segunda-feira, 2 de novembro de 2026

QUEM MANDA NO MUNDO?

 Enquanto se discute ainda se a Inteligência Artificial (IA) será capaz de poder tomar conta de sistemas capazes de tomar decisões com consequências decisivas para o futuro da Humanidade, o prémio Nobel Geoffrey Hinton, considerado como o padrinho da IA acredita que esta já poderá ter consciência, “podendo ter experiências subjectivas semelhantes aos humanos”. Se na China a investigação nesta área está dependente do Estado como tudo o que é importante no resto do mundo, e em particular nos EUA, são empresas privadas que dominam o sector, sendo gigantes a nível mundial em influência e valor bolsista de capitalização, como são: a OpenAI, a Google DeepMind, a Anthropic, a Meta AI, a Microsoft Research, a NVIDIA Research ou a xAI de Elon Musk. Discute-se muito a regulação na investigação de IA mas, no fundo, é apenas alguma auto-regulação que existe, se é que existe, dada a enorme competição entre as empresas.

Todos nós somos já, de alguma forma, utentes da IA de que dependemos cada vez mais. Toda a actividade humana, desde a simples escrita de textos até à produção industrial ou mesmo à guerra depende da utilização de equipamentos e maquinaria que integram, no seu funcionamento, alguma forma de IA. Se há pouco tempo se poderia comparar o surgimento da IA a descobertas anteriores da Humanidade como o fogo ou a roda, já se percebeu que esta comparação não faz sentido. Ao contrário daqueles, os robôs da IA podem por si mesmos determinar a continuidade da sua função, mesmo que algures fora da sua localização original.

As redes sociais começaram como simples partilha de opiniões ou manifestações de acordo ou desacordo, mas hoje não são nada disso, influenciando e mesmo manipulando vontades colectivas através dos seus algoritmos. A sua eficácia em estratégias de comunicação é incomensurável, quase fazendo de Goebbels e da sua estratégia de propaganda nazi uma brincadeira de crianças. A guerra na Ucrânia está a mostrar toda uma nova maneira de guerrear, no que se convencionou chamar “guerra híbrida”. Já não é preciso fazer declarações formais de guerra, combinando operações militares convencionais com ciberataques, desinformação, sabotagem contra redes informáticas, utilização de “proxis”, etc. Tudo isto potenciado pela novíssima tecnologia colocada pela IA à disposição dos países. Também aqui as empresas privadas têm um novo papel que pode decidir o resultado das guerras, ultrapassando soberanias. A Ucrânia está dependente, quer na defesa contra mísseis e drones russos, quer no ataque com meios semelhantes, do Starlink e do Starshield, ambos sistemas de comunicações por satélites propriedade de Elon Musk.

Quem manda realmente no mundo já não são os que elegemos, que apenas parecem ter capacidade de mandar em coisas simples que, na realidade, pouco definem como vivemos. Desde que a Microsoft passou a servir de base a quase todos os nossos computadores e que a Apple e a Google mandam nos telemóveis que connosco comunicam de forma pessoal, não tenhamos dúvidas: mandam mais em nós do que os nossos governantes.

As transações financeiras que, a cada segundo, dão várias voltas ao mundo já não respondem aos governos: viajam ao sabor dos algoritmos e das taxas de retorno dos grandes fundos, sejam ou não soberanos, ou mesmo de pensões. As criptomoedas ajudam a manter na escuridão os gigantescos negócios clandestinos que influenciam boa parte da economia exposta.

Os governos dos regimes liberais deixaram-se apanhar numa cilada e muitas das reacções populares a que hoje assistimos são resultado de sentimentos difusos de incapacidade de mudar verdadeiramente e de incompreensão pelo que se passa; já nem nas contas dos países mandam verdadeiramente, como nós bem sabemos: as taxas de juro, as empresas privadas de ranking e as dívidas gigantescas dominam as finanças que se dizem (ou julgam) soberanas.

