Um dos acontecimentos mais marcantes da minha vida foi, sem dúvida, a descida dos primeiros homens na Lua em 20 de Julho de 1969, era eu adolescente. Já contei nestas linhas que fiquei acordado à espera de que a transmissão directa televisiva a preto e branco chegasse ao momento decisivo, para chamar a família. Foi assim que todos assistimos aos momentos marcantes dos primeiros passos de homens na Lua, para sempre ficando na memória os nomes de Neil Armstrong e de Buzz Aldrin, bem como o de Michael Collins que ficou a aguardar por eles no módulo de comando que haveria de os trazer de volta à Terra.
Os nomes dos astronautas da Apollo XI ficaram na História, mas aquele sucesso só foi possível com o trabalho preparatório de centenas de pessoas que trabalhavam na NASA para que o cumprimento da promessa de John Kennedy fosse possível.
Entre os cientistas que tornaram o feito possível conta-se uma mulher cujo nome na altura ficou na sombra, mas que merece ser lembrada e homenageada, agora que faleceu, aos 90 anos. Chamava-se Margaret Hamilton e chefiava a equipa de informáticos do programa Apollo.
Muita gente não sabe que foi o programa informático por ela desenvolvido que salvou a missão Apollo XI e, possivelmente, a vida dos astronautas que foram à Lua e voltaram em segurança. De facto, quando o módulo Eagle iniciou a descida para a superfície lunar, soaram alarmes de mau funcionamento dos equipamentos, obrigando a tomar a decisão de continuar ou abortar a missão. A decisão de continuar foi tomada em função do software desenvolvido por Margaret Hamilton e a sua equipa que permitiu a continuação, sobrepondo-se às deficiências técnicas detectadas.
As fotografias da então jovem programadora ao lado da pilha de folhas de códigos informáticos mostram a diferença entre a informática dos dias de hoje e de então. Os códigos eram escritos à mão em papel e depois introduzidos nos limitados computadores de então através de cartões perfurados. Esta mulher foi pioneira no desenvolvimento da engenharia de software, tendo sido crucial para a abertura de um caminho que nos trouxe aos dias de hoje em que discutimos as possibilidades, vantagens e perigos da inteligência artificial.
Margaret Hamilton, enquanto estudante de matemática, entrou no MIT (Massachusetts Institute of Technology) para trabalhar no departamento de meteorologia, desenvolvendo software para previsões meteorológicas. Quando, no meio da década de 60, o MIT começou a colaborar no projecto Apollo da NASA, Margaret Hamilton foi a primeira mulher a integrar a nova equipa de programação informática passando, pouco tempo depois, a ser a directora da divisão de engenharia de software.
Margaret Hamilton poderia parecer uma mulher simples, mas a sua determinação e dedicação às suas tarefas levaram-na a exercer funções da mais alta responsabilidade em instituições de vanguarda tecnológica. Numa altura em que às mulheres eram normalmente entregues funções de segunda categoria, ela mostrou como isso é um disparate. Para além de exercer a sua tarefa de programadora, Margaret Hamilton foi elevada aos cargos de direcção mais exigentes, mostrando que homens e mulheres são iguais nas suas capacidades, seja qual for a função que esteja em causa.
O trabalho de Margaret Hamilton foi reconhecido em 2016 quando o Presidente Barak Obama a agraciou com a “Medalha da Liberdade”, a mais alta condecoração civil dos EUA, tendo ainda sido integrada no “National Aviation Hall of Fame“ em 2022.
É costume dizer-se que por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher; não deve haver situação em que isso seja tão verdade como esta em que os homens que se tornaram imortais por serem os primeiros a descer na Lua só o foram pelo trabalho de uma mulher. O seu nome era Margaret Hamilton.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 12 de Outubro 2026
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