, leu ao agente da autoridade a sentença que referia expressamente que “não podia pisar terra de Coimbra” o que ele estava a cumprir, já que na padiola estava espalhada terra vinda do Porto.
A acrescentar a todas estas histórias sobre a passagem do Pica por Coimbra há uma outra, completamente verdadeira, que não vem em livro ou jornal nenhum. O Pica andou vários anos, creio que sete, a tentar entrar em Medicina, mas sem conseguir passar no exame de aptidão à Universidade. Até que, num desses exames, resolveu tirar à sucapa a prova escrita já feita à rapariga examinanda que estava na carteira à sua frente, copiou o que pôde e devolveu depois a prova. Assim conseguiu, finalmente, passar à prova oral. Claro que a academia em peso acorreu para assistir à prova, ocupando a sala por completo e ainda os corredores. Nem o facto de o examinador ser o velho “Trincãozão” o bem conhecido Doutor Trincão, conhecido pelo seu rigor, alterou a situação de enorme pressão em que as respostas do Pica foram apenas anedóticas conseguindo, contudo, entrar finalmente em medicina. Dali seguiu o Pica em ombros até à Baixa, parando no caminho para comprar umas dezenas de bilhetes-postais. Já no café “A Brasileira”, distribuiu os postais pelos clientes, saltou para cima de uma cadeira e ditou o texto dirigido ao Pai anunciando a entrada em Medicina e dando os parabéns já que, segundo ele, se fosse o próprio a dar a notícia, ninguém acreditaria.
E a estudante cuja prova escrita ele havia roubado e copiado? Tratava-se de uma rapariguinha oriunda de uma aldeia serrana do concelho da Covilhã que foi também à oral. Mas, estarrecida com a multidão à volta do rapaz que lhe tirara o exame, na sua humildade ficou incapaz de responder a qualquer pergunta. Chumbou sem apelo nem agravo, pelo que saiu dali e foi inscrever-se no Magistério Primário para aprender a profissão que seria a sua toda a vida: uma das heroínas portuguesas do sec. XX, esquecidas e nunca suficientemente homenageadas pelo que fizeram pelas crianças portuguesas.
Sei desta história, porque a rapariguinha viria a ser a minha Mãe, poucos anos depois. O Pica foi médico pelo resto da vida e ficou eternamente conhecido pelas suas tropelias enquanto estudante. A minha Mãe foi Professora Primária durante dezenas de anos, consequência da esperteza de um rapaz apenas brincalhão que gozava a vida e se estava nas tintas para quem, eventualmente, atropelasse. Se algum motivo me leva a partilhar esta história que seja o de obrigar a pensar que, muitas vezes, temos atitudes que até poderão ter graça e até nos darão jeito, mas que devemos, sempre, ter cuidado em que não prejudiquem outros que o acaso leva a estarem ali e cuja vida acaba por ser completamente alterada.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 28 de Setembro de 2026
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