Estamos a viver um momento de mudança radical em que sabemos de onde vimos, mas não fazemos ideia de para onde vamos. 

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 2 Novembro 2026 

LYSENKO DEIXOU ESCOLA?

 Hoje está praticamente esquecida, mas a história do lysenkoismo merece ser recordada.

Entre 1928 e 1964 o Estado soviético adoptou como oficial uma pseudociência baseada nas ideias de um suposto cientista brilhante chamado Trofim Lysenko. Este agrónomo defendia a “herança dos caracteres adquiridos”, segundo a qual todos os organismos evoluiriam reagindo ao ambiente. Por exemplo, uma planta exposta ao frio ou à humidade reagiria tornando-se mais resistente, passando essa mudança às plantas suas descendentes. O mesmo se passaria com os animais e mesmo os humanos, naquilo a que ele chamava "vernalização".

Lysenko rejeitava, assim, a existência de genes, cromossomas e a selecção natural. Os seres vivos evoluiriam apenas de acordo como ambiente e os estímulos externos.

Em todo o mundo o conhecimento evoluía no sentido do que hoje é a base científica da biologia moderna e consequentes desenvolvimentos da própria medicina e da alimentação de toda a humanidade. Já a União Soviética enveredava por adoptar oficialmente uma verdadeira fraude científica. E isto durante grande parte do sec. XX, o que atrasou a investigação científica russa na área da genética durante dezenas de anos. A genética era mesmo apelidada de "ciência burguesa, idealista e fascista".

E porque é que isto aconteceu? Porque se integrava perfeitamente com a ideologia comunista segundo a qual o Homem Novo soviético poderia ser moldado pelo ambiente socialista: se o ambiente muda a planta, o ambiente socialista muda o homem. Estaline encontrou aqui uma justificação “científica” adequada à aplicação prática da ideologia soviética. Nomeou Lysenko director da Academia das Ciências Agrícolas da URSS, proibiu a pesquisa em genética e enviou para a prisão e mesmo à morte cientistas que se dedicavam à pesquisa genética. Enquanto o ocidente descobria a estrutura do ADN, na União Soviética ainda se discutia se os genes existiam.

Claro que a aplicação prática das teses de Lysenko à agricultura foi um desastre, causando produções agrícolas desastrosas, o mesmo tendo acontecido na China quando Mao importou as teorias soviéticas. O lysenkoismo representa perfeitamente o que sucede quando a ideologia tenta moldar a ciência aos seus objectivos.

Mas foi o próprio Marx que escreveu, em 1852, que “A história se repete por assim dizer, duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.”

Não posso deixar de me lembrar da tragédia original quando a “ciência do género” tenta esconder uma realidade inescapável: os seres humanos têm dois sexos, através dos quais se verifica a reprodução e consequente manutenção da espécie bem como a sua evolução. Só possível através dos cromossomas de espermatozóides e óvulos. Esta noção, que parece tão simples, e é resultado do desenvolvimento científico da genética, é hoje colocada em causa pela ideologia que sustenta que ao nascer o ser humano não é masculino ou feminino. Será, assim, o ambiente em que se vai desenvolver que define o género que pode ser diferente das características sexuais com que nasceu. A biologia deverá submeter-se à ideologia que, supostamente, coloca os seres humanos numa igualdade mais perfeita e justa.

Claro que a disforia de género existe e deve ser tratada com toda a nossa empatia e respeito possibilitando a aplicação das técnicas que a ciência médica desenvolveu, com vista a obter o equilíbrio pessoal.

Muito diferente é saltar para a farsa que Marx definiu para a repetição da História. Quando se tenta “fabricar” uma ciência que se adapte à política ou à ideologia, está provado que o resultado só pode ser trágico. Quer para o equilíbrio da sociedade como um todo, quer para os indivíduos que, acreditando inocentemente em melhorias, são cobaias de tratamentos que, ironicamente, apenas os tornarão exteriormente semelhantes aos estereótipos que dizem rejeitar.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em  26 Outubro 2026

RETROCESSO CIVILIZACIONAL

 Por uma vez esta crónica foge deliberadamente a uma das suas características-base que é a de não fazer críticas e apenas propor algo positivo. Contudo, penso que há situações em que não nos podemos deixar de indignar, partilhando essa reacção, já que nada mais podemos fazer para contrariar a realidade.

