Hoje está praticamente esquecida, mas a história do lysenkoismo merece ser recordada.
Entre 1928 e 1964 o Estado soviético adoptou como oficial uma pseudociência baseada nas ideias de um suposto cientista brilhante chamado Trofim Lysenko. Este agrónomo defendia a “herança dos caracteres adquiridos”, segundo a qual todos os organismos evoluiriam reagindo ao ambiente. Por exemplo, uma planta exposta ao frio ou à humidade reagiria tornando-se mais resistente, passando essa mudança às plantas suas descendentes. O mesmo se passaria com os animais e mesmo os humanos, naquilo a que ele chamava "vernalização".
Lysenko rejeitava, assim, a existência de genes, cromossomas e a selecção natural. Os seres vivos evoluiriam apenas de acordo como ambiente e os estímulos externos.
Em todo o mundo o conhecimento evoluía no sentido do que hoje é a base científica da biologia moderna e consequentes desenvolvimentos da própria medicina e da alimentação de toda a humanidade. Já a União Soviética enveredava por adoptar oficialmente uma verdadeira fraude científica. E isto durante grande parte do sec. XX, o que atrasou a investigação científica russa na área da genética durante dezenas de anos. A genética era mesmo apelidada de "ciência burguesa, idealista e fascista".
E porque é que isto aconteceu? Porque se integrava perfeitamente com a ideologia comunista segundo a qual o Homem Novo soviético poderia ser moldado pelo ambiente socialista: se o ambiente muda a planta, o ambiente socialista muda o homem. Estaline encontrou aqui uma justificação “científica” adequada à aplicação prática da ideologia soviética. Nomeou Lysenko director da Academia das Ciências Agrícolas da URSS, proibiu a pesquisa em genética e enviou para a prisão e mesmo à morte cientistas que se dedicavam à pesquisa genética. Enquanto o ocidente descobria a estrutura do ADN, na União Soviética ainda se discutia se os genes existiam.
Claro que a aplicação prática das teses de Lysenko à agricultura foi um desastre, causando produções agrícolas desastrosas, o mesmo tendo acontecido na China quando Mao importou as teorias soviéticas. O lysenkoismo representa perfeitamente o que sucede quando a ideologia tenta moldar a ciência aos seus objectivos.
Mas foi o próprio Marx que escreveu, em 1852, que “A história se repete por assim dizer, duas vezes: a primeira como tragédia, a segunda como farsa.”
Não posso deixar de me lembrar da tragédia original quando a “ciência do género” tenta esconder uma realidade inescapável: os seres humanos têm dois sexos, através dos quais se verifica a reprodução e consequente manutenção da espécie bem como a sua evolução. Só possível através dos cromossomas de espermatozóides e óvulos. Esta noção, que parece tão simples, e é resultado do desenvolvimento científico da genética, é hoje colocada em causa pela ideologia que sustenta que ao nascer o ser humano não é masculino ou feminino. Será, assim, o ambiente em que se vai desenvolver que define o género que pode ser diferente das características sexuais com que nasceu. A biologia deverá submeter-se à ideologia que, supostamente, coloca os seres humanos numa igualdade mais perfeita e justa.
Claro que a disforia de género existe e deve ser tratada com toda a nossa empatia e respeito possibilitando a aplicação das técnicas que a ciência médica desenvolveu, com vista a obter o equilíbrio pessoal.
Muito diferente é saltar para a farsa que Marx definiu para a repetição da História. Quando se tenta “fabricar” uma ciência que se adapte à política ou à ideologia, está provado que o resultado só pode ser trágico. Quer para o equilíbrio da sociedade como um todo, quer para os indivíduos que, acreditando inocentemente em melhorias, são cobaias de tratamentos que, ironicamente, apenas os tornarão exteriormente semelhantes aos estereótipos que dizem rejeitar.
Publicado originalmente no Diário de Coimbra em 26 Outubro 2026
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