
Como todos os anos, a Queima é a festa em que Coimbra se reencontra consigo mesma, enquanto recebe literalmente gente de todo o mundo.
Uma foto do cortejo ao acaso (bem, não totalmente...)
jpaulocraveiro@ gmail.com "Por decisão do autor, o presente blogue não segue o novo Acordo Ortográfico"
O Papa Bento XVI tem vindo a referir-se com muita ênfase sobre a questão do relativismo nas sociedades ocidentais, particularmente na Europa, denunciando as ameaças que contém para as novas gerações.
Mais recentemente voltou a focar esta grave questão na sua viagem aos Estados Unidos da América.
A sociedade ocidental cada vez mais “light” tende a confundir relativismo com tolerância, que é coisa muito diferente. Não há uma preocupação em conhecer em profundidade as diversas posições em causa na sociedade de forma a assim perceber os seus fundamentos e objectivos. Em consequência, não se estabelece uma clara distinção entre as diversas posições, caindo-se frequentemente na posição de tolerar tudo como tendo o mesmo valor e sendo igualmente aceitável.
Nada de mais errado e perigoso.
Torna-se pois necessário pugnar pelo conhecimento e pela cultura histórica, a fim de defender toda a nossa civilização de quem, e são muitos, a tenta minar por dentro. Não se pense que muitos dos ataques aos fundamentos culturais e religiosos da nossa civilização acontecem por acaso. Na realidade, fazem parte de uma agenda oculta de partidos e movimentos oriundos quase todos da extrema-esquerda de outros tempos que passo a passo vão destruindo os fundamentos da civilização ocidental, que as revoluções dos “amanhãs que cantam” não conseguiram derrubar pela força. Como afirmou Bento XVI em Washington, “0s conflitos pessoais, a confusão moral e a fragmentação do conhecimento colocam novos desafios para a formação académica e a educação, fundados na unidade da verdade e no serviço à pessoa e à comunidade”.
Dotar a juventude de uma educação sólida que forneça bases de cultura sustentada é a única via para fugir ao flagelo do nosso tempo que é o relativismo. Caso contrário será a nossa própria civilização que ficará fragilizada e à mercê de qualquer fundamentalista, já que os critérios de valoração estarão genericamente destruídos.
Eis por que é tão importante para todos nós a luta que Bento XVI tem vindo a travar pelo reconhecimento das bases cristãs da civilização ocidental e pela Verdade.
Publicado no Diário de Coimbra em 28 de Abril de 2008
Ao propor o desafio de escrever sobre cidadania, o Director do Campeão das Províncias sabia bem as dificuldades em que colocava quem aceitasse o repto.
Aceitando escrever sobre cidadania, estou bem consciente de que, no meu caso pessoal, não poderei ir pela exploração dos conceitos filosóficos, que obviamente não domino, pretendendo tão-somente discorrer sobre as questões práticas que lhe estão ligadas.
Desde logo, o termo cidadania deriva da palavra cidade, no seu sentido comunitário, o que significa que ninguém pode ser cidadão sozinho. Tanto do ponto de vista político como do ponto de vista jurídico, o exercício da cidadania obriga a um relacionamento com os restantes elementos da sociedade, assumindo o respeito por um conjunto de deveres e direitos, em igualdade de circunstâncias.
Representando uma perspectiva minimalista do exercício dessa mesma cidadania, há quem considere que, para se ser bom cidadão, bastaria então cumprir todas as leis, por ter automaticamente acesso aos chamados direitos de cidadania, em virtude de se ser cidadão (logo, tendo uma atitude passiva). A cidadania seria, desta forma, o exercício rotineiro dos seus direitos e obrigações; por exemplo, indo votar sempre que há eleições, ou pagando os impostos devidos. Fazendo o mínimo, na convicção de que basta esse mínimo para ser cidadão pleno.
Nada de mais errado, a meu ver. Isto acontece porque muita gente confunde hoje em dia os deveres com os direitos.
A cidadania exercida sem uma atitude de aproximação aos outros cidadãos é inteiramente vã. Cria apenas uma sociedade fria e burocrática, que funciona bem oleada, de um ponto de vista estritamente mecânico. Pode até suceder que a generalidade dos indivíduos cumpra os seus deveres, mas não se cria uma comunidade coesa. A cidadania plena implica um esforço de compreensão pelas dificuldades dos outros cidadãos. Desde logo, porque à igualdade formal em deveres e direitos perante a lei se sobrepõem as desigualdades reais, enquanto indivíduos naturalmente diferentes. O exercício da cidadania exige a prática de deveres, implica a construção de plataformas de entendimento e pontes com os outros cidadãos, nos mais diversos níveis. Por isso é tão necessária a existência de associações que agreguem cidadãos com perspectivas semelhantes da organização social e da definição de objectivos de futuro e sua prossecução, como é o caso dos partidos políticos, por exemplo, cuja importância social tantos tentam denegrir.
Mas a cidadania não se esgota com a actividade política. Uma sociedade bem estruturada não prescinde de uma rede de ligações entre cidadãos que permita o exercício de solidariedade organizada, como por exemplo as numerosas Organizações Não-Governamentais ou as Instituições Particulares de Solidariedade Social, que, através do voluntariado de cidadãos, preenchem as lacunas no apoio aos desprotegidos da sociedade, a quem o Estado por qualquer razão não chega. Exige ainda a existência de estruturas de organizações apartidárias, que agregam cidadãos com interesses semelhantes patrocinando a livre discussão de temas importantes, esforçando-se por contribuir para melhorar um ou outro aspecto da organização social, como é o caso dos “Clubes de Serviço” (exemplo dos Lions e Rotários). Muitas outras formas de participação cívica existem, servindo praticamente todos os gostos, desde a publicação de artigos de opinião assinados à participação em Associações de Pais, entre tantas outras.
As novas tecnologias permitem novas intervenções cívicas mais ou menos personalizadas, possibilitando a qualquer cidadão a activa – e imediata – intervenção na sociedade, como é o caso dos “blogues”.
Fundamentalmente, o que é necessário é ter a consciência de que só somos verdadeiramente cidadãos em liberdade e exercendo os nossos direitos cívicos, quando temos consciência dos deveres para com os outros cidadãos, e os exercemos efectivamente.
Publicado no Campeão das Provincias em 24 de Abril de 2008