Felizmente, tenho plena consciência de que a pena de morte é algo quase genericamente abandonado pelo mundo embora, desgraçadamente, ainda haja muitos países que a considerem uma pena justificada e a pratiquem. Segundo a Amnistia Internacional, os países que mais usaram a pena de morte em 2024 são: surge em primeiro lugar a China com milhares de execuções por ano pelos mais diversos motivos, a que se seguem o Irão com mais de 972 execuções, a Arábia Saudita com pelo menos 345, o Iraque com pelo menos 63, o Iémen com pelo menos 38 e outros países com números claramente inferiores como o Egipto, a Somália, os EUA, Singapura e o Vietname.

Portugal foi um dos primeiros países a abolir a pena de morte para crimes civis em 1867. Em 1911 foi abolida para praticamente todos os crimes, tendo havido uma excepção durante a Primeira Guerra Mundial para certos crimes militares em teatro de guerra. A partir de 1976 a Constituição proibiu a pena de morte, sem excepções. A última execução em Portugal ocorreu em 1846.

A admissibilidade da pena de morte pressupõe um poder do Estado sobre a pessoa humana difícil de aceitar para quem defende os direitos humanos. Por outro lado, é algo de definitivo, de impossível reversão, mesmo que se venha a descobrir um erro judicial na base da decisão.

A execução da pena de morte de forma pública é, também, hoje algo condenável sob todos os pontos de vista, consistindo num espectáculo deprimente que apenas servirá para demonstrar o poder de quem o pratica. O objectivo será sempre o de causar medo em quem assiste, assim se obtendo um tipo de superioridade não aceitável num regime que se queira civilizado. Por isso mesmo, as execuções públicas são praticadas no Irão, na Coreia do Norte, no Afeganistão e na Arábia Saudita. A última execução pública na europa Ocidental terá sido a de Eugen Weidmann pela guilhotina em Paris, em 1939, e o espectáculo mediático que se seguiu levou a França a proibir definitivamente as execuções em praça pública.

Devido aos novos meios de comunicação, por execução pública não se pode considerar apenas o que se passa no local onde se pratica. É possível levar o espectáculo lamentável a todo o mundo em directo. É o que se passa normalmente no Irão, mas também as execuções criminosas levadas a cabo por grupos como os extremistas islâmicos que lançavam homossexuais do alto de prédios ou cortavam a garganta a jornalistas, tudo em directo, pela internet.

A actual administração norte-americana presidida por Donald Trump anunciou, pela voz do sec. da Defesa Pete Hegseth, que vai transmitir em directo ao público a execução do ex-major do Exército Nidal Hasan, condenado à morte pelo ataque de Fort Hood (Texas) em 2009, que causou 13 mortos. A execução deverá acontecer em 3 de Dezembro, por pelotão de fuzilamento. Se isto acontecer, será a primeira execução militar norte-americana desde 1961 e a primeira por fuzilamento desde 1945.

Não está aqui em causa a justeza da condenação de Nidal Hasan, já que o seu crime está claramente provado. Em causa estão todos os outros aspectos, desde a pena de morte em vez de prisão perpétua até aos pormenores da sua execução.

Neste ano de 2026 os EUA vão juntar-se, com esta acção, a um grupo de países que se podem considerar dos mais atrasados em termos de direitos humanos. É patente que Donald Trump tem provocado graves problemas económicos e sociais ao seu próprio povo. Tem alterado o relacionamento internacional, fazendo gala em surgir sistematicamente como aliado ao lado dos líderes mundiais mais ditatoriais como Putin, Xi Jinping e Kim Jong-un. Só faltava mesmo que Donald Trump viesse patrocinar um retrocesso lamentável no respeito dos direitos humanos, ao patrocinar a todo o mundo o espectáculo de uma execução ao vivo.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 19 de Outubro 2026

 

QUEM FOI MARGARET HAMILTON?

 Um dos acontecimentos mais marcantes da minha vida foi, sem dúvida, a descida dos primeiros homens na Lua em 20 de Julho de 1969, era eu adolescente. Já contei nestas linhas que fiquei acordado à espera de que a transmissão directa televisiva a preto e branco chegasse ao momento decisivo, para chamar a família. Foi assim que todos assistimos aos momentos marcantes dos primeiros passos de homens na Lua, para sempre ficando na memória os nomes de Neil Armstrong e de Buzz Aldrin, bem como o de Michael Collins que ficou a aguardar por eles no módulo de comando que haveria de os trazer de volta à Terra.

Os nomes dos astronautas da Apollo XI ficaram na História, mas aquele sucesso só foi possível com o trabalho preparatório de centenas de pessoas que trabalhavam na NASA para que o cumprimento da promessa de John Kennedy fosse possível.

Entre os cientistas que tornaram o feito possível conta-se uma mulher cujo nome na altura ficou na sombra, mas que merece ser lembrada e homenageada, agora que faleceu, aos 90 anos. Chamava-se Margaret Hamilton e chefiava a equipa de informáticos do programa Apollo.

Muita gente não sabe que foi o programa informático por ela desenvolvido que salvou a missão Apollo XI e, possivelmente, a vida dos astronautas que foram à Lua e voltaram em segurança. De facto, quando o módulo Eagle iniciou a descida para a superfície lunar, soaram alarmes de mau funcionamento dos equipamentos, obrigando a tomar a decisão de continuar ou abortar a missão. A decisão de continuar foi tomada em função do software desenvolvido por Margaret Hamilton e a sua equipa que permitiu a continuação, sobrepondo-se às deficiências técnicas detectadas.

As fotografias da então jovem programadora ao lado da pilha de folhas de códigos informáticos mostram a diferença entre a informática dos dias de hoje e de então. Os códigos eram escritos à mão em papel e depois introduzidos nos limitados computadores de então através de cartões perfurados. Esta mulher foi pioneira no desenvolvimento da engenharia de software, tendo sido crucial para a abertura de um caminho que nos trouxe aos dias de hoje em que discutimos as possibilidades, vantagens e perigos da inteligência artificial.

Margaret Hamilton, enquanto estudante de matemática, entrou no MIT (Massachusetts Institute of Technology) para trabalhar no departamento de meteorologia, desenvolvendo software para previsões meteorológicas. Quando, no meio da década de 60, o MIT começou a colaborar no projecto Apollo da NASA, Margaret Hamilton foi a primeira mulher a integrar a nova equipa de programação informática passando, pouco tempo depois, a ser a directora da divisão de engenharia de software.

Margaret Hamilton poderia parecer uma mulher simples, mas a sua determinação e dedicação às suas tarefas levaram-na a exercer funções da mais alta responsabilidade em instituições de vanguarda tecnológica. Numa altura em que às mulheres eram normalmente entregues funções de segunda categoria, ela mostrou como isso é um disparate. Para além de exercer a sua tarefa de programadora, Margaret Hamilton foi elevada aos cargos de direcção mais exigentes, mostrando que homens e mulheres são iguais nas suas capacidades, seja qual for a função que esteja em causa.

O trabalho de Margaret Hamilton foi reconhecido em 2016 quando o Presidente Barak Obama a agraciou com a “Medalha da Liberdade”, a mais alta condecoração civil dos EUA, tendo ainda sido integrada no “National Aviation Hall of Fame“ em 2022.

É costume dizer-se que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher; não deve haver situação em que isso seja tão verdade como esta em que os homens que se tornaram imortais por serem os primeiros a descer na Lua só o foram pelo trabalho de uma mulher. O seu nome era Margaret Hamilton.

Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 12 de Outubro 